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domingo, 12 de agosto de 2018

A história do rato e do psicólogo

  por estatuadesal

(António Guerreiro, in Público, 10/08/2018)

Guerreiro

António Guerreiro

Na semana passada, assistimos em Portugal a dois fenómenos extremos: um, foi o excesso de calor, parecia que a Terra tinha saído dos eixos e tudo chegara a um ponto de extenuação; o outro foi a saturação do espaço público pela proliferação de artigos, crónicas, reportagens, opiniões, comentários, que escorreram como o caudal de um rio, sobre os negócios do vereador do Bloco de Esquerda em Lisboa.

Chegou-se ao limite em que o caso do vereador era uma protuberância tão dilatada que pensámos que ela iria parir. Mas não, era apenas uma manifestação espectacular da obesidade do sistema. Não há nenhuma prova de que estes dois fenómenos extremos tenham uma causa comum ou qualquer relação um com o outro, a não ser que os incluamos na vaga ideia de extenuação por excesso e num conceito muito alargado de poluição.

Não menosprezo a justiça imanente que assistiu aos dois fenómenos extremos e a punição que em ambos se cumpriu (um consenso científico diz-nos que o homem é tão culpado das alterações climáticas como da compra de bens imobiliários). Mas gostaria de mostrar aqui o paradoxo que consiste em as coisas, ao chegarem a um nível excessivo, se anularem ou começarem até a produzir o seu contrário. No segundo fenómeno extremo a que me refiro, esse paradoxo é potenciado pelas manhas incontroláveis da reversibilidade.

A reversibilidade é uma figura que explica o modo de funcionamento de alguns sistemas actuais. Foi isso que nos ensinou o sociólogo Jean Baudrillard, com uma forte pulsão especulativa, e que até chegou a ter um andar em Alfama. As histórias de reversibilidade, escreveu ele, são sempre as mais divertidas, como a do rato e do psicólogo.

Nesta história, o rato conta como condicionou o psicólogo a dar-lhe um pedaço de pão cada vez que accionava um dispositivo da gaiola. Talvez seja precipitado transpor para a história do vereador, tal como ela se desenrolou na semana passada, um semelhante fenómeno de reversibilidade, mas uma saturação fatal, até à náusea, desviou o sentido das palavras e das frases que sobre o assunto se foram acumulando.

Quase todas elas denunciavam justamente a falsa moralidade e as incoerências políticas do vereador. Mas, por saturação, elas obstruíram o próprio sistema de onde emergiam e já só apontavam, dotadas de reversibilidade, para quem as pronunciava. Todo o discurso sobre o assunto já só parecia uma excrescência, um efeito que ganha vida autónoma, separando-se das suas causas.

Os factos implodem na hipertrofia dos comentários. E o demónio da reversibilidade perturba a possibilidade de percepções e juízos pertinentes porque se anulou até o sentido da realidade. Todo o discurso adquire então uma forma imoral e histérica, e é já só esse imoralismo que nos interpela e suscita reacção, já que o imoralismo e a contradição política insanável do vereador que começaram por ser o motivo da crítica, da denúncia e da indignação perderam substância e resistência.

O motivo da “festa” desaparece porque esta vai para além dos seus próprios fins e torna-se hipertélica. Começa por ser uma orgia, mas prolonga-se de maneira patética: há sempre alguém ainda a correr para alimentar a orgia e não deixar que ela acabe.

Não há êxtase que sempre dure, e uma orgia alimentada como uma novela deixa de ser uma orgia, é um  serviço obrigatório, mais militar do que civil.

Uma pergunta conhecida, cheia de implicações, devia ser colocada à porta onde se aglomeram tantos funcionários da palavra erecta: “What are you doing after the orgy [com o vereador imoral]”? Nada, absolutamente nada, a não ser tornar bem visível a obscenidade e a inércia de um mundo saturado.

sábado, 11 de agosto de 2018

Terreno desconhecido

Pedro Lino, Economista

Ontem 00:16

A zona euro não está preparada para guerras comerciais, muito menos financeiras. Trump tem consciência desta debilidade e sabe que o tempo joga a seu favor.

