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segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Entre as brumas da memória


Cântico Negro

Posted: 09 Sep 2018 10:38 AM PDT

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!
José Régio, Poemas de Deus e do Diabo
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O sonho americano

Posted: 09 Sep 2018 08:03 AM PDT

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Desmemória e fascismo

Posted: 09 Sep 2018 04:38 AM PDT

«Ardeu tudo. Ou quase tudo. O quinto maior acervo museológico do mundo, reunido na mais antiga instituição científica brasileira, 20 milhões de itens classificados; duas bibliotecas inteiras, meio milhão de obras, 2400 das quais classificadas como raras. As coleções de Etnologia reuniam objetos únicos que, ainda hoje se diz na página online do Museu, “mostram a riqueza da cultura indígena [e da] cultura afro-brasileira”. Perdeu-se definitivamente um arquivo oral com gravações de conversas, cantos e rituais de dezenas de sociedades indígenas, muitas feitas durante a década de 1960, e que não haviam sido digitalizadas. Uma parte essencial da memória histórica das nações ameríndias anteriores à colonização portuguesa - já de si completamente desvalorizada por uma cultura hegemónica de matriz colonial que, como acontece em quase todas as Américas, imagina o Brasil como uma nação ocidental “resgatada” à “incivilização” indígena - está reduzida a fumo e cinzas. Centro de investigação para muitos arqueólogos, o que resta do Museu transformou-se agora, ele mesmo, num sítio arqueológico...

O caso não é único. Só nesta década, e só em São Paulo, quatro outros grandes acervos sofreram incêndios: o Instituto Butantan (2010), o Memorial da América Latina (2013), o Museu da Língua Portuguesa (2015), a Cinemateca Brasileira (2016). Em todos os casos, é nos cortes orçamentais das políticas liberais que é inevitável buscar responsabilidades. Já de si sistematicamente insuficiente nas últimas décadas, a quebra brutal da dotação financeira que o Governo Temer dedicava à Universidade que fazia a gestão do Museu veio confirmar os piores receios. “Os fios desencapados [que podem ter provocado um curtocircuito] estão nos gabinetes do Palácio do Planalto e do Ministério da Educação. O ministro, ninguém sabe quem é, nomeado a título de barganha em troca de votos no Congresso. (...) Do Museu Nacional, um património da humanidade, só ouviu falar depois da tragédia do incêndio.” (Álvaro Caldas, Jornal do Brasil, 7.9.2018) “O Brasil é um país onde governar é criar desertos. (...) Destrói-se a natureza e agora está-se destruindo a cultura, criando-se desertos no tempo. Estamos perdendo com isso parte da história do Brasil e do mundo”, dizia há dias Eduardo Viveiros de Castro ao PÚBLICO (4.9.2018), que receia agora que “se tente vender o canto de sereia da privatização dos museus, retirá-lo da universidade, transformá-lo numa fundação privada”.

É arrepiadoramente simbólico que tudo isto ocorra no momento em que o Brasil pode estar a semanas de ver eleito um presidente fascista como Jair Bolsonaro – sobretudo agora que, vítima de uma facada de um homem psicologicamente transtornado, pode vir a beneficiar do mesmo efeito que Hitler obteve com o incêndio do Reichstag dias antes das eleições de 1933. Duplamente simbólico: por um lado, Bolsonaro assegura que entrou na corrida à Presidência “por uma missão de Deus” (El País, Brasil, 6.9.2018), a mesma que o seu atacante reclama para si; por outro, perante o incêndio Museu Nacional, Bolsonaro declarou que nada mais poderia ser feito: “se não há dinheiro, paciência”. Paciência, mesmo. Porque este é o racista (e o misógino, e o homófobo, e o anticomunista) que tem o apoio de empresários do agronegócio como Luiz Antonio Nabhan Garcia, que espera que Bolsonaro ponha na ordem “essa gente da Fundação Nacional do Índio, do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente, do Ministério Público, que não respeita a propriedade privada” (El País, Brasil, 2.9.2018). Por outras palavras, o homem que homenageou o torturador de Dilma Rousseff ao votar o impeachment, que promete mandar “fuzilar os petralhas” (ou seja, os dirigentes do PT), “dar um pé no traseiro do comunismo”, restabelecer a pena de morte e, no país com mais homicídios per capita no mundo, liberalizar o porte de arma, é também aquele que de quem se espera que acabe com “essa politicagem de Direitos Humanos”, expressão que ele usa para designar as políticas de defesa dos direitos dos povos indígenas.

