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quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Entre as brumas da memória


Eu quero pagar o IRS por inteiro

Posted: 28 Aug 2018 01:50 PM PDT

«Eu quero pagar o IRS por inteiro, desde já porque não sou nem mais nem menos do que os outros, os meus iguais, conterrâneos, portugueses tão portugueses como eu e sem culpa nenhuma das políticas responsáveis pelo êxodo de centenas de milhares de pessoas ao longo dos últimos dez anos.

Por uma questão de justiça, e justiça social, ou não fosse o objectivo primordial dos impostos o melhorar de um país no seu todo, e perdoem-me a ingenuidade.

E quantas vezes será preciso repetir que o cerne foi sempre a falta de trabalho, de condições de trabalho, segurança no trabalho, a ausência de uma carreira e de um futuro digno desse nome?

Nunca, senhor primeiro-ministro, foi minha preocupação pagar menos IRS. Quem me dera à data, desempregado, desesperado, esfomeado, poder pagar IRS! Era sinal de que tinha trabalho, um meio de subsistência, não mais sendo necessário sair do país e de tudo o que amo, a praia, o mar, a família, os amigos, uma vida em troca de vida nenhuma.

Senhor primeiro-ministro, graças a um erro da senhora da secretaria na contagem do tempo de serviço, um colega meu não vai ascender ao segundo escalão e outro vai passar um ano sem concorrer para uma escola, tendo o segundo já entrado em contacto comigo para saber como se vai lá para fora. Em ambos os casos o sindicato já se meteu ao barulho, mas não se pode provar nada e o mal já está feito.

Poderá o senhor primeiro-ministro garantir igualmente a competência de quem connosco trabalhará uma vez de volta? Não me parece, e entre a certeza do desemprego e as dores de cabeça à nossa espera, o generoso desconto no IRS não é senão areia para os olhos, como se Portugal fosse um paraíso à beira-mar plantado, e é, mas só para alguns. E enquanto assim for, senhor primeiro-ministro, muito obrigado mas não, prefiro continuar a pagar os meus impostos lá fora, incluindo o IRS. E por inteiro.»

João André Costa

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Grécia – Crianças refugiadas tentam suicidar-se

Posted: 28 Aug 2018 10:54 AM PDT

"Temos crianças de 10 anos que se tentam suicidar".

Na Grécia, esse país que alguém felicitou recentemente por ter tido uma «saída limpa» da crise e que fica sozinha com refugiados nos braços.

«As Nações Unidas e o ministério da Saúde da Grécia já foram informados. Mas o representante do governo grego em Moria, George Matthaiou, atira responsabilidades para a União Europeia. "Nós não conseguimos lidar com isto. A situação na Grécia é conhecida. Quero ajudar, mas não posso fazer nada porque a União Europeia fechou as fronteiras".»

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«Good Bye, Lenin!», de novo, na ex-RDA

Posted: 28 Aug 2018 07:31 AM PDT

‘Good Bye, Lenin!’ en el geriátrico.

Muito interessante:

«La recreación de escenarios típicos de la RDA se emplea en Dresde para ayudar a residentes con demência. (…)

El muro cayó de un día para otro, y con él, un mundo de certezas incuestionables saltaron por los aires. Millones de ciudadanos tuvieron que adaptarse a marchas forzadas a un nuevo sistema de valores. La virtud, la disciplina, la lealtad… fue como si todo lo aprendido adquiriese de repente otro significado. La autoestima colectiva se resintió y en el plano individual, cada uno hizo su transición como pudo, con los mimbres psicológicos disponibles. Por eso, no es difícil comprender que los mayores experimenten una cierta sensación de confort cuando se reconocen en su antigua cotidianidad.»

