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sábado, 4 de agosto de 2018

Trump e Putin juntos para o fim da ordem liberal

RELAÇÕES INTERNACIONAIS

  • José Auguato Filho

26/7/2018, 0:05

A contribuir para agravar a erosão da ordem liberal, Trump não perde oportunidade de semear mais discórdia e permitir o fortalecimento da narrativa do Kremlin sobre a debilidade dos valores ocidentais

Nunca a ordem mundial liderada pelos americanos depois de 1945 esteve tão ameaçada. A governança mundial baseada em valores e normas, que sobreviveu aos anos mais tensos da Guerra Fria, agora parece não ter a mesma vitalidade para resistir aos ataques dos inimigos da liberdade em tempos de paz quente. Entretanto, a principal fonte de fraqueza do liberalismo internacional está relacionada com o papel desempenhado pelos idealizadores e patrocinadores da atual ordem, os Estados Unidos. Suas ações controversas diante de antigos aliados e de adversários recalcitrantes têm contribuído para a erosão dos pilares que sustentam o edifício liberal – solidariedade democrática, segurança coletiva, cooperação multilateral e livre mercado.

Desde que tomou posse em janeiro de 2017, Donald Trump tem se mostrado um frenético e ambicioso jogador, mas de habilidade duvidosa na condução dos negócios estrangeiros. Cada tweetdo presidente americano soa como um furacão capaz de desestabilizar o equilíbrio do sistema internacional. Na esteira de uma sequência de decisões polémicas, como o corte drástico no orçamento da ONU, Trump protagonizou na semana de 10 a 16 de julho episódios que mostram sua disposição em desmontar décadas de política exterior americana. A estratégia concebida pelo presidente Trump de ataques frontais às instituições ocidentais parece não deixar dúvidas de que Washington está disposta a contribuir para o reordenamento mundial na direção das ambições dos principais inimigos do Ocidente.

Em Bruxelas, a aliança militar euro-atlântica foi colocada à prova. Sob ameaça de os Estados Unidos abandonarem a OTAN e seguirem sozinhos seu próprio caminho para garantir a segurança externa americana, seus membros foram instados a aumentarem a colaboração financeira. A União Europeia, cujas estruturas encontram-se abaladas pelo Brexit e pelo avanço de movimentos nacionalistas exacerbados, teve sua vulnerabilidade exposta pelas declarações inadequadas de Trump, que classificou a UE de inimiga dos Estados Unidos. As críticas depreciativas à primeira-ministra britânica e à chanceler alemã, humilhadas em tweetsdisparados entre uma reunião e outra, sinalizavam qual seria o comportamento do presidente americano no último e mais importante compromisso em solo europeu.

Oportunidade perdida

Na tão esperada reunião de cúpula com Vladimir Putin em Helsínquia, Finlândia, a primeira desde o azedamento das relações entre Estados Unidos e Rússia por conta da anexação ilegal da Crimeia em 2014, Trump optou por abraçar o inimigo e demonizar os aliados. Quem esperava que Putin seria confrontado por Trump por causa da interferência russa na eleição de 2016 decepcionou-se. Mesmo diante de evidências divulgadas pelos serviços de inteligência e agências de informação na semana anterior, Trump preferiu acreditar na palavra de Putin. Na coletiva que sucedeu à reunião entre os dois líderes, de portas fechadas e que durou mais de duas horas, Trump declarou que “o presidente Putin foi extremamente forte e poderoso em sua negação hoje”.

Em casa, a reação dos críticos foi imediata e visceral. “Vergonhoso”, “traidor” e “fraco” foram palavras usadas para qualificar a atitude de Trump, que dividia o palco internacional com o homem que ele mesmo descreveu como um importante competidor dos EUA – mas que ele também elogiou como um líder forte e eficaz. A crítica mais franca veio do senador republicano pelo Arizona John McCain, que tem se mostrado ponderado ao avaliar o governo do colega de partido, mas que não nega que houve interferência de Moscovo. Para McCain, Trump fez uma “escolha consciente de defender um tirano” e conseguiu “uma das performances mais vergonhosas de um presidente americano na memória”.