O apagamento da memória ameríndia que o Museu Nacional do Brasil conservava prolonga a “história de apagamentos e silenciamentos” que tem sido a história do Brasil. “Um povo que não conhece seu passado, que não compreende suas referências e suas origens, perde a chance de reparar seus erros históricos e não é capaz de trilhar seu caminho a um futuro de respeito aos direitos humanos e à democracia.” (Rogério Sottilli, ex-secretário de Direitos Humanos da prefeitura de São Paulo, cartacapital.com.br, 5.9.2018)»

Manuel Loff

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Sempre actual

Posted: 08 Sep 2018 03:38 PM PDT

Vou voltar ao mesmo mais uma vez e não será a última: onde estão os registos das conversações com a troika e por que é que não são públicos?

  por estatuadesal

(José Pacheco Pereira, in Sábado, 09/09/2018)

JPP

Pacheco Pereira

Primeira pergunta: existem, como é da lei? Foram entregues pelos participantes nas conversações, incluindo os que foram enviados de computadores privados, em violação da lei?

Segunda pergunta: qual é o grau de completude? Incluem correspondência, emails, actas, relatórios, documentos em várias versões, propostas, decisões?

Terceira pergunta: estão arquivados em forma física ou digital, como é da lei?

Quarta pergunta: qual a classificação que têm, caso estejam guardados?

Quinta pergunta: por que razão não são públicos os que poderem ser, ou pelo menos, os seus registos, títulos, inventários, e todos os documentos que por lei não devem ser classificados?

Vou continuar a fazer estas perguntas, porque a transparência sobre o que aconteceu nos anos do lixo o exige.


O que é isso da reentré?
O nosso Presidente já explicou por que razão as rentrées (um dos raros casos em que o francês continua a ser usado na terminologia corrente) já não são o que eram. Verdade seja dita, que não se percebe muito bem porque o Presidente resolveu falar disso fora do seus comentários televisivos na TVI, embora a distinção entre a fala presidencial e o ex-comentário televisivo seja quase nula. Mas disse que a rentrée hoje é menos importante, porque não há novidades para dar quando a fala contínua da política é quotidiana, e nem no mês de Agosto há defeso.

É assim, mas há outro "assim" de que ele não falou: é que a contínua logomaquia, para satisfazer a voracidade dos órgãos de comunicação social, desvaloriza o discurso político e o seu papel, e ele não pode deixar de participar, porque é disso mesmo um excelente exemplo.

O que se passa é que a redução do discurso político - e quase toda a acção política hoje é discursiva - a este permanente ruído nas televisões, rádios e jornais, com a sua mecânica rudimentar de parada e resposta, torna-o desprovido de importância.

Susana Villar

Ilustração de Susana Villar

Quando na semana passada, aqui na SÁBADO, disse que, se espremessem as "notícias" de Agosto não saía nada, é isso mesmo que resulta deste palavreado todo. O resultado é que já quase não se pode ouvir ou, quando se ouve, não fica nada. Santana é a voz de rádio do vazio; Cristas grita um pouco mas nada daquilo conta para nada; Costa só é ouvido porque é primeiro-ministro e tem poder; Catarina Martins não tem consciência de que aqueles sistemáticos discursos com demasiada entoação, uma herança que Louçã deixou ao Bloco, cansam e cada vez cansam mais; Rio fala pouco, e isso é uma vantagem; e Jerónimo tem um discurso terra a terra e sem rodriguinhos que, apesar de tudo, ainda é audível.