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A nossa psicopátria

Posted: 28 Aug 2018 03:28 AM PDT

«Num dos seus mais consistentes discos, "Psicopátria", os GNR tinham um tema visionário, "Pós-modernos". Definiam os tempos vindouros, aqueles onde hoje vivemos. São tempos pouco sólidos, de valores que foram centrifugados. Cantava Rui Reininho: "Os pós modernos agarram na angústia/E fazem dela uma outra indústria". António Costa, antes de fazer a rentrée do PS em Caminha, foi dançar a Vilar de Mouros ao som desses mesmos GNR. Vivemos no mundo da política pós-moderna e por isso a imagem substitui, na generalidade das vezes, o conteúdo. Não há comboios para a maioria da população que tem de os utilizar no seu dia-a-dia? Azar. Eles existem, quando são necessários. António Costa não está só na sua dança: vivemos de monólogos de políticos, sem ideias e sem soluções, reféns de críticas ocas. Assunção Cristas critica o Governo porque "há pouco investimento público" nos comboios? Devemos rir ou apenas buscar o passado? A pós-modernidade é a mascote perfeita da política indígena. É por isso que António Costa pode surfar todas as ondas negativas e seguir, certeiro, rumo a uma nova vitória eleitoral. Rui Rio esqueceu-se da prancha em casa e Assunção Cristas tem uma prancha demasiado vistosa para conquistar o eleitorado centrista. Por isso Costa vai aprovar o OE de 2019, nesta ópera bufa, em que o BE foi encostado à parede com o "caso Robles" e agora tem de ir para Paris para criticar Mário Centeno por este ter comprado um fato no pronto-a-vestir de Bruxelas e achar que agora fica um verdadeiro homem do mundo. E o PCP refugia-se na sua guerrilha habitual, para ganhar algo e para não perder tudo.

António Costa gere com habilidade a nossa psicopátria. Consegue iludir-nos, dizendo que a austeridade já acabou. Quando todos sabemos que a pobreza continua: olhe-se para a CP, para o SNS, para o nível salarial da maioria dos portugueses. Portugal é o exemplo mais perfeito desta política pós-moderna dos nossos dias: onde todos rejeitam responsabilizar-se pelas suas próprias decisões. Por isso, António Costa pode dançar.»

Fernando Sobral

terça-feira, 28 de agosto de 2018

Sarjeta

  por estatuadesal

(Francisco Louçã, in Expresso Diário, 28/08/2018)

LOUCA3

(O Sol, capitaneado pelo arquitecto Saraiva, essa sumidade que um dia achou iria ganhar o Prémio Nobel da Literatura, mas que o melhor que conseguiu foi escrever uma cusquice literária de devassa dos segredos de alcova de muita gente da política, está a tentar ultrapassar o Correio da Manhã, pela direita alta...

Intriga, calúnia, e suspense, são os ingredientes recorrentes.

Mais um pasquim a dar à costa na sarjeta a céu aberto em que se está a tornar a comunicação social em Portugal.

Comentário da Estátua, 28/08/2018)


A exuberante manchete do “Sol” na semana passada (“O mistério da casa de férias do deputado João Galamba”) é um exemplo de escola sobre o que é o jornalismo de sarjeta. Conta o jornal que uma casa de férias alugada pela mãe de Galamba ainda não teria sido devolvida ao proprietário, o Estado, depois de a locatária ter morrido precocemente há semanas. Para apimentar a coisa, sugere que o deputado e a irmã estariam a passar alegremente férias nessa casa (“desde 2012”).

Não sei o que é mais lamentável na notícia, se o editor ter escolhido um escrito sem notícia para destacar na capa, se o jornal soprar que, perante a morte tão recente, a família devia priorizar este acerto de contas, se ignorar que o prazo para a comunicação ao proprietário ainda está longe de se ter esgotado ou que o viúvo tem direito à continuidade legal do arrendamento até ao fim do seu prazo legal. Talvez o mais sinistro seja mesmo a insensibilidade de fazer política com esta morte. Tudo isso é rasca. Bem lida a notícia, só nos podemos perguntar por que raio é que alguém quis escrever esta peça. Mas a falta de vergonha é uma condecoração neste jornalismo.

Segundo a Lei de Trump, não importa que seja mentira, o que importa é que os fanáticos se fanatizem com estas coisas, que as repitam incessantemente e que façam delas uma religião nas redes sociais

É, aliás, um sistema. Suponho que o entusiasmo do diretor pela escolha da manchete pode ter vagamente a justificação das audiências, pensando que possam ser puxadas pelo odor de escândalo, num jornal que arruinou meticulosamente a sua reputação e as suas vendas. Já seguiu a mesma estratégia no caso Casa Pia e, na verdade, em qualquer oportunidade de demonstrar que se pode fazer jornalismo desta estirpe. A regra é, quanto pior melhor.

Ora, o problema é que isto serve, não há dúvida. É aliás por isso que alguém arrisca na operação a reputação do jornal, logo forçado a desmentidos sucessivos, quando não os consegue evitar ou esconder. O que neste campeonato conta é o efeito, a multiplicação de posts e tweets e boatos e maledicência.

