Translate

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Altos cargos e pequenos homens

  por estatuadesal

(Viriato Soromenho Marques, in Diário de Notícias, 26/08/2018)

soromenho

(O Dr. Soromenho põe o dedo na ferida: quem é apoiante deste Governo e das políticas de recuperação de rendimentos, não pode deixar de lamentar o discurso de Centeno, "comemorando" a eufemistica "saída limpa" da troika das terras gregas. Por alguma razão nunca ouvimos, nem imaginamos ouvir, António Costa a fazer um discurso de tal recorte. Cada vez me convenço mais de que Costa está sozinho a pedalar na pista da Geringonça. Os meus votos é que não acabe por se transformar num Tsipras à portuguesa.

Comentário da Estátua, 29/08/2018)


No famoso discurso proferido pelo presidente Lincoln na inauguração do cemitério nacional de Gettysburg, a 19 de novembro de 1863, quatro meses depois da grande batalha travada nesse local, e 18 meses antes do final da sangrenta Guerra Civil norte-americana, é a marca de água de um grande homem. São 272 palavras proferidas em menos de dois minutos, por um líder político que refundou os EUA, reinventou a instituição do presidente federal e reacendeu, temperado com o custo do seu sacrifício supremo, o farol mítico da atração universal dos EUA.

O recente discurso de Mário Centeno, na condição de presidente do Eurogrupo, durou um minuto e dez segundos, ligeiramente menos do que a alocução de Lincoln, mas o seu significado não poderia ser mais oposto. Pelas suas palavras e pelos seus atos, Lincoln elevou-se muito acima do importante cargo de presidente dos EUA, que também pode ser apoucado como ocorre agora com Donald Trump a uma escala que julgaríamos impossível.

Os grandes líderes são sempre maiores do que os cargos que ocupam, mas no caso de Mário Centeno, o economista português que criticava as limitações estruturais da zona euro e que exibia os erros e os sacrifícios inúteis das medidas de austeridade, eclipsou-se completamente. O que se viu e escutou foi um Jeroen Dijsselbloem ou um Wolfgang Schäuble a falar usando o rosto do ministro português como máscara.

Contudo, uma mensagem diferente não teria sido uma missão impossível. Centeno poderia ter atenuado o estilo simplificador do publicitário que exalta a qualidade do produto, neste caso a alegada recuperação económica e política da Grécia, subestimando a imensa dor e os danos irreversíveis causados por uma década maldita. Mas o que é verdadeiramente imperdoável, e constitui uma irreversível confissão de irrelevância por parte de Centeno, é a pequena frase em que o presidente do Eurogrupo atribui as causas das desgraças helénicas exclusivamente às suas "más políticas do passado" (bad policies of the past).

Para deixar o campo aberto para outras leituras, Centeno poderia ter referido sobre a ação da troika algo como "erros de um processo de aprendizagem", ou até mencionado "responsabilidades partilhadas".

Todavia, ao ilibar totalmente as instituições europeias (Conselho Europeu, Comissão Europeia, Banco Central Europeu, Eurogrupo, Parlamento Europeu), bem como os grandes países, Alemanha e França, de qualquer ónus no mais repugnante processo de humilhação e empobrecimento de um povo na Europa desde 1945, Centeno fez recuar o relógio da União Europeia até 2008.

Como se não tivéssemos aprendido nada e tudo tivesse sido esquecido, como se o sofrimento passado tivesse sido inútil perante as imensas tarefas que a nau europeia terá de assumir se não quiser naufragar nas tormentas que se aproximam.

A tragédia grega foi a primeira demonstração inequívoca do erro matricial da zona euro, um erro contra o qual o chanceler Kohl advertiu no Bundestag, em novembro de 1991: uma união monetária não sobreviverá se não for suportada por uma união política. Quando George Papandreou, num gesto de lisura kantiana, revelou a realidade das contas públicas gregas no final de 2009, em vez de receber aplauso e solidariedade foi submetido ao fogo cerrado do longo holocausto da austeridade e do esbulho helénicos.

Centeno mostrou que pode subir ainda mais alto. Merece a confiança desta elite europeia que odeia a verdade e exulta com o preconceito.