Às vezes, quando falam Catarina e Jerónimo a seguir um ao outro, Jerónimo é um bálsamo de simplicidade, como aconteceu numa dessas visitas que fazem às feiras.
Como é que pode haver rentrée, a não ser como forma de um protocolo demasiado gasto?

A única vantagem da rentrée é que vamos deixar de ver o Presidente seminu a comentar tudo. O que verdadeiramente precisamos é de uma entrée, sem ser no sentido culinário, que eles entrem para dentro de alguma coisa, e que essa coisa, uma bolha, uma cúpula, um útero, uma redoma, lhes corte a fala e os deixe apenas com a acção.

Os órgãos de comunicação social iriam espumar, embora venha aí o futebol, mas pelo menos estávamos perante actos com consequências, a que podemos dizer sim e não, em vez deste borbulhar de palavras. Abaixo a rentrée, viva a entrée!


Trump e McCain
O modo mesquinho, cobarde, atabalhoado com que Trump reagiu à morte de McCain pode ter sido a primeira vez que perdeu alguns pontos com a sua "base". Aliás, a bandeira que estava a meia haste, depois a haste inteira, e depois outra vez a meia haste mostra como Trump se acobardou quando a maior organização americana de veteranos de guerra o criticou com severidade. Ele bem podia roer-se de fúria todas as vezes que ouvia elogios a McCain que eram duras críticas a ele mesmo, mas, como aconteceu quando tudo lhe caiu em cima depois do encontro com Putin, recua com medo. Destas coisas ele sai sempre um homem pior do que já é, o que mostra como é fundo o poço do piorio.

domingo, 9 de setembro de 2018

Excertos da carta anónima anti-Trump publicada no New York Times

O dilema - que ele não compreende totalmente - é que muitos dos altos funcionários de sua própria administração estão trabalhando diligentemente de dentro para frustrar partes de sua agenda e suas piores inclinações.

Eu saberia. Eu sou um deles.


A raiz do problema é a amoralidade do presidente. Qualquer um que trabalhe com ele sabe que não está atrelado a nenhum princípio discernível que guie sua decisão.


Além de seu marketing em massa da noção de que a imprensa é o “inimigo do povo”, os impulsos do presidente Trump são geralmente antitráfico e antidemocrático.

Não me entenda mal. Há pontos brilhantes que a cobertura negativa quase incessante da administração não consegue captar: desregulamentação eficaz, reforma tributária histórica, um exército mais robusto e muito mais.

Mas esses sucessos vieram apesar - não por causa - do estilo de liderança do presidente, que é impetuoso, contraditório, insignificante e ineficaz.


Da Casa Branca aos departamentos e agências do poder executivo, altos funcionários admitirão privadamente sua descrença diária nos comentários e ações do comandante-chefe. A maioria está trabalhando para isolar suas operações de seus caprichos.


Tomemos a política externa: em público e em particular, o presidente Trump mostra uma preferência por autocratas e ditadores, como o presidente da Rússia e líder da Coréia do Norte, Kim Jong-un, e demonstra pouca estima genuína pelos laços que nos unem aos aliados nações de pensamento semelhante.

Observadores perspicazes observaram, no entanto, que o resto da administração está operando em outra via, onde países como a Rússia são convocados para se intrometer e punir de acordo, e onde aliados ao redor do mundo estão envolvidos como pares, ao invés de ridicularizados como rivais.


A maior preocupação não é o que o Sr. Trump fez com a presidência, mas sim o que nós, como nação, permitimos que ele fizesse a nós. Nós nos afundamos com ele e permitimos que nosso discurso fosse despojado de civilidade.