A semana foi consumida pelas tentativas da Casa Branca em gerenciar a crise instalada pelo desempenho de Trump em Helsínquia. Por outro lado, Vladmir Putin regozija-se com a vitória, mais uma. E tudo indica que vai se cansar de ganhar. A eleição de 2016, que parece nunca acabar devido à suposta intromissão russa, continua semeando discórdia e desorientação na política americana, cumprindo assim o roteiro escrito pelo Kremlin de desestabilizar e enfraquecer a democracia dos EUA. Entretanto, se o debate entre os dois líderes não ultrapassou a polémica eleição de Trump, que não deve admitir o real peso da interferência externa na sua vitória, sob pena de ter manchada a própria credibilidade da conquista do mandato, problemas de âmbito mais alargado não mereceram o tratamento que se esperava.

Se foram discutidos a portas fechadas, não resultaram em compromissos tácitos, formais. Aliás, esta tem sido a forma como Trump trata sua política exterior, na base de platitudes e shows mediáticos. A exemplo da cimeira com Kim Jong-un, que não resultou em garantia alguma de que a Península da Coreia será desnuclearizada, o presidente estadunidense tenta passar para o mundo a imagem de um protagonismo, que, superficial, não resiste à primeira interpelação de chefes de Estados autocráticos. No caso da Coreia do Norte, seria fundamental extrair de Vladmir Putin compromisso expresso com o desmantelamento da geringonça nuclear de Kim Jong-un.

Da mesma forma, o conflito no Leste da Ucrânia, envolvendo rebeldes separatistas apoiados por Moscou contra as forças convencionais do governo ucraniano pró-Ocidente e que já contabiliza mais de 10 mil mortos, parece esquecido pelos americanos e seus aliados, consumidos que estão pelos próprios problemas. Na coletiva dos chefes de Estado, houve quem avançasse a ousada questão sobre o reconhecimento americano do estatuto da Crimeia como parte do território da Federação Russa. A relutância de Trump em tratar o assunto tende a fazer com que este se torne mais um conflito congelado envolvendo o Kremlin, casos da Abecásia e a Ossétia do Sul (territórios da Geórgia), Transnístria, região pertencente à Moldávia. Todos ocupados pela Rússia sob o argumento de proteger suas minorias étnicas.

Na Síria, a situação parece seguir o mesmo caminho. Apesar de Trump e Putin terem dito que vão trabalhar juntos para garantir a fronteira de Israel com a Síria, restaurando o cessar-fogo nas colinas de Golan, e cooperar para levar ajuda humanitária para combater o impacto da guerra civil, não há muito o que se comemorar. O jogo geopolítico no Oriente Médio é muito mais complexo e também envolve a questão do programa nuclear iraniano, inimigo de Israel e presente na guerra da Síria ao lado da Rússia. Como principal aliado do Irão, Putin não foi confrontado à altura por Trump sobre a leniência de Moscovo diante do desrespeito praticado pelo regime de Teerã aos tratados internacionais de não proliferação de armas atómicas.

Com a ajuda de Trump

Quando o atual mandato de Vladmir Putin terminar, em 2024, o presidente russo terá ficado mais de 25 anos à frente do comando do país. Desde que assumiu o cargo de primeiro-ministro de Boris Yeltsin, em agosto de 1999, Putin tem direcionado seus esforços dentro e fora de casa para restaurar o statusde potência da Rússia. O líder russo consagrou-se à frente de um movimento nacionalista conservador que luta contra o decadente Ocidente. Uma narrativa que agrega valores da cultura euroasiática foi estruturada pelo Kremlin para resgatar a tradição autoritária do país em substituição à tentativa frustrada de transição do comunismo para a democracia liberal.

A alavancagem económica durante a primeira década do milénio, elevou o país ao posto de potência energética e deu à Rússia a confiança necessária para endurecer o jogo com o Ocidente (a Europa depende do gás russo para sobreviver). A afirmação hegemónica sobre o Exterior Próximo, a aliança com a China superando históricas divergências, a composição de tratados de segurança e a criação de organizações internacionais na Ásia-Pacífico têm como pano de fundo o enfrentamento ocidental e o redesenho do balanço de poder na direção da multipolaridade. Usar as instituições multilaterais para o enfraquecimento da ordem liberal é uma tática recorrente da Rússia. A ação concertada da Rússia e da China no Conselho de Segurança, por exemplo, representa a sistematização de uma estratégia que contribui para a insignificância da ONU em determinadas matérias, sobretudo naquelas relacionadas aos temas de segurança e defesa.