Por muito estranho que possa parecer, no dia 22 de Agosto de 2018 será batido um novo recorde mundial. Teremos 3.543 dias em que o SP500 esteve em alta sem correcções de 20 entre 2009 e 2018, ultrapassando o anterior recorde registado nos anos 90. Para muitos esta subida é estranha, uma vez que vivemos um dos piores períodos da história da Europa, com resgates, falências de instituições, taxas de desemprego incomportavelmente elevadas e, no entanto, quem tivesse investido no mercado financeiro ano após ano, teria acumulado ganhos fabulosos, superiores a 320%.

Não nos podemos esquecer que a década de 90, o maior período de expansão nos mercados, trouxe consigo a democratização da internet, com o aparecimento de empresas como a Google ou a Amazon, hoje colossos próximos do bilião de dólares.

Com a actual subida dos mercados financeiros, estamos a assistir à consolidação desses negócios, com uma consequente concentração dos índices em empresas tecnológicas. Estes recordes trouxeram para o dia-a-dia a palavra trilião, ou bilião na linguagem europeia, e não me refiro apenas às dívidas públicas e privadas, nessa ordem de grandeza. Trump poderá ficar conhecido com o “senhor bilião”, já que desde que foi eleito presidente o mercado americano valorizou mais de 7 biliões de dólares. Outro recorde que será batido este ano diz respeito ao total de recompras em acções que também ultrapassará o bilião. A reforma fiscal teve um efeito muito positivo no mercado, já que as empresas investiram parte dos lucros repatriados na recompra de acções próprias.

Aqui entra a diferença de conceitos do capitalismo. Nos EUA, o conceito de capitalismo tem por base a valorização de activos. Na Europa, capitalismo significa retirar o máximo de valor da empresa em dividendos para os seus accionistas. Esta diferença de mentalidade, suportada pela debilidade financeira dos governos e accionistas, origina uma pressão sobre a gestão das empresas focada no curto prazo. O efeito de capitalização proporcionado pela recompra de acções é muito poderoso quando comparado com a distribuição de dividendos, que retira dinheiro às empresas.

A consequência de longo prazo é o fortalecimento das empresas americanas que se autofinanciam, quer por capitais próprios, quer por dívida para a recompra de acções. O capital ruma a quem cuida dele, ou seja ao mercado mais líquido. Não é por isso de estranhar que com tanto proteccionismo, guerras psicológicas, guerras comerciais e cambiais, tensões geopolíticas, Trump consiga o que muitos duvidavam: a valorização do dólar, a subida de taxas de juro, o crescimento económico e um mercado financeiro que atrai todo o tipo de investidores.

A zona euro não está preparada para guerras comerciais, muito menos financeiras, principalmente quando tem necessidade de esvaziar os cofres das suas empresas e contribuintes. Trump tem consciência desta debilidade e sabe que o tempo joga a seu favor.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

PASSAR À DISPONIBILIDADE NO PSD

  por estatuadesal

(Clara Ferreira Alves, in Expresso, 11/08/2018)

cfa

Clara Ferreira Alves

(A Dona Clara, prosélita confessa do "bloco central", anda estarrecida com o PSD e com a incapacidade deste se apresentar como alternativa credível aos partidos da esquerda num hipotético noivado futuro com o PS. Passos Coelho, agora elevado a catedrático, do alto da cátedra deve estar a gozar fininho: o diabo não veio, mas depois dele veio o dilúvio, o dilúvio que atinge o PSD e faz a Dona Clara suspirar nos calores do verão.

Comentário da Estátua, 11/08/2018)


Nos últimos tempos, o PSD passa mais tempo a dar cabo do PSD do que é natural, apesar de ser o PSD, famoso pela querela e o dramalhão. Uma doença atacou os dirigentes e candidatos a dirigentes. Esta doença tem manifestações exógenas e exóticas do género verbal. Entre elas, uma propensão para manifestar disponibilidade. Estou disponível. Faz lembrar a famosa frase de Marco Paulo quando a internet começou a dominar o mundo e a fazer vender canções. Então e a internet, Marco Paulo? O que pensa disso? “Se a internet me quiser, estou disponível.”