A oposição-administração não muito silenciosa

Fonte: Aventar

09/09/2018 by j. manuel cordeiro

Nos vertiginosos tempos em que vivemos, onde o instantâneo é regra e a reflexão tende a ocupar um lugar secundário, poderá pensar-se que uma notícia de quarta-feira passada cheire a bafio. Mas é bem actual e nem precisa de ser arejada.

Muitos têm apontado a natureza louca do presidente americano, tendo repetidamente sido adjectivados de tontos para baixo. Mas agora é um elemento da administração Trump quem o afirma, o que devia ser suficiente para que as luminárias nacionais, a par das restantes, engolissem uns sapos. Talvez se tenham ficado pelas cuisses de grenouille, no entanto.

Não nos enganemos, no entanto. O autor desta carta é aquele tipo de amigo que nos sorri enquanto prepara a facada nas costas. Vem isto a propósito do que ele afirma como sendo os sucessos desta administração americana: desregulamentação, reforma fiscal e exército mais forte.

Vejamos. A reforma fiscal existiu sim, mas para aliviar as grandes empresas, já imensamente ricas; a desregulamentação tem como bom exemplo o fim da neutralidade da Internet, com enorme benefício para as empresas de telecomunicações (e com prejuízo para os consumidores americanos); e um exército mais robusto traduz-se na continuação dos negócios cimentados pela guerra.

Outro objectivo da administração Trump, óbvio mas não declarado, consiste em manter Trump até que altos cargos, tais como o Supremo Tribunal, fiquem povoados por peões republicanos, consolidando as posições do partido durante décadas (graças às nomeações vitalícias).

Quanto à loucura de Trump, esta só assim é vista por aqueles que acham que o totalitarismo dos anos 30 do século passado não se repetiram. Há, no entanto, um crescente grupo de políticos que trabalham nesse sentido e Trump, suportado pelo facho Bannon, é o expoente deste movimento. O que para uns é a loucura, para outros é a estratégia a funcionar. E esta passa por destruir as instituições, tais como a ONU, a NATO e a UE, que têm funcionado como travão ao plano. A estratégia tem funcionado, com a conivência dos republicanos que tapam os olhos para assegurarem o poder vindouro, mesmo que alguns lancem uns gemidos anónimos na comunicação social.

Extrato da carta em causa:

“…

The dilemma — which he does not fully grasp — is that many of the senior officials in his own administration are working diligently from within to frustrate parts of his agenda and his worst inclinations.

I would know. I am one of them.

The root of the problem is the president’s amorality. Anyone who works with him knows he is not moored to any discernible first principles that guide his decision making.

In addition to his mass-marketing of the notion that the press is the “enemy of the people,” President Trump’s impulses are generally anti-trade and anti-democratic.

Don’t get me wrong. There are bright spots that the near-ceaseless negative coverage of the administration fails to capture: effective deregulation, historic tax reform, a more robust military and more.

But these successes have come despite — not because of — the president’s leadership style, which is impetuous, adversarial, petty and ineffective.

From the White House to executive branch departments and agencies, senior officials will privately admit their daily disbelief at the commander in chief’s comments and actions. Most are working to insulate their operations from his whims.

Take foreign policy: In public and in private, President Trump shows a preference for autocrats and dictators, such as President Vladimir Putin of Russia and North Korea’s leader, Kim Jong-un, and displays little genuine appreciation for the ties that bind us to allied, like-minded nations.

Astute observers have noted, though, that the rest of the administration is operating on another track, one where countries like Russia are called out for meddling and punished accordingly, and where allies around the world are engaged as peers rather than ridiculed as rivals.

The bigger concern is not what Mr. Trump has done to the presidency but rather what we as a nation have allowed him to do to us. We have sunk low with him and allowed our discourse to be stripped of civility.

Quando as divergências políticas acabavam em cisão no PSD

PSD

Santana abandonou o PSD. O que diferencia a ruptura partidária actual das cisões históricas do passado? Quase tudo. O confronto ideológico é mitigado. A divergência programática não é expressa. Não há debandada de dirigentes nem de deputados.