Os policy makers do Kremlin trabalham ativamente para fazer dos valores civilizacionais que unem a Rússia a outros regimes autoritários uma alternativa ao pretenso universalismo ocidental. Isto é, um campo de atração para democracias iliberais e regimes antidemocráticos de todos os matizes. A cumplicidade de Putin com regimes autoritários como o da China, Coreia do Norte, Síria, Irão e, no caso da América Latina, de Cuba e Venezuela, além da forma com que tenta legitimar as pretensões daqueles “Estados Perigosos”, como foram denominados pelo professor e diretor do Programa de Estudos Estratégicos da Universidade Johns Hopkins, Eliot A. Cohen, não deixa dúvida de que o mundo está vivendo uma onda reversa de democratização. Entretanto, a história é implacável em provar que toda vez que a democracia perde terreno o mundo é capturado por guerras de grandes proporções.

Em outra dimensão, da forma como o Ocidente tem conduzido suas relações exteriores, os “Estados Perigosos” não estão mais sozinhos na empreitada. Os tradicionais inimigos da ordem liberal ganharam um reforço de peso para empurrá-la para o abismo. O principal artífice da desordem que parece tomar conta da governança internacional reside no Salão Oval da Casa Branca desde o início de 2016. A contribuir para agudizar o processo de erosão da ordem liberal, Donald Trump não perde oportunidade de semear mais discórdia e permitir o fortalecimento da narrativa do Kremlin sobre a debilidade dos valores ocidentais, a começar pela dúvida na capacidade da democracia liberal em promover desenvolvimento constante.

Diante de crises persistentes, a divergência de conduta entre Estados Unidos e Europa parece ser a pá de cal que faltava ao internacionalismo liberal iniciado por Woodrow Wilson no início do século XX. Enquanto europeus valorizam o respeito aos tratados e instituições, americanos abraçam a geopolítica do poder, num crescente aumento do apetite por soluções unilaterais. A recente saída do Conselho de Direitos Humanos da ONU serve de indicativo do pouco interesse dos EUA na preservação da governança mundial criada por eles próprios, abrindo profundas fissuras na antiga aliança transatlântica e gerando descrença em soluções cooperadas.

A União Europeia tem consciência de que não consegue garantir sozinha a segurança da Europa sem a cooperação americana. Uma possível saída dos EUA da OTAN, principal colaborador da organização, poderia conduzir a Europa para uma corrida armamentista. Foi precisamente o papel de garantidor de segurança internacional assumido pelos EUA a partir de 1945 que fez a Alemanha, assim como o Japão, optar pela modesta condição de trading states, na definição do pesquisador e cientista político da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA) Richard Rosecrance.

O pouco provável fim da OTAN representa a cereja do bolo que Putin quer ter o prazer de degustar. O alargamento da aliança militar na direção das fronteiras russas foi o leitmotiv do recrudescimento das relações entre a Rússia e os Estados Unidos e seus aliados europeus. Em apenas uma década e meia desde o fim da URSS, em 1991, a adesão maciça de ex-satélites soviéticos e dos três Estados bálticos às organizações ocidentais foi entendida por Moscovo como uma tentativa de cercar e isolar a Rússia, uma ameaça direta à segurança do país. Putin conseguiu interromper o avanço dos Estados Unidos sobre seus interesses nacionais. Mais ainda: os russos inverteram o jogo. Diante da franqueza do seu presidente, os interesses dos Estados Unidos continuam ameaçados em casa e no exterior. Serão necessários muitos tweetspara recolocar a máquina de política exterior americana nos trilhos. Ou não.

Doutorando em Ciência Política e Relações Internacionais no Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa. Pesquisa os desafios do multilateralismo liberal no presente contexto de transformação da ordem mundial.

Pedro Duarte pede saída de Rui Rio e diz-se “preparado” para ser líder do PSD

4/8/2018, 1:22

O PSD tem de mudar de líder e estratégia "tão cedo quanto possível". Pedro Duarte é o primeiro militante laranja a desafiar abertamente Rui Rio e diz estar "preparado" para assumir a liderança.

JOSÉ COELHO/LUSA

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Diz que não tem como objetivo “desgastar a liderança” de Rui Rio ou “pôr areia na engrenagem”, mas Pedro Duarte chega com um camião cheio a menos de um ano de eleições no país. O desafio é claro e, em entrevista ao semanário Expresso o ex-líder da JSD diz (a entrevista só está disponível para assinantes) que está “preparado para liderar uma nova estratégia no PSD e uma nova esperança para o país, em nome do interesse nacional”. Por outras palavras: o PSD deve “mudar de estratégia e de liderança tão cedo quanto possível” e ele, Pedro Duarte, está “a afirmar o que pensa e a desafiar a liderança do PSD e o partido para que faça esta reflexão”.

