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quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Portugal no seu pior

Novo artigo em Aventar


por António de Almeida

Há quem tenha ficado surpreendido com os esquemas de favorecimento por parte dos autarcas a familiares e amigos, quanto ao tratamento prioritário recebido na reconstrução das casas destruídas pelo incêndio em Pedrógão. As coisas são o que são, a cunha, o favor, estão enraizados na sociedade portuguesa, seja para perdoar uma multa, conseguir um emprego ou receber um subsídio. Isto tem a mesma lógica do tal dirigente partidário que tem uma dezena de familiares a trabalhar na função pública. E pior, poucos se escandalizam e raramente existem consequências resultantes de tamanha promiscuidade. Poucos acreditam em coincidências, mas quase todos assobiam para o lado.
Os anos da troika foram uma oportunidade perdida para diminuir o número de municípios, timidamente diminuiu-se o número de freguesias, porque é sempre mais fácil cortar na arraia miúda para continuar a pagar aos caciques. Mas até isso já querem reverter, porque apesar dos números apontarem que o desemprego está a diminuir, alguns boys ainda aguardam colocação.

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

Entre as brumas da memória


21.08.1986 – O dia em que Alexandre O'Neill se foi embora

Posted: 22 Aug 2018 10:11 AM PDT

Alexandre O'Neill morreu há 31 anos e a melhor maneira de o recordar é regressar a textos seus. Aqui fica um.

Idiotia e Felicidade

Como pode ser-se idiota e, ao mesmo tempo, feliz, pergunta-me um leitor? Pois explico já. A idiotia e a felicidade são ideias muito vagas, difíceis de cingir em conceitos de circulação universal, digamos. Mas, pensando melhor, acho que certa idiotia é susceptível de conferir ao idiota seu proprietário (ou seu prisioneiro) uma espécie de segurança em si próprio que o levará, em determinados momentos, julgo eu, a uma beatitude muito próxima do que se pode chamar estado de felicidade.Assim sendo, não vejo incompatibilidade entre o ser-se idiota e o ser-se feliz. Bem sei que há várias maneiras de se chegar a idiota. Uma delas foi experimentada comigo. Uma parente minha queria por força reconverter-me ao Catolicismo e, deste modo, passava a vida a dizer-me: «Alexandre, não penses. Se começas a pensar estragas tudo. A crença em Deus, se, em vez de pensares, reaprenderes a rezar, vem por si. É uma graça, sabias? Vá, reza comigo.» E ensinava-me orações que eu, muitas vezes de mãos postas, repetia aplicadamente. Acabei por não me casar com ela.

Não quero dizer, com isto, que não acredite na chamada (creio eu) revelação. Se revelação não existisse, como poderia um poeta do tomo de Paul Claudel entrar um dia em Notre-Dame e sentir-se, naquele preciso momento, convertido irresistivelmente ao Cristo e à irradiação da sua verdade e da sua beleza? E não pode afirmar-se que o grande poeta fosse um idiota.

Agora a minha parente era-o, de certeza, e queria fazer de mim outro idiota. Não por desejar reconverter-me, mas por aconselhar-me, como meio, o de eu não pensar, o de eu principalmente não pensar. Se tivesse casado com ela (que não era filha da minha lavadeira) talvez tivesse sido feliz - não se sabe - idiota e feliz. Assim, fiquei longos anos idiota e infeliz, infeliz por ser idiota e saber que o era e que não podia deixar de o ser. Ora, um idiota que é infeliz por saber que é idiota já pode estar a caminho de deixar de o ser. É uma possibilidade. É a tal luz no fundo do túnel, como se disse tantas vezes a propósito da situação económica deste idiota de país.

Não se espante, por conseguinte, o leitor de que um qualquer idiota possa, ao mesmo tempo, ser feliz. É, até, assaz corrente. Há idiotas que se consideram inteligentíssimos, o que é uma forma muito comum de idiotia, e extraem dessa certeza alguma felicidade, aquela maneira de felicidade que consiste em uma pessoa se julgar muito superior às que a rodeiam.