Professor Universitário

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Franco e a basílica de Santa Cruz do Vale dos Caídos

  por estatuadesal

Carlos Esperança, 29/087/2018)

basilica

A História é o que é, os factos não se alteram. Os países europeus foram cúmplices das ditaduras ibéricas, consentindo que se perpetuassem, depois da vitória sobre o nazismo. Fizeram da Península um dique fascista contra o comunismo, alheios ao sofrimento dos povos e aos crimes dos ditadores.

A Igreja católica não foi apenas cúmplice de Franco, ele foi o seu genocida. Matou mais espanhóis, após a vitória contra o regime legal, do que todos os que morreram na guerra, de ambos os lados, numa chacina recíproca sem precedentes.

O ditador fascista mandou fuzilar centenas de milhares de espanhóis, atirados para valas comuns, quando já não existia resistência, na orgia de sangue e vingança, que estarreceu o próprio Mussolini, incluindo a tortura de padres “rojo-separatistas”, em prisões que o Vaticano consentiu.

Em 1953, o Papa de Hitler, Pio XII, concedeu-lhe a maior condecoração da Santa Sé, a raríssima “Suprema Ordem Equestre da Milícia de Nosso Senhor Jesus Cristo», espécie de canonização em vida, que ainda se mantém, tal como o doutoramento honorário da Universidade de Coimbra. Devem, aliás, manter-se. Acusam os outorgantes cujo opróbrio partilham. Após a distinção foi assinada a humilhante Concordata com o bairro de 44 hectares, criado por Mussolini, com o nome de Estado da Santa Sé.

A transição pacífica para a democracia consentiu que a vontade do ditador se cumprisse. O rei Juan Carlos, educado nas madraças da Falange, atribuiu-lhe honras de Estado e o altar majestático que domina o espaço onde jazem, em vala comum, os que assassinou, honra intolerável e intolerada se fosse concedida a Hitler, Mussolini ou Salazar.

A exumação do ditador é o resgate da dignidade de um povo, um ato de justiça e higiene cívica que os netos do carrasco e os herdeiros da Falange procuravam impedir. A onda conservadora que varre a Europa, num sinistro regresso ao passado, a que o PP de Pablo Casado parece associar-se, é o alerta para denunciar a contrarrevolução que se anuncia.

Manifesto, por isso, solidariedade a todos os democratas espanhóis e reproduzo aqui as palavras ditas pelo Núncio da Santa Sé em Espanha, Monsenhor Ildebrando Antoniutti, quando entregou em mão, a Franco, em 1953, a condecoração de Pio XII:

“Compraz-me particularmente confirmar, uma vez mais, o afetuoso interesse e carinho paternal do Papa para esta católica nação, que tantos consolos lhe proporciona nas duras provas da hora presente. E com toda a minha alma peço ao céu que proteja e cumule de bênçãos divinas a pessoa do Chefe do Estado, o Governo nacional, o Excelentíssimo Episcopado, com o clero secular e regular, e todo o amado povo espanhol. Deus abençoe a Espanha!”

Pio XII ainda ajudava nazis na fuga para os países da América do Sul.

Que trio fascista, Franco, Antoniutti e Pio XII!

A Europa e a Inovação

Bruno Carapinha, Investigador

00:06

A revisão do Painel Europeu da Inovação, em 2019, é uma oportunidade interessante para Portugal. Mas, para isso, é essencial mobilizar a atenção de actores institucionais, empresariais e académicos.

Os relatórios anuais do Painel Europeu da Inovação medem o desempenho de países e regiões europeias desde 2001. Os scores são muito valorizados por governos e empresas, com grande impacto na imprensa, na imagem dos países e na atracção de talentos e investimentos. O apoio à criação de uma nova ferramenta electrónica, que desagrega estes resultados e flexibiliza a sua comparação, confirma a centralidade e a popularidade da agenda da inovação.

A aceleração do progresso europeu já reduziu o atraso face à Austrália, Canadá, Estados Unidos e Japão, mas espera-se que a China, partindo de uma posição inferior, alcance a Europa dentro de décadas. Por cá, as principais melhorias desde 2010 ocorreram na ciência, no ensino superior, no investimento privado em I&D e no capital de risco, reflectindo o esforço das políticas públicas, o empenho dos Estados-Membros e a sua espiral competitiva.