O ex-líder da Juventude Social Democrata é o primeiro militante com notoriedade do PSD a desafiar abertamente Rui Rio na liderança do partido e, sabe o Observador, antes de dar este passo Pedro Duarte ouviu outros quadros do partido que o incentivaram, insatisfeitos com a gestão interna de Rio. O timing também foi pensado: ao fim de seis meses de Rui Rio e com a distância suficiente para as primeiras eleições do próximo ciclo político, as europeias (que devem ser em maio do próximo ano). Com isto, confirmou o Observador entre o ciclo mais próximo do social-democrata, Pedro Duarte quis evitar fragilizar o partido mesmo em cima das eleições.

Na entrevista publicada este sábado, Pedro Duarte, de 45 anos, acusa o partido de andar a ser “aliado do Governo socialista” desde que Rui Rio é líder. O social-democrata apelida de “estratégia legítima” o caminho de Rio, mas critica a opção do líder social-democrata em não apresentar “uma única crítica direta ao primeiro-ministro ou ao PS” e de culpar apenas o modelo “geringonça” pelos erros de governação. Segundo, Pedro Duarte, esta linha relega o líder do maior partido no parlamento, o PSD, a muleta do PS de António Costa. Além disso, está convencido que, dentro do seu partido, “a maioria não quer esta opção“. Rui Rio foi eleito líder em janeiro, nas diretas do PSD onde teve como único adversário Pedro Santana Lopes.

Apesar do desafio ao líder do PSD, Pedro Duarte garante que não está “interessado em criar manobras conspirativas que visem criar turbulência” e a que sua postura é “diferente da de outros”, por não “estar com calculismos nem à espera do que possa acontecer nas legislativas para tirar proveito disso”. É por causa disso que, garante, não tem andado a reunir apoios ou a pensar em congressos extraordinários, apesar da notoriedade que ganhou no partido por ter sido líder da “jota”.

“A minha consciência cívica obriga-me a dar este passo. Faço-o por causas, não por calculismos, ou taticismos ou por ter apoios. (…) Não perdi um segundo a pensar nos métodos, no processo como isto se possa desenrolar”, garante. Também assegura que não quer tirar o partido do centro-direita: “Hoje identifico-me muito mais com visões de alguém como Emmanuel Macron, ou de partidos como o Ciudadanos, do que com muitos partidos que integram o PPE [Partido Popular Europeu] e defendem visões nacionalistas ou estão até coligados com a extrema-direita. O PSD deveria estar a provocar este debate dentro do PPE, porque é o debate que interessa — mas sobre isso não ouvi nada a Rui Rio”, aponta ainda.

Artigo atualizado às 9h30

Leia na íntegra a carta em que Santana se despede dos militantes do PSD

HÁ 43 MINUTOS

Santana Lopes oficializa a sua saída do PSD e prepara a criação de um novo partido. Leia na íntegra a carta de despedida aos militantes em que explica a sua decisão.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

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É definitivo. É oficial. Santana Lopes põe hoje fim a 40 anos de militância no PSD e comunica a decisão ao partido através de uma carta aberta. Ao Observador, o ex-líder do partido confessou em exclusivo, na tarde de sexta-feira, que “é com muita pena” que o faz, mas também “com muito entusiasmo” que trabalha “num novo caminho para fazer bem a Portugal”. Ou seja, que vai avançar mesmo para a criação de um novo partido.

A mensagem de despedida de Santana aos militantes sociais-democratas segue por carta, a partir das 10h00 deste sábado. Pode ler aqui na íntegra as explicações dadas para este bater de porta que foi tantas vezes apenas uma ameaça, mas que agora é mesmo realidade.

Entre as brumas da memória


O tempora, o mores!

Posted: 03 Aug 2018 02:09 PM PDT

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Salazar caiu mesmo de uma cadeira? Foi em 3 de Agosto de 68?

Posted: 03 Aug 2018 08:26 AM PDT

Anda por aí uma discussão quanto à data em que Salazar terá caído de uma cadeira, no início de Agosto de 1968.