O mesmo sucede com os líderes e putativos líderes, passaram à disponibilidade. Lembro-me de Passos Coelho dizer que estava disponível, embora não exagerasse a dádiva aos portugueses, limitando-se a avançar sem inimigos. Rui Rio esteve anos na disponibilidade, à espera do que ele chamava um chamamento, um clamor que se erguesse do partido e lhe entoasse o nome ao som de trompetas triunfais, e acabou por avançar sem grande convicção ou chamamento. Pedro Santana Lopes esteve disponível para ser candidato à Câmara Municipal de Lisboa, deixou de estar disponível, voltou a estar disponível e, depois de se classificar como absolutamente indisponível, considerou-se disponível para disputar com Rui Rio a liderança do partido. Acotovelado por prosélitos e oportunistas, instado e instantâneo, Santana Lopes acabou por perder, apesar de um certo chamamento de um nome que já tem um valor histórico. Santana e Rio avançaram porque todos os outros, os jovens turcos da novíssima geração, os brilhantes talentos políticos que carregarão a tocha olímpica no futuro, se consideraram indisponíveis para avançar. Ou tinham bons empregos nacionais e internacionais, ou não estavam para isso, ou faltava-lhes a coragem, ou falhava-lhes a vontade de dedicar a vida à política. Ficaram sentados a comentar os mais corajosos do que eles na televisão, onde os riscos são menores e se cultiva uma imagem senatorial que dá jeito para os negócios.

Os ultrajados pela vitória de Rio e amarrados a uma saudade eterna de Passos, um passismo passadista, ficaram nos cantos a conspirar. Um deles, Montenegro, declarou-se disponível para o futuro. O povo estará atento. E agora é Pedro Duarte, que não tem má reputação, a considerar-se disponível. E Santana, sendo Santana, resolveu sair do partido e estar disponível para fundar um novo partido. Reina a confusão. O único que esteve brevemente disponível e a seguir resolveu disponibilizar-se a tempo inteiro, entregando-se dia e noite a ganhar a eleição, foi Marcelo Rebelo de Sousa. Confessada a disponibilidade, logo rejeitada por Passos, Marcelo percebeu que a disponibilidade não valia um pataco. Era preciso trabalhar, meter a mão na massa, correr o país, falar com as pessoas, encontrar-se com os caciques e amigos e inimigos e articular uma atitude política com uma mensagem coerente. Marcelo não ficou sentado à espera que lhe caísse o cetro no colo.

Compreende-se o desencanto das hostes sociais-democratas com a vida na oposição enquanto as sondagens exaltam o PS e o elevam a quase absoluto, ou a poder com uma ajudinha do Bloco, que agora levou um tiro no porta-aviões. Percebe-se o terror de jazer na oposição nos próximos anos, vendo o país entregue à esquerda e o PSD reduzido a um partidinho, correndo o risco da autoaniquilação. E, justamente, por se calcular o perigo e existir uma possibilidade de arregimentar a metade, ou um terço, do país que não gosta de ver o PS de braço dado com o PC e o Bloco, seria natural que esta gente saísse da disponibilidade e começasse a fazer política em vez de distribuir entrevistas e comentários sobre o modo de fazer política. Sair do banco e fazer-se à vida.

Enquanto o PSD paira na angústia existencial e se retorce de inquietação, enquanto Rui Rio entende a impossibilidade de ganhar as próximas eleições, não deixando que isso lhe tire o sono, António Costa faz o que sempre fez, política. A tempo inteiro. Sem descanso. É assim que se ganham eleições, dando coiro e cabelo, lá diz o povo.

Costa estava na Câmara Municipal e não estava disponível. Quando o partido o chamou, embora não tenha sido um chamamento, Costa não disse que estava disponível. Simplesmente, avançou. Convocou eleições dentro do partido e massacrou a oposição e António José Seguro à passagem. A seguir, disputou eleições nacionais, que perdeu. Na noite da derrota, sorridente, Costa avançou com os dois partidos da esquerda e conseguiu a maioria parlamentar que necessitava para governar. De caminho, massacrou Passos Coelho e amigos. E, se virmos bem, reduziu o Bloco e o PCP a dois aliados que estão mais reféns dele do que ele deles, visto que o sabor do poder os entonteceu. E, para cúmulo, fez eleger para o Conselho Europeu, depois de ouvir os insultos de Schäuble, o amigo Centeno, o arquiteto financeiro. Não admira que o “New York Times” o considere um pioneiro da cultura antiausteritária e o grand manitou da esquerda socialista europeia. Em Espanha, Sánchez pratica a emulação, e o grego Tsipras não desdenha o método.