O leitor gostaria de ser ministro ou secretário de Estado? Pois fique sabendo que há quem goste, embora - será justo dizê-lo - também há quem o seja a contra-gosto, por dever partidário ou patriótico.

Os idiotas, de modo geral, não fazem um mal por aí além, mas, se detêm poder e chegam a ser felizes em demasia podem tornar-se perigosos. É que um idiota, ainda por cima feliz, ainda por cima como poder, é, quase sempre, um perigo.

Oremos.

Oremos para que o idiota só muito raramente se sinta feliz. Também, coitado, há-de ter, volta e meia, que sentir-se qualquer coisa.

Alexandre O'Neill, in Uma Coisa em Forma de Assim

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Dica (799)

Posted: 22 Aug 2018 08:21 AM PDT

Centeno e a tragédia grega (Anselmo Crespo)

«Centeno, o presidente do Eurogrupo, nada tem a dizer sobre isto. Mas Centeno, o economista que ajudou a construir o programa do PS, tinha várias teorias sobre a economia europeia e sobre o que de errado estava a ser feito. Era aliás, todos se lembrarão, um crítico feroz das políticas impostas pela troika, em Portugal como na Grécia. E um crítico ainda maior da forma como a Europa assobiava para o lado quando alguém tentava discutir o problema da dívida pública. Mas isso foi antes. É história. Faz parte do passado. Agora, Centeno é o presidente do Eurogrupo - e parece bastante satisfeito com o trabalho que a troika fez na Grécia.»

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Putin no seu labirinto

Posted: 22 Aug 2018 07:52 AM PDT

Presta-se a muitas reflexões, mas a primeira que me veio à cabeça foi esta: o jeito que isto me dava cá em casa para ser obrigada a fazer exercício físico antes de chegar à rua!

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Centeno encontra-se com Mr. Hyde

Posted: 22 Aug 2018 03:12 AM PDT

«Há encontros mais prováveis do que outros. Mas o de Mário Centeno com Mr. Hyde não cabe apenas numa canção dos saudosos Ban. Não se sabe se Centeno é, de dia, o Dr. Henry Jekyll e, de noite, o ruim Mr. Hyde. Ou melhor, se é Jekyll quando está no Ministério das Finanças do Governo PS e Hyde quando está sentado na cadeira dourada do Eurogrupo. Esta confusão de personalidades é, claramente, desgastante. Porque, às tantas, não sabemos já quem é Mário Centeno. Duvida-se mesmo de que Mário Centeno saiba quem é Mário Centeno. Centeno queria ser um pauzinho na engrenagem mas, depois do seu teledisco sobre a Grécia, tornou-se na engrenagem que devorou o pauzinho. Sabia-se que quando se sentasse na cadeira da presidência do Eurogrupo, Mário Centeno iria transformar-se num sorridente Jeroen Dijsselbloem, também ele uma voz do Partido Trabalhista holandês. Mas não se julgava que o choque eléctrico criasse um problema de duplicidade de identidade. Centeno, depois de dizer que "a Grécia voltou à normalidade", deixou de ser especialista em finanças: é um ilusionista com diploma passado por uma universidade alemã. Nada que admire.

Grécia e Portugal foram os bodes expiatórios da incompetência e dos dogmas económicos e culturais de Bruxelas e Frankfurt para enfrentar a crise financeira global. Foram os sacrificados para salvar Itália e Espanha. Se era necessária austeridade, ela tornou-se uma obsessão que corroeu a sociedade e todos os contratos sociais. Na Grécia, começou-se por salvar os bancos alemães e franceses. Depois foi o PIB a cair a pique, as centenas de milhares de gregos a sair do país e a "recuperação", com uma dívida externa que nunca poderá ser paga, uma economia sufocada e salários cada vez mais baixos. E já nem se fala na forma como a gentil Europa abandonou os gregos nos dias mais críticos da chegada de migrantes às suas costas. O caldo de cultura perfeito para o crescimento da extrema-direita. O custo social da tragédia grega é a maior dívida da Europa a esse país. Só Mr. Hyde não a vê.» .