Sempre considerei que foi no dia 3, baseada em muitas e variadas fontes e, antes de mais, na minha «bíblia» neste domínio: o livro de Franco Nogueira, Salazar, o último combate, vol. VI. Na página 377 (na imagem), afirma explicitamente que foi nessa data, mas não ignora a celeuma: diz que a governanta chegou a falar de dia 5, que até 4 foi aventado, mas que o célebre calista, António Hilário, registou «pelo seu punho» que «a queda deu-se em 3 de Agosto de 1968».

Acontece que, há poucos anos, alguém terá descoberto um bilhete do mesmo calista sobre o facto, escrito em 1 de Agosto. Cereja em cima do bolo: uma empregada, que estava no Forte nesses dias, fez declarações divulgadas ontem pela tsf, nas quais afirma que só muito depois dos acontecimentos ouviu falar de uma queda e de uma cadeira de lona. Mais: recorda-se de que, por lá, só existiam cadeiras e mesas de verga...

Em suma, estamos a aproximarmo-nos de uma novela parecida com a de Tancos (terá havido cadeira? queda?). Mas, por favor, não nos roubem do nosso imaginário a cadeira de lona de 3 de Agosto de 1968!

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Itália

Posted: 03 Aug 2018 06:00 AM PDT

Bem a propósito, naquele país, nos dias que correm!
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Tempos inquietos e de poucas respostas

Posted: 03 Aug 2018 03:58 AM PDT

«Sir Walter Bagehot, o criador da revista "Economist", escreveu um dia que: "Para os ricos é difícil de entender porque é que os pobres, quando têm fome, não tocam a campainha para que lhes sirvam o jantar." No século XIX, quando Bagehot viveu, a separação entre ricos e pobres era clara. A democracia de consumo iludiu essa diferença, mas o regresso da idade da austeridade, com o descalabro das contas públicas de diferentes Estados em todo o mundo, parece estar a fazer com que estejamos a regressar aos tempos descritos por Charles Dickens. Depois de 30 anos de vitória das teorias liberais nascidas da escola austríaca e postas em prática por Margaret Thatcher e Ronald Reagan, da hegemonia financeira permitida pela globalização e da colocação da classe política (mesmo à esquerda) como gestora dos interesses do mercado, todo o toque de Midas prometido parece ter começado a transformar ouro em chumbo. Não há certezas e as sociedades, após a globalização financeira, estão a fechar-se. O comércio e o dinheiro circulam, mas as pessoas voltam a ter entraves para atravessar fronteiras.

A própria situação de Portugal no quadro desta crise da União Europeia e da sociedade ocidental não surge por mero acaso. Se o capitalismo tem uma capacidade notável para se reinventar, não é menos verdade que o crescimento do desemprego e o decrescente poder de compra das classes médias parece estar a pôr em causa o contrato social sobre o qual foi erigida a democracia ocidental e o Estado social. Vivemos tempos de inquietação.

Em Portugal, claro, apenas se discute a espuma dos dias (as aventuras imobiliárias de Robles, se há comboios amanhã, porque no Algarve há médicos nos hospitais privados e não os há no SNS), sem profundidade alguma. No meio de tudo não há uma discussão séria sobre uma estratégia de transportes rodoviários em Portugal, sobre o financiamento a prazo do SNS, sobre as alterações climáticas que vão colocar este país à beira de fogos incontroláveis durante muitos períodos do ano, sobre os limites das migrações. Em Espanha, por exemplo, após a política de "braços abertos" de Pedro Sánchez, assiste-se agora a uma discussão sem paralelo sobre a capacidade espanhola de albergar dezenas de milhares de migrantes, sobretudo depois de alguns terem utilizado, para entrar, cal viva, deitando-a para cima de polícias e queimando-os. Essa discussão não faz parte do nosso dia-a-dia político, como se fosse desnecessária.

Há também um outro tema que rapidamente vai ser fulcral: o do turismo. Este ano já se assiste a um refreamento da "loucura" dos turistas para vir para Lisboa ou para o Algarve. Melhor (e mais barata) oferta em países do Mediterrâneo, a política de praticar preços obscenos em restaurantes e alojamento, qualidade deficiente, oferta cultural e divertimento muito sofrível, transportes públicos miseráveis, são questões que estão a minar a chamada galinha dos ovos de ouro há alguns anos. Se este sector entrar em declínio, para valores mais normais e estáveis, que se irá fazer? Nada disso se discute, numa sociedade em completa mutação. Mas será com esse novo mundo que a classe política se terá de defrontar daqui a pouco tempo. E terá de ter ideias para ela. De outra forma algum radicalismo as terá por eles.»