À direita, a malta dá um suspiro enfastiado e sopra para o lado, olha, estou disponível.

Os fogos e o aquecimento global

  por estatuadesal

(Carlos Esperança, 11/08/2018)

calor

Após duas semanas de combate ao maior fogo florestal da história da Califórnia, com os fortes meios de que dispõe uma das maiores economias mundiais, só ficará sob controlo em setembro, segundo disseram os experientes e bem preparados bombeiros.

Num ano em que a Sibéria atingiu 40º e sofreu incêndios devastadores, a Escandinávia derreteu e a sua floresta foi devorada pelas chamas, o medonho e trágico incêndio de Mati, na Grécia, ou o de Monchique, em Portugal, são apenas uma antecipação do que nos espera no futuro, que já começou, e em cada ano é pior do que no anterior.

Enquanto o gelo derrete nos polos, os glaciares se reduzem metódica e inexoravelmente, e a Terra aquece e caminha para o ponto de não retorno, perante o autismo de dirigentes dos países mais poderosos, em Portugal o fogo é uma arma de arremesso partidário.

No caso português, soma-se ao desordenamento florestal a estrutura fundiária, a incúria e a impossibilidade de avaliar os meios, as empresas e os bombeiros que combatem os incêndios. Os dirigentes e comandantes de bombeiros nunca têm interesses ligados aos incêndios, os meios de combate são sempre inadequados, os bombeiros perpetuamente abnegados e eficientes, só os governantes são incapazes e um bando de malfeitores.

Morrem os rios, secam os lagos, desaparecem as florestas, escasseiam os solos aráveis, avançam os desertos, contaminam-se os lençóis freáticos, reduz-se a biodiversidade, e há quem pense que a vida humana será eterna.

É a miopia, o egoísmo e a insensatez de quem já consumiu os recursos cuja demografia e os hábitos suicidas de alguns impedem a reposição, que vai arrastando o mundo para o abismo que se aproxima.

Explorar os desastres, que os cientistas anunciaram e explicaram, com a incompetência dos governantes de turno, sugerindo que sucedem por não ser governo a oposição, é um péssimo contributo para atenuar os danos e dar alguma esperança ao futuro.

Quem se habitua a enganar os outros, acaba a mentir a si próprio.

Ladrões de Bicicletas


Leituras para férias: Dois economistas comprometidos, como só se pode ser

Posted: 11 Aug 2018 12:23 AM PDT

Aproveitando o tema de sugestões de leitura para as férias, deixo duas sobre a história das ideias na Economia.
O primeiro, O Capital de Marx, escrito por dois destacados economistas marxistas dos nossos tempos, Ben Fine e Alfredo Saad-Filho, pretende “facilitar a leitura dos escritos económicos de Marx, ao fornecer uma visão geral estruturada dos seus principais temas e conclusões”. Este pequeno livro, editado pela primeira vez em Portugal no início do ano, já foi eleito “a melhor introdução à economia política de O Capital” por David Harvey, outro nome incontornável na divulgação da obra de Marx (o seu conjunto de aulas que acompanham a leitura do livro completo são de livre acesso aqui).
Uma leitura acessível que expõe os conceitos-chave da obra – valor de uso e de troca, trabalho remunerado e excedente, capital e as várias formas em que este aparece, mais-valia e lucro – e a sua importância para o que Marx escreveu sobre a natureza do sistema capitalista, a organização e exploração do trabalho, a circulação, acumulação e reprodução do capital, bem como sobre as suas contradições internas – a produção de enorme riqueza e enormes desigualdades, a tendência complexa para a queda da taxa de lucro, a sucessão de ciclos de expansão e crises violentas, contradições tão atuais nos nossos dias como quando Marx as identificou há 150 anos (o primeiro volume d’O Capital foi publicado em Outubro de 1867).
Os autores introduzem todas estas ideias numa sequência coerente, e terminam o livro com alguns apontamentos sobre a importância da obra para compreender os tempos que vivemos: a ascensão do neoliberalismo, o domínio do sistema financeiro, a diminuição do espaço para a decisão democrática e a urgência de alternativas, essa urgência que já motivava Marx no seu tempo.
Tem-se dito que Marx é um autor redescoberto periodicamente a cada crise do capitalismo. Lá fora, os principais jornais anunciam o “regresso” das suas ideias depois do último colapso financeiro. Este é um livro adequado para evitar as leituras superficiais e ter um primeiro contacto com uma das obras mais completas e fascinantes sobre a forma como se estrutura a economia capitalista.