Portugal ocupa a 14.ª posição neste painel, abaixo da média europeia, liderando os Inovadores Moderados, um grupo de países do sul e do leste. A recuperação de 2015-2017 é insuficiente para compensar a divergência com a UE gerada na forte queda do score em 2010-2014, na sequência da crise.

Há várias áreas de excelência referidas no painel: o sistema científico está acima da média europeia; as infra-estruturas digitais exibem alta qualidade; a elevada adopção de tecnologia digital pelas empresas assinala um ambiente inovador; houve um incremento de registos de patentes e de marcas novas; e as PME nacionais revelam uma elevada dinâmica de inovação de produto, de processo, de marketing e de organização.

Mas estes avanços são contrariados pela falta de diplomados do ensino superior; a insuficiente cobertura da aprendizagem ao longo da vida; a redução do investimento público em I&D, agravado pelo fraco investimento privado em ciência; a falta de acesso a capital de risco. O recente recuo na colaboração entre empresas inovadoras é bastante grave, prolongando uma tradição das empresas nacionais que inibe a sua capacidade de crescimento e inovação.

O actual Governo português colocou a inovação, a digitalização e a modernização da indústria no centro da recuperação económica. O discurso do Portugal moderno, optimista e inovador, abriu o palco a novos empreendedores e ofereceu-lhes medidas (significativas e simbólicas) de apoio à reformulação da economia nacional.

Apesar dos progressos obtidos e da multiplicação de iniciativas nesta área, não é provável que alcance o grupo seguinte (Inovadores Fortes) sem uma alteração significativa das regras de medição ou apostas cirúrgicas em áreas do ranking, ainda que incoerentes numa estratégia global para a inovação.

Primeiro, as condições estruturais do país dificultam uma alteração súbita de resultados (fragmentação do tecido empresarial; baixo investimento privado em Investigação, Desenvolvimento e Inovação (I&D&I); fraca intensidade tecnológica da produção e da exportação nacional; atrasos na formação do capital humano; frágil relação universidade-empresa e cooperação intra-empresarial; insuficientes competências dos empresários; etc.).

Depois, a escolha de indicadores não é neutra: obedece a modelos específicos de inovação e favorece perfis económicos concretos. Isso significa que muitos avanços significativos recentes na nossa capacidade de inovação não têm expressão nesta ferramenta.

Uma marcha forçada para uma economia mais inovadora requer políticas próprias e uma atenção às condições específicas de cada país. A ausência neste painel de indicadores sobre a incubação de empresas, a diversificação de modos de financiamento, a transferência de conhecimento, o peso das energias renováveis ou a simplificação administrativa ilustra o impacto da escolha de indicadores na interpretação da realidade.

O desalinhamento entre política e monitorização de resultados distorce os scores e condiciona a conformidade das políticas nacionais a modelos desajustados às suas realidades. Esta questão é importante pelo peso destes instrumentos na definição de políticas europeias e na atribuição de recursos para as alimentar. Por exemplo, o investimento público em I&D deve articular-se com a existência de um sector privado nacional que absorva a investigação e os investigadores. Caso contrário, pode resultar no desperdício de recursos e na subsidiação indirecta de grandes empresas internacionais, ainda que seja valorizado no painel.

O próximo ano oferece uma oportunidade interessante para Portugal. A revisão do Painel Europeu da Inovação ocorrerá em 2019 e deve ser aproveitada para promover um modelo de indicadores mais isento face aos diversos perfis económicos e modelos de inovação. Mas, para isso, é essencial mobilizar a atenção de actores institucionais, empresariais e académicos.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