Fernando Sobral

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Salazar? Pardon my French

Posted: 02 Aug 2018 04:15 PM PDT

Depois de Robles

  por estatuadesal

(Daniel Oliveira, in EXPRESSO, 04/08/2018)

Daniel

Daniel Oliveira

(A direita tem destas coisas: a esquerda fica com a moral, eles ficam com o pão com manteiga. Ao Robles incineraram-lhe a barbicha por um "crime" que nem chegou a praticar. Ao Passos Coelho promoveram-no a catedrático depois das fraudes mais que provadas no negócio da Tecnoforma, tendo o Estado que indemnizar a União Europeia pelos dinheiros desviados. Acho que está tudo dito.

Comentário da Estátua, 04/08/2018)


Ricardo Robles comprou, antes de ser vereador, um prédio que estava a um bom preço e, depois de o reabilitar, pô-lo à venda ao seu valor de mercado. Da compra à venda que não se consumou, passando pela negociação com os inquilinos, não há nada ilegal ou ilegítimo. Há, como é habitual, um contencioso com um comerciante com o recurso legítimo, de parte a parte, aos meios judiciais. Podem escalpelizar tudo, mas o essencial é isto: Robles é condenado por ter investido em imobiliário. Quando saí da minha antiga casa, arrendei-a ao preço de mercado e hoje tenciono vendê-la mais cara do que comprei, beneficiando da inflação imobiliária. E isso não me impede de dizer que os preços praticados estão a expulsar pessoas das cidades. Não há incoerência: defendo que a regulação do mercado depende da intervenção do Estado, não da boa vontade dos investidores. Neste caso, depende de um mercado público de rendas controladas que faça baixar a média dos preços, não do altruísmo individual de um proprietário. Não é por beneficiar das escolas públicas, do SNS e das estradas que um liberal perde a legitimidade para defender o Estado mínimo. Não é por defender políticas de contenção do mercado que alguém de esquerda tem de sair do mercado. O mercado e o Estado, quando nascem, são para a esquerda e para a direita.

O exercício de hipocrisia coletiva desta semana, que só parou no ridículo momento em que Catarina Martins foi acusada de gentrificar o Sabugal, já está a ser aproveitado para tentar reverter as novas políticas de habitação. É para o que servem estas cruzadas: em nome da boa aparência ataca-se a boa substância. E é por isso que nunca as acompanho. Nem com a segurança social de Passos nem com a casa de Medina nem com o prédio de Robles. Prefiro manter o foco na política. O que tramou Robles foi ele, em vez de fazer o mesmo, dedicar-se a considerações morais sobre os agentes económicos. É o problema do Bloco: põe demasiadas vezes o moralismo no lugar da política. Não está sozinho: há anos que a direita resume o seu discurso à demonização moral dos seus adversários, e ninguém lhe cobra isso. Compreendo que as contradições dos moralistas sejam assinaladas. Mas considero desproporcionado o linchamento de Robles. Ainda mais quando, para apontar o dedo à sua hipocrisia moralista, tantos se entregaram ao mais desbragado moralismo hipócrita.

Pela primeira vez na política portuguesa, um eleito foi obrigado a demitir-se por causa de um negócio legal, legítimo, aceitável e não consumado. Passou a ser possível exigir uma demissões pela simples contradição entre convicções políticas e atos privados legítimos.

Este inédito grau de exigência é perfeitamente aceitável em democracia. Mas é importante perceber o alcance da coisa. Todos os políticos-advogados devem rever os processos que aceitaram, quem foi gestor deve revisitar os negócios que patrocinou, os deputados devem analisar as aplicações financeiras que fizeram. E ver se bate tudo certo com tudo o que disseram antes e depois. Criticam contratos com colégios e os filhos andam num privado? Opõem-se à ADSE e têm seguro de saúde? Lutam contra a precariedade e contrataram, mesmo que legalmente, a recibos verdes? Não chega cada ato ser legal, legítimo e moralmente aceitável. Se não aparentar escrupulosa coerência com tudo o que defendem, terá de se aplicar a “lei Robles”: demissão em 72 horas. Os moralistas da última semana estão preparados para isto? Eu não estaria.