São José AlmeidaSÃO JOSÉ ALMEIDA

9 de Setembro de 2018, 6:00



As campainhas soaram na São Caetano à Lapa e no país político, quando, cumprindo uma promessa recorrente e com décadas, Pedro Santana Lopes anunciou que avançava para a formação de um novo partido político, a Aliança. De imediato, dispararam as análises sobre o impacto no sistema político do nascimento de mais uma formação partidária e sobre qual a erosão eleitoral que a Aliança poderá causar no PSD. Também não faltaram as comparações históricas com o passado do partido, que viveu nos seus primeiros anos duas significativas cisões: a da ala social-democrata liderada por Mota Pinto e Sá Borges em 1975, que ficou para a história como a Cisão de Aveiro, e a das Opções Inadiáveis, liderada por Sousa Franco, em 1977-1979.

O próprio Santana já afirmou que não está a fazer uma cisão no PSD. O que é verdade. Nada do que caracteriza o actual momento é comparável àqueles dois movimentos de ruptura. É certo que em 1975 a Cisão de Aveiro deu origem ao Movimento Social Democrata, que foi visto na época como o possível embrião de um novo partido. É verdade também que em 1979, parte dos inadiáveis formaram a Acção Social-Democrata Independente (ASDI). Mas tudo o mais é diferente, quer do ponto de vista como estas rupturas se processaram, quer ao nível do contexto político. Até porque é forçoso reconhecer que naqueles anos era muito mais vincada a consistência político-ideológica dos dirigentes do PSD, como dos políticos portugueses em geral.

Assim como não pode ser escamoteado que, aos olhos de hoje, é excessiva a intensidade com que a vida política era vivida, da parte de todos os intervenientes, a começar pelo líder-fundador do PPD, Francisco Sá Carneiro. Líder da Ala Liberal, oposição à ditadura na Assembleia Nacional, após a morte de José Pinto Leite, Sá Carneiro ver-se-ia a si mesmo como herdeiro natural da liderança da construção da democracia, sistema político de que tinha concepções que chocavam com o modelo adoptado após o 25 de Abril. Era dono de uma visão do poder personalizado e centralizado e senhor de um perfil carismático e populista, de quem Maria João Avillez (Solidão e Poder) fez um retrato lapidar: “Tenso, irascível, violento, foi-o sempre enquanto se tratou de construir a máquina que lhe obedecesse no manejamento da conquista do poder.”

Sá Carneiro usou mesmo a arma do afastamento da liderança para impor a sua estratégia face à maioria da direcção. Fê-lo entre Novembro de 1977 e Junho de 1978 por questões tácticas. Isto depois de ter estado afastado da liderança e do partido, entre Fevereiro e Setembro de 1975, por motivos de saúde. Internado no Porto, em Fevereiro, é operado a uma oclusão total do intestino. Em Abril vai para Londres, onde será submetido a mais duas operações aos intestinos. Na primeira, descobrem-lhe 14 focos de infecção no abdómen. Durante este período terá sofrido também de depressão, da qual só recupera no Verão de 1975, quando se muda por conselho médico para São Pedro de Alcântara, perto de Torremolinos, em Espanha.

21+37

Há um mundo de diferenças entre as duas cisões do passado e a saída de Santana. Quer em 1975 quer em 1977-1979, as cisões surgiram em torno da elaboração de documentos ideológico-programáticos importantes, Plataforma Social-Democrata para o Socialismo e Opções Inadiáveis, em que estavam vertidas claras linhas de enquadramento ideológico e programático de demarcação de Sá Carneiro, bem como da sua estratégia de alianças políticas.