Fernando Sobral

Curiosidades Italianas

  por estatuadesal

(Dieter Dellinger, 22/08/2018)

genova

O governo fascizante italiano que está no poder há muito pouco tempo queria aproveitar politicamente a queda do viaduto urbano Pocevera de Génova, mas apareceu essa malandragem dos blogs e facebooks a reproduzirem os textos de 2006 em que o partido do palhaço fascista Bep Grillo, 5 Estrelas, se opunha veementemente à construção de uma segunda autoestrada urbana com um viaduto que permitiria a circulação de mil camiões por hora.

O atual vice do Governo e líder do "5 Estrelas" Luigi di Maio mandou cortar tudo o que tinha sido escrito no blog e facebook, mas não consegue anular as partilhas que aparecem agora em muitas páginas de facebooks e nos jornais. No blog pessoal de Grillo há um texto a fazer troça da queda da ponte Morandi de 2013 que também foi apagado, mas ficou nas partilhas.

O viaduto de Génova era uma obra do célebre fabricante de camisolas Beneton que, soube-se agora, financiou o outro partido fascizante do governo, o "Legga", liderado pelo vice-presidente Matteo Salvini. Estes dois vices tomam todas as decisões e o PM Guiuseppe Conte é apenas uma marionete dos dois fascistas.

Numa coisa, os dois governantes têm razão. A tal autoestrada e viaduto novo deveria ser uma obra estatal e não foi feita devido às imposições austeritárias de Bruxelas, mas Luigi di Maio fala agora em acordo secretos do governo anterior com a Benetton que nunca quis uma segunda autoestrada e viaduto para não lhe fazer concorrência.

O desastre é uma calamidade para a Itália porque o porto de Génova é o principal porto de importações e exportações. Por exemplo, quando um camião cheio com mercadorias italianas vem para Portugal não roda da Itália para Lisboa porque os franceses não deixam passar todos os camiões pelo sul da França. Por isso, o camião embarca em Génova num "ferry" para desembarcar em Málaga ou Algeciras e daí vir para Portugal e o mesmo se passa se os camiões forem para Espanha.

O novo marxismo: a luta de claques

Opinião

Paulo Baldaia

Ontem às 00:02

ÚLTIMAS DESTE AUTOR

Lê-se os avençados do Bloco de Direita no "Observador" ou os avançados do Bloco de Esquerda no espaço que lhes é concedido na Comunicação Social para contra-atacar e a moral da história é a mesma: a moral que importa é a que lhes der razão.

A meio da tarde de ontem, enquanto escrevia este texto, surgia uma nova polémica. A Grécia saiu do resgate, o presidente do Eurogrupo, Mário Centeno, publicou um vídeo e foi atacado à Direita e à Esquerda. E o que disse Centeno? O óbvio. A Grécia cometeu erros no passado que pagou muito caro durante o período de resgate financeiro e agora regressa aos mercados com a economia a crescer e uma balança de transações positiva. Centeno recorda também que há muitos gregos a quem a evolução da economia ainda nada deu.

Não havendo dados finais sobre a economia grega no segundo trimestre, sabe-se que, em termos homólogos, no primeiro estava a crescer 2,3%, exatamente o mesmo que Portugal a meio do ano. Uma chatice para as claques, troika e geringonça empataram-se. Ainda assim, Centeno ficou com as orelhas a arder, acusado à Direita e à Esquerda. E quem foi o primeiro a lançar a pedra? O senhor Varoufakis, que acusou Mário Centeno de parecer "uma máquina de propaganda norte-coreana". A Esquerda não lhe perdoa o facto de ele não ter culpado inteiramente as instituições europeias e a troika pelo desastre grego, enquanto a Direita queria que o elogio à Grécia fosse acompanhado de um elogio ao anterior Governo português. Santa paciência!

