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sábado, 30 de março de 2019

Contra a cobardia do assédio moral

Novo artigo em Aventar


por Bruno Santos

Nuno Oliveira ©PÚBLICO

O assédio moral no trabalho é um acto de violência particularmente cobarde e execrável. Ela é normalmente exercida, directa ou indirectamente, por um agente detentor do poder, com recurso à reiterada agressão psicológica e a processos persecutórios ilegais e injustificados. Visa eliminar o equilíbrio anímico do trabalhador, parti-lo por dentro, quebrá-lo moralmente, isolá-lo do meio profissional e social, afectar as suas relações pessoais e familiares. Distorcer a percepção que ele tem de si próprio e dos outros, através da diminuição da sua auto-estima e do corte afectivo com a realidade do quotidiano. É um crime sádico, praticado por delinquentes com traços de carácter particularmente perversos, cuja cobardia se acoita atrás de lugares de poder, lugares esses através dos quais expiam e projectam um subconsciente doentio, cheio de monstros simbólicos cujas imagens, normalmente, carregam desde a primeira infância.

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Ladrões de Bicicletas


IVG: a caixa de Pandora que não se abriu

Posted: 29 Mar 2019 08:54 PM PDT

Nos acirrados debates que antecederam o referendo sobre a despenalização do aborto, realizado em fevereiro de 2007, um dos argumentos mais esgrimidos pela direita - em tom de profecia intimidatória - foi o de que a vitória do «sim» à despenalização (até às 10 semanas de gestação e a pedido da mulher) iria abrir uma caixa de Pandora e gerar uma torrente inaudita