Geringonça é para quem pode

Opinião

Miguel Guedes

Hoje às 00:03

ÚLTIMAS DESTE AUTOR

Na campanha para as eleições autárquicas de 2017, Santana Lopes assegurava, a alto e bom som, o quanto estava na moda bater no PSD. Menos de um ano depois, prefere fragmentá-lo em pedaços, batendo bolas por fora depois de malhar contra o muro interno, mas sem arrastar (ainda) alguns dos seus principais batedores. Enquanto a recolha de assinaturas para a constituição da "Aliança" decorre a bom ritmo, não há nomes sonantes do PSD que prefiram correr na pista individual de Santana, fora do trilho de sempre. Talvez porque seja unânime a percepção de que a "Aliança" é tão-só a concretização do projecto pessoal de um homem viciado em eleições, incapaz de abdicar do teste de aceitação popular que o seu partido já não lhe proporcionará. No momento em que Rui Rio é a última esperança do PSD para purgar o partido da lógica dos interesses que a deriva neoliberal de Pedro Passos Coelho petrificou, convém a muitos adversários internos de Rio que alguém navegue à vista, impedindo aquilo que mesmo uma vitória do PS nas próximas legislativas não impedirá face à aproximação de Rui Rio a António Costa: o regresso do PSD aos arredores da sua matriz social-democrata para ressuscitar, mais cedo do que tarde, o bloco central.

Na lógica dos interesses, é natural que Santana Lopes já não tenha interesse no PSD. Outros protagonistas esperam, com natural ansiedade e pérfida estima, pelo fim precoce do actual líder. Nessa fila laranja de sucessão, não há lugar para Santana. Na ausência de reflexo, prefere a Oposição. E, perante a sua história política, percebe-se bem a preocupação de muitos sectores à Direita: Santana é um especialista em segundos lugares. O ataque ao ceptro de líder da Oposição far-se-á tão mais forte quanto mais Rio se encostar ao PS e Cristas se afastar do eleitorado ao centro só porque a "Aliança" existe. Esse "lugar de ninguém" da Direita portuguesa está, finalmente, prestes a ser ocupado por uma inequívoca vontade de fragmentação, curiosamente em contraciclo com uma histórica e inusitada união das esquerdas. A Direita pode querer mas já nunca será capaz de uma geringonça. Como os tempos mudam.

Não haverá outro partido que Santana Lopes possa criar caso não ganhe as eleições ou, pés à terra, a liderança da Oposição. Nesse sentido, será bom contar com ele por muito tempo, enquanto aguarda pelo fenómeno de arrastamento no PSD que um eventual desastre eleitoral do partido ditará como inevitável. Sobra a pergunta: se o partido dos interesses sair do PSD para abraçar a "Aliança" e Rui Rio definhar pela purga libertária dentro de portas à espera do abraço do bloco central, o que restará do PSD?

(O autor escreve segundo a antiga ortografia.)

* MÚSICO E JURISTA

Heróis de carne e osso

Opinião

Inês Cardoso

Hoje às 00:04

ÚLTIMAS DESTE AUTOR

É fácil fazer o elogio de pessoas incomuns quando morrem. Difícil é olhar para o legado das suas vidas e dar-lhe sentido e continuidade. Depois de 81 anos repletos de histórias e incidentes, e de 60 de serviço militar e serviço público, John McCain deixou ainda aos norte-americanos uma carta em que recorda as causas que o mobilizaram. Com uma expressão inabalável de confiança na capacidade construtiva do país pelo qual se bateu.

Há um contexto muito particular nestes "tempos complicados" em que o senador do Arizona escreve e se refere aos muros e ao risco de deixar que as diferenças se sobreponham aos ideais da liberdade e do respeito pela dignidade de todas as pessoas. Não admira o tom exacerbado e o patriotismo que atravessa de forma inequívoca a despedida.

Podemos olhar a carta de McCain com o distanciamento de quem não faz parte dos compatriotas destinatários. Mais ainda porque o atual posicionamento geopolítico dos Estados Unidos nos merece pouco respeito, porque conhecemos as tentações imperialistas norte-americanas ou ainda porque frequentemente diabolizamos o Partido Republicano.

Tendemos a simplificar leituras e não há heróis absolutos. A biografia de John McCain está carregada de erros e contradições. Mas está também cheia de frontalidade e de coragem. Num momento em que vivemos, a nível mundial, uma crise de lideranças e de princípios éticos, nunca é demasiado olhar para políticos respeitados e inspiradores.

De resto, uma das passagens mais simples da carta de John McCain é a que recoloca no devido lugar aquilo que deve ser central: o amor à vida e a gratidão por cada experiência, aventura e amizade. "Adorei cada pedaço de vida." A política e a ética são, cada uma no devido plano, formas de orientar a ação tendo sempre presente a centralidade da vida. Simples. Assim deveria ser.

* SUBDIRETORA