Andemos um pouco para trás para recordar uma outra luta de claques. A propósito do caso Robles faltou aos seus camaradas perceber que o problema não foi Robles fazer política combatendo a especulação imobiliária. Nem foi ter entrado num negócio especulativo em que entram homens e mulheres de Direita e de Esquerda. Por ser de Esquerda, Robles não estava impedido de ganhar dinheiro comprando e vendendo casas, mesmo com lucros miraculosos. O que não é aceitável, à Esquerda e à Direita, é um político "pregar com tanta virulência a moral política para a seguir cometer os seus pecadilhos", como bem recordou António Costa. A polémica Robles resume-se a esta flagrante e vergonhosa contradição.

Por isto mesmo faz pouco sentido que José Manuel Pureza venha justificar Robles e o seu partido, argumentando que não recebem lições do "grande bloco político que sujeitou o país a uma onda de destruição social justificada por pérolas moralistas bacocas". E o que é bacoco para Pureza no artigo do "Expresso"? Dizer que "os compromissos com os credores são para ser honrados". Não tenho poupança para emprestar a José Manuel Pureza mas se tivesse também não emprestava, para evitar uma discussão sobre a moral bacoca de ele me devolver o que lhe emprestei e, já agora, para não ficar sem o dinheiro.

Na verdade, qualquer político que tenha defendido a intervenção da troika e a austeridade, como única forma de "honrar os compromissos com os credores", e a seguir se recusasse a pagar as suas dívidas pessoais para não ficar sem dinheiro estaria a cair no fator Robles: dizer uma coisa e fazer exatamente o contrário. Esta é a moral que se aplica à Direita e à Esquerda, a conformidade entre os factos e as palavras.

O que Pureza não consegue perceber é que é possível criticar Robles e o Bloco de Esquerda sem ser "comentador assumidamente engajado ou igualmente engajado e não assumido". Basta não fazer parte de uma claque. É igualmente por essa razão que se não se entendem os colunistas à Direita que para criticar quem não queria Le Pen na Web Summit utilizem os mesmos argumentos para lhes criticar as ligações a Jeremy Corbyn, acusado recentemente de antissemitismo, ou a Varoufakis, por uma qualquer razão. É a moral maleável ao serviço dos que não querem saber da moral para nada que não seja derrotar a claque adversária.

*JORNALISTA

A pedofilia e o povo de Deus

Opinião

Inês Cardoso

Hoje às 00:10

ÚLTIMAS DESTE AUTOR

As palavras são duras, sofridas e inéditas na forma. E, ainda assim, sobra da reação do Papa Francisco ao escândalo na Pensilvânia (mais um, de contornos indescritivelmente hediondos) a sensação de que, espremidas, as palavras sabem a pouco. Com sucessivos casos a virem a público há anos e anos, Jorge Bergoglio chegou ao Vaticano tendo a pedofilia como um dos principais desafios. Até agora, falhou em medidas eficazes para travar e punir os crimes.

Há, na carta "Ao povo de Deus", um uso sistemático do plural que custa a aceitar. O líder da Igreja católica segue uma argumentação que defende o envolvimento e responsabilização de toda a comunidade, na solidariedade com as vítimas e na denúncia de qualquer abuso. Assumindo que a única forma de responder a "este mal" é encará-lo como tarefa que compete "a todos como Povo de Deus".

Em vários desafios sociais, Francisco soube entender as pessoas e aproximar-se delas. Acolher e incluir para a mudança. A questão é que nesta matéria o crime e a culpa estão nas cúpulas da Igreja. No corpo eclesiástico. E é na comunidade, precisamente, que estão as vítimas. Não há qualquer dúvida quanto às posições, nem qualquer nuvem que seja preciso esclarecer pedagogicamente junto dos fiéis.

O Papa Francisco não precisa de apelar aos crentes, nem de os responsabilizar, nem de os convidar a ser parte ativa na solução. Não neste caso. É certo que talvez os podres do catolicismo tivessem ruído mais cedo se, como também se escreve na carta, todos os batizados tivessem recusado há muito o clericalismo e o abuso de poder. Se a pessoa humana, sempre ela, tivesse sido o centro das preocupações de Roma. Mas essa é uma revolução para muitos anos. Acabar com a pedofilia, com a ostentação, com os abusos de poder, é uma tarefa imediata. Do Papa, dos bispos e de todo o clero.

* SUBDIRETORA