Segundo a Lei de Trump, não importa que seja mentira, o que importa é que os fanáticos se fanatizem com estas coisas, que as repitam incessantemente e que façam delas uma religião nas redes sociais. Já o escrevi e repito com este caso: esta manchete do “Sol” é um exemplo de como a direita, que sabe que perde as próximas eleições, vai fazer política. Feia, porca e má. E mentira, antes de mais.

Santa Joana e o sebastianismo

por estatuadesal

(Por Valupi, in Aspirina B, 28/08/2018)

JOANA_OLHA

(Quem olha assim, de esguelha, e com "cara de poucos amigos", não pode ser boa pessoa. Por isso, acho que está na hora de ir para casa tratar dos netos, se é que a personagem é suficientemente afável para que eles a aturem e aceitem. Eu, cá por mim, olhando para a cara dela, tenho as minhas dúvidas.

Comentário da Estátua, 28/08/2018)


O DN foi palco de uma operação política tão surpreendente que até terá deixado os caluniadores profissionais que o perseguem completamente baralhados. Começou com esta peça – Marques Mendes sabe tudo? Como o político passou a guru do comentário – um típico exercício de relações públicas para promover alguém que actua no campo da política-espectáculo. Misturado no serviço publicitário onde Marques Mendes aparecia pintado como um sucesso de audiências, ficávamos a saber que vinha a caminho mais um comício a favor da santa Joana. O DN ensinava, pelo teclado de Paula Sá, que “a grande polémica da rentrée política” dizia respeito ao final do mandato de outro indivíduo também denominado Marques. Atente-se na fórmula: a questão é política, é polémica, é a questão política mais polémica dos próximos meses. Pois bem, e onde está a polémica? Ou donde virá? Sobre esses pormenores, moita-carrasco.

No mesmo dia, o DN lançou a continuação da operação – A procuradora-geral deve ser reconduzida? Marques Mendes não tem dúvidas – onde se repetiu ipsis verbis o discurso televisivo sem qualquer enquadramento, análise ou crítica do escriba. Esta câmara de eco das mensagens que o militante do PSD quis espalhar no espaço público teve a assinatura de João Pedro Henriques, o mesmo que viria no dia seguinte a concluir a operação com esta serventia – Destino da procuradora-geral nas mãos de Marcelo – um texto que é do princípio ao fim uma exposição apologética da agenda da direita para o controlo e uso da Procuradoria-Geral da República.

Não faço a mínima ideia de qual seja a origem desta campanha no DN para a renovação do mandato de Joana Marques Vidal. Sei é que não estamos no campo do jornalismo nem no da opinião, posto que as peças são apresentadas como sendo o fruto do labor profissional da Redacção na produção de “notícias”. Pelo que só resta a categoria do “editorial” para explicar o fenómeno – ou então a da “anarquia”, em que cada jornalista se sentiria com liberdade para usar a sua carteira profissional como arma das disputas partidárias e mesmo da subversão do Regime. Mais fácil de explicar será esse outro fenómeno de vermos um conselheiro de Estado armado em vedeta mediática da baixa-política a encher a boca com calúnias e ofensas.

Ao bolçar que “o PS, em matéria de independência da justiça, não tem grande curriculum”, o grande Mendes não só nada justifica como depende dessa desonestidade para se dedicar à táctica favorita da direita decadente, a diabolização. Há método nesta insídia, pois a diabolização não só aponta ao carácter do alvo como atiça a pulsão persecutória até ao grau máximo de violência que for possível atingir. Se o PS, sem sabermos quando nem como, manipulou a Justiça, então temos de impedir que repita dano tão grave. Como? Ora, fazendo com que a Justiça seja manipulada, mas desta vez pelos bons, pela gente séria. É este o sofisma da direita, logo desde que Passos e Cavaco escolheram a santa Joana para conseguir meter no chilindró o maior inimigo que a oligarquia conheceu após o 25 de Abril, o tal fulano que conseguiu despertar a ira das maiores fortunas do País. Paula Teixeira da Cruz canonizou essa homérica vingança com a expressão “fim da impunidade”. Tendo em conta os ritmos do Ministério Público, dos tribunais e o volume de novos processos que se poderão abrir só a partir das certidões já retiradas na “Operação Marquês”, vamos ter 20 ou mais anos disto. Disto: a sistemática difamação contra o PS, explorando mediática e politicamente a judicialização da política por todos os meios e em todas as ocasiões.