De condicionais a ASDI

De condicionais a ASDI

Mais, em ambos os momentos, há cisão porque à demarcação ideológica, programática e estratégica expressa em documentos se juntam a ruptura e abandono do PSD por grupos vastos de figuras proeminentes do partido, não só de dirigentes fundadores de primeira linha, como também de parte significativa do grupo parlamentar. Em 1975, na Constituinte, dos 81 deputados da bancada, saem 21, incluindo o líder parlamentar Mota Pinto. Em 1979, passam a independentes 37 dos 73 deputados, ficando o próprio Sá Carneiro à frente de uma bancada reduzida a 36 deputados.
Quanto às alianças estratégicas, a comparação entre as cisões do passado e a saída de Santana do PSD pode ser feita. De facto, em todos estes momentos, está em causa a decisão sobre quem são os aliados partidários preferenciais. Mas mesmo aqui, se há alguma continuidade, as diferenças são claras quanto a quem é poder partidário e defende o quê.

Santana, que agora rompe com o PSD, é herdeiro de uma política de alianças preferenciais à direita, com o CDS, que foi concretizada por Sá Carneiro no passado ao constituir a Aliança Democrática (nome encontrado por Adelino Amaro e Vasco Pulido Valente), com o CDS de Freitas do Amaral e o PPM de Gonçalo Ribeiro Teles, em 5 de Julho de 1979, incluindo o apoio dos Reformadores, António Barreto e Medeiros Ferreira, que tinham rompido com o PS. Mas tal aconteceu porque Sá Carneiro não conseguiu o seu objectivo, quase permanente durante os primeiros anos de democracia: o de que o Presidente Ramalho Eanes patrocinasse a entrado do PSD nos governos então liderados pelo PS.

Com o crescimento do PSD nas primeiras autárquicas de 12 de Dezembro de 1976 — em que o PS teve 33,01% e o PSD 24,30%, mas ficaram empatados com 115 câmaras cada —, Sá Carneiro ganhou novo fôlego para tentar entrar no governo com o PS e esperou que Eanes promovesse essa aliança política. O PSD fora mesmo o primeiro partido, numa jogada de antecipação ao PS, a lançar formalmente o nome de Eanes como candidato a Presidente da República, que seria eleito a 27 de Junho de 1976. Chegou até a propor em Junho de 1977 a Convergência Democrática entre PSD, PS e CDS. Freitas aceita de imediato, mas Soares não.

Como explicam Maria João Avillez (Solidão e Poder) e Miguel Pinheiro (Sá Carneiro — Biografia), Sá Carneiro queria pôr o PSD no centro do sistema, mas Soares estava convicto de que era ao PS que cabia o papel de “partido charneira”. E é perante a recusa de Soares em partilhar o poder com Sá Carneiro que este se acantona na ideia de uma aliança preferencial à direita.

Outra linha de continuidade que pode ser estabelecida entre estes momentos, e até em toda a história do PSD, é o facto de neste partido coexistirem desde a sua fundação duas tendências — ou alas — políticas, uma de inspiração conservadora no plano dos costumes, mas personalista e liberal na economia, a outra assumidamente social-democrata. E se Santana continua a representar a primeira, Rui Rio é herdeiro da segunda.


O cimento de Cavaco

Só num momento da história do PSD estas duas tendências estiveram claramente sossegadas. Quando foram coladas pelo cimento do poder de Cavaco Silva, que conseguiu o sonho das maiorias absolutas do PSD a solo e que casou, de forma pragmática, a estratégia de Sá Carneiro de ruptura com o PS — em 1985, só não houve listas conjuntas com o CDS porque Lucas Pires recusou — com a concretização governativa das reformas estruturais defendidas por Mota Pinto (que introduziu este conceito na política portuguesa, assim como o de coesão territorial) durante o Governo do Bloco Central (1983-1985) em que foi vice-primeiro-ministro de Soares, mas que nunca conseguiu levar à prática, como explica João Pedro George (Mota Pinto — Biografia).