O segundo é o livro Keynes, O Regresso do Mestre, de Robert Skidelsky, que saiu no fim-de-semana passado com o jornal Expresso (como parte de um conjunto de edições próprias). O livro, escrito pelo mais destacado biógrafo de Keynes, situa os principais debates em que o economista britânico se envolveu na primeira metade do século passado, sublinhando a relevância das suas ideias face à atual crise da teoria económica. O prefácio à recente edição do livro, de Francisco Louçã, é suficiente para esclarecer os leitores e as leitoras:

“O livro percorre três avenidas: começa com o estado atual da economia, discute depois o auge e declínio da revolução keynesiana, em que inclui uma curta biografia, e conclui com o regresso do keynesianismo. Escrito em 2009, logo no início da recessão global que se seguiu ao crash financeiro desencadeado pela crise do subprime no mercado hipotecário norte-americano, o livro parte de um auto de acusação contra o neoliberalismo (…) O fracasso da globalização e da financeirização, ou a crueldade das políticas que estas exigiram quando a crise se generalizou, era suficientemente ostensiva para que Skidelsky as tomasse como ponto de partida para recuperar “o mestre”.“

Dois livros sobre as ideias de dois nomes fundamentais na história do pensamento económico. Dois estudiosos comprometidos, como só se pode ser – o agitador que “queria decifrar a suprema intriga”, empenhado no estudo profundo da organização económica e na mobilização dos trabalhadores contra a exploração do sistema, e o liberal que “queria uma economia humana”, participando nos debates do seu tempo sobre a política económica do Estado e tentando exercer a sua influência.
Várias décadas depois, continua a valer a pena conhecer ambos.

Quem cozinhava o jantar a Adam Smith?

Posted: 10 Aug 2018 02:51 AM PDT

Proponho-vos uma leitura de férias sobre a Economia e as mulheres, best-seller com tradução em 10 línguas, mas ainda não em português, de autoria da jornalista sueca Katrine Marçal.
Sendo a escrita ligeira, a argumentação é acutilante e o tema bem sério. Trata-se de um livro de divulgação de economia feminista, que mostra como a economia é uma ciência misógina, dominada pela ficção do homo economicus, onde quase só há lugar para o interesse próprio egoísta e para as transações concorrenciais de mercado. O interesse colectivo, as relações sociais não-mercantis e a cooperação são menorizadas.
A reprodução e o cuidado das criança, idosos, e outros dependentes, predominantemente a cargo das mulheres, são invisibilizadas. Não obstante, são elas, as mães, e têm sido elas, as educadoras e as cuidadoras, tanto dos capitalistas como dos trabalhadores, que mantêm, generosamente, o sistema a funcionar. Mesmo depois de também elas terem passado a participar no mercado.
Se Adam Smith tivesse reconhecido a importância das refeições que a sua mãe lhe preparou literalmente durante toda a vida, talvez a ciência económica tivesse tido outra evolução, e o sistema funcionasse um pouco melhor para todos e todas. Por ter bem presente as interdependências que se geram em sociedades cada vez mais complexas, Katrine Marçal mostra que a economia feminista está bem colocada para uma abordagem mais holista ao modo como organizamos a provisão dos bens necessários à vida humana, de um modo social e ambientalmente mais equilibrado.
Em pleno século XXI, a dicotomia emprego-família é ainda uma questão que só se coloca às mulheres. Enquanto não for colocada à comunidade no seu conjunto, a desigualdade de género no trabalho e em casa perdurará. O facto de 17% das mulheres britânicas desempregadas terem de deixar o último emprego para cuidar de algum familiar, sendo este número de 1% para os homens, não é uma questão de escolha individual, livre e autónoma; é o resultado de uma economia política e moral que não oferece as mesmas oportunidades a homens e mulheres, sobretudo às mulheres das classes trabalhadoras, que não podem recorrer aos serviços, frequentemente informais e mal pagos, de outras mulheres para as tarefas da reprodução social de que só elas continuam a ser responsáveis.