As declarações mais perversas da sessão foram dedicadamente recolhidas pelo seu amigo João Pedro e são um monumento ao desprezo pelo Estado de direito, ao desprezo pelas instituições da República, ao desprezo pela comunidade, ao desprezo por Portugal

«Por isso, "atirar borda fora" a atual procuradora seria suspeito, cheiraria a esturro. "Embora seja certo que essa suspeita não se aplica a António Costa, é, ainda hoje, a suspeita que recai sobre o PS" e uma eventual substituição da atual PGR "agrava essa suspeita em vez de a afastar".

Além do mais, quem substituir a PGR irá "ficar logo com um estigma": "Foi escolhido porquê? Foi escolhido para defender quem?" Isto - concluindo - "é fatal". "Será que o poder político - Governo e Presidente - quer assumir todos estes riscos?"»

Marques Mendes, conselheiro de Estado, ex-governante, ex-líder partidário, ex-deputado, usa o seu espaço de comentário numa TV para chantagear o primeiro-ministro e o Presidente da República. Caso eles ousem substituir a procuradora-geral da República que a direita considera (e por óbvias razões) como sua comissária política, será lançada uma campanha para caluniar o seu sucessor e os responsáveis pela sua nomeação.

Aquilo que Joana Marques Vidal está a fazer não pode ser feito por mais ninguém, berra a direita, e sem ela os socialistas corruptos voltarão a corromper tudo e todos. É isto e só isto que está a ser dito. Em nome de uma hipócrita e absurda defesa da integridade da Justiça, a degradante personagem reclama a posse desse cargo para o manter politicamente alinhado com interesses sectários e criminosoNo DN garante-se que Mendes é o papagaio de Marcelo. Se é isto o “jornalismo de referência”, e se tal coisa nos ajuda a entender a realidade, acho que podemos já saltar para a mesma conclusão a que chegou D. Sebastião em 4 de Agosto de 1578: “Foda-se, se é para isto vou mas é desaparecer daqui.”

‘RIP, my conservative friend’

João Barros, Economista

00:08

John McCain fará muita falta à saúde política americana. Apesar de ter sido vencido por um tumor no cérebro, este funcionava de formas que a sociedade conservadora americana ainda não conseguiu atingir.

Este fim-de-semana marcou o desaparecimento de uma figura notável e incontornável do panorama político americano, o Senador John McCain. E se a morte de um homem da sua notoriedade seria, por si só, notícia, torna-se mais relevante dada a encruzilhada em que se encontra a Presidência da “Terra dos Livres”.

Herói de guerra, Senador, candidato à Presidência dos EUA – todas estas caracterizações seriam apropriadas a McCain, e nenhuma dá pistas sobre a sua ideologia ou orientação política. Já se nos referirmos a ele como um porta-voz contra as alterações climáticas, defensor de políticas de acção afirmativa ou apologista de um maior escrutínio na venda de armas, tudo parece apontar para um Democrata liberal.

Quem acompanhou a longa carreira política de McCain sabe que tal rótulo não poderia estar mais errado – o Senador do Arizona era um Republicano conservador, inclusive um defensor do “direito à vida” (leia-se anti-aborto) ou opondo-se a movimentos para a legalização do casamento entre homossexuais; defendia uma política externa forte e dominante, tendo inicialmente apoiado a invasão do Iraque; e foi um fã de Reagan e da sua estratégia económica.

Mas um elemento distintivo nas orientações de McCain era a capacidade de as mudar, de as confrontar com um conjunto de factos e evidências e, se coerente, modificar a sua ideia da realidade, reconhecendo um erro de análise. Aliás, foi assim que chegou a várias das posições que iam contra a génese do seu partido e até contra afirmações suas no passado (como a sua alteração relativamente às políticas de controlo de armas ou a assuntos LGBTQ+). E terá sido assim que se opôs ao agora Presidente e às suas afirmações inflamatórias, discriminatórias e ofensivas, que qualquer ser humano dotado de raciocínio crítico veria como contraditórias ao espírito em que foram fundados os EUA.

Ainda que profundamente conservador (especialmente se descontextualizado do puritanismo norte-americano), McCain não deixava o seu discurso extremar, procurando muitas vezes o compromisso “a meio caminho” em vez do belicismo e polarização demasiado frequentes na política contemporânea.

Esta tendência foi crescendo ao longo dos anos, ao ver o extremismo em que caía o Partido Republicano, e que culminou na eleição do mais polémico Presidente das últimas décadas (ou séculos); ainda assim, e apesar desta imagem desalinhada que alguns recordarão, é também impossível não associar McCain a este movimento de descrédito da massa intelectual americana, radicalização de posições conservadoras e intolerância generalizada, dada a sua escolha para Vice-Presidente na corrida de 2008, Sarah Palin.