Cavaco é eleito após a morte de Mota Pinto (7 de Maio de 1985) — que deixara a vice-presidência do governo a Rui Machete em Fevereiro —, no XII Congresso, na Figueira da Foz, entre 17 e 19 de Maio de 1985, não por acaso, muito menos por ter ido fazer a rodagem do Citroën. Ministro das Finanças no primeiro Governo da AD chefiado por Sá Carneiro e tendo como padrinho o vice-rei do Norte do PSD, Eurico de Melo, Cavaco fora já uma hipótese de líder quando o partido escolheu Pinto Balsemão após a morte do líder fundador em 4 de Dezembro de 1980.

Durante a chefia do partido e do governo por Balsemão (1980-1983), Cavaco protagonizou com Eurico o grupo dos críticos, destacando-se na frontal e sistemática barragem contra a política financeira do ministro João Salgueiro, chegando a publicar nos jornais, a 6 de Julho de 1982, a Carta Aberta aos Militantes do PSD, alinhado tacticamente já com o PSD-Lisboa de Santana Lopes e Helena Roseta, mas também de Conceição Monteiro e de José Miguel Júdice.

Na Figueira, Cavaco acabou por meter todas as tendências no bolso, ao ser bem-sucedido no habilíssimo jogo de negociações internas, que lhe permitiu finalizar uma teia de relações iniciada antes ao nível do aparelho partidário e concluída já em pleno conclave. A masterpiece dessa construção de poder partidário, como explica Adelino Cunha (A Ascensão ao Poder de Cavaco Silva), foi conseguir arregimentar para a sua lista à comissão política Fernando Nogueira, o herdeiro intelectual e político de Mota Pinto, numa conversa mediada por Dias Loureiro, durante a última madrugada de trabalhos no congresso, roubando-o à lista de João Salgueiro, que chegara à Figueira convencido de que seria presidente do PSD. Embora desvalorizada pelo próprio Cavaco (Autobiografia Política), a sua arte ao derrotar Salgueiro e a linha social-cristã — onde pontuava também João Bosco Mota Amaral — consistiu não só em garantir o apoio da distritais e dos mota-pintistas, mas também da Nova Esperança. A última grande tendência organizada do PSD, que nascera em 1983, na crítica sistemática à defesa de alianças com o PS feita por Mota Pinto e que era protagonizada por figuras como Santana, presidente da distrital de Lisboa, Marcelo Rebelo de Sousa, Conceição Monteiro, Durão Barroso, José Miguel Júdice e Nuno Morais Sarmento, líder da JSD-Lisboa.

Esperança, sem ruptura

Também esta tendência, que se inscrevia numa linha de pensamento mais liberal na economia, embora conservadora no plano dos costumes, e defendia a demarcação do PSD do PS, sistematizou as suas ideias programáticas num documento, que apresentou ao XI Congresso em Braga, já em 1984, com o título com que o grupo de Lisboa fica para a história: Uma Alternativa para o PSD — Uma Nova Esperança para Portugal.

No fundo, integrava uma corrente de pensamento herdeira do que era a tendência interna personalizada na fundação por Sá Carneiro, ele mesmo liberal na economia, embora conservador e de formação católica, que não conhecia a fundo o pensamento social-democrata. Era, sobretudo, um radical, pragmático e defensor da sociedade civil, que ergueu como uma das suas causas em democracia o confronto com os militares, que queria fora da política e de volta aos quartéis. Maria João Avillez (Solidão e Poder) chama, aliás, à atenção para o facto de Sá Carneiro nunca ter estado na primeira linha nos momentos de debate ideológico, mas destacou-se sempre na luta pela definição da linha estratégica do partido.

Esta divisão entre tendências, liberal e social-democrata, surge logo na fundação do PPD, que Sá Carneiro queria que se chamasse Social-Democrata, mas cuja expressão fora já registada pelo Partido Social-Democrata Cristão e que acabou por ser baptizado como Partido Popular Democrata pelo escritor Ruben A. Leitão. Só a 3 de Outubro de 1976, o conselho nacional mudará o nome para Partido Social-Democrata, adoptando a sigla PPD-PSD.