A então Governadora do Alaska pegou num discurso odioso, ignorante e amargurado que era transmitido em televisões claramente tendenciosas (olá, Fox News) e exportou-o para o main stage da política americana, as Presidenciais. Tipo um aperitivo para a estupidez que reina no mundo livre desde Janeiro de 2017. Assim, McCain abriu caminho para o monstro que viria a combater, apresentando-se como a face do conservadorismo moderado – que só nesse benchmark da democracia que é a América não tem lugar, engolido por uma bicefalia que seca tudo à sua volta.

John McCain fará muita falta à saúde política americana. É que, apesar de ter sido vencido por um tumor no cérebro, este claramente funcionava de formas que a sociedade conservadora americana ainda não conseguiu atingir. E, sendo obviamente um homem com defeitos – como o são, por definição, os Homens –, no seu caso acho que “inconsistência” não poderá ser visto como um deles, apesar das suas mudanças de opinião. É que não há mérito nenhum em estar-se consistentemente do lado errado.

Há quem acredite em milagres

Pedro Lino, Economista

24 Ago 2018

Pensar que teremos outra década de crescimento sem incertezas, sem crises, é brincar com a pouca credibilidade que a Europa ainda tem junto dos seus cidadãos.

Após ter derretido mais de 300 mil milhões de euros em nove anos, sofrer três intervenções financeiras e duas reestruturações com perdão de dívida privada, a Grécia termina, com sucesso, nas palavras de Mário Centeno, o seu programa de ajustamento. Se esta descrição dantesca equivale a um sucesso, então o programa de Portugal foi um exemplo para o mundo e o anterior governo deveria ter continuado a governar.

Nada disso se passou, o que nos leva à conclusão que, infelizmente, os interesses pessoais e partidários falaram mais alto. Desta vez parece ser a ambição de Mário Centeno em emigrar definitivamente para um cargo na Comissão Europeia. A mensagem ao povo grego durou uns penosos 69 segundos e poderia muito bem dirigir-se a nós, bastaria substituir a palavra Grécia por Portugal e este vídeo seria uma verdade em 2014, quando conseguimos uma saída limpa, muito criticada pelos actuais responsáveis.

Regressando à Grécia, verificamos que a dívida pública atinge os 280 mil milhões de euros, ou 180% do PIB. Considerando as taxas de juro reduzidas, serão precisos 42 anos para baixar para os 100%. Resta saber se, nesse período, não haverá uma única recessão e se o povo grego conseguirá trabalhar para pagar os erros do passado, principalmente se pensarmos que estas projecções só serão atingidas no caso de um superavit primário de 3,2% durante dez anos consecutivos, algo que nenhum país da zona euro conseguiu até hoje.

Ou seja, os responsáveis europeus acreditam em milagres. Após dez anos de subidas de mercado e de crescimento generalizado da economia mundial, pensar que teremos outra década de crescimento sem incertezas, sem crises, é brincar com a pouca credibilidade que a Europa ainda tem junto dos seus cidadãos. Basta pensar em Itália e nos problemas do seu sector financeiro, no proteccionismo ou na tempestade que assola os mercados emergentes para percebermos que é uma questão de tempo até a zona euro ser novamente colocada em causa.

No entanto, a Grécia foi um exemplo de coragem na forma como defendeu o seu sistema financeiro. Apesar de restrições à movimentação de capitais, nenhum banco grego faliu nem foi sujeito medidas de resolução, o que não deixa de ser impressionante, sobretudo com taxas de incumprimento na ordem dos 40%.

Os ministros das Finanças da zona euro gostariam de acreditar que desta vez é diferente. Na verdade, tentam apenas disfarçar a sua incapacidade de compreender os novos desenvolvimentos ou de tomar decisões difíceis. Todos sabemos que a dívida grega é impagável. É uma questão de tempo até ao perdão ou outra crise que ditará definitivamente o futuro da Grécia.

Os portugueses têm pago com sacrifícios os devaneios e ambições de alguns que vêem na Europa a sua salvação, longe do povo que os elege, mas junto da elite que governa. Este rastilho, já aceso e comum a outros países, levará a nacionalismos, a proteccionismos e à hegemonia dos EUA sobre a Europa. À falta de seriedade, resta-nos pensar em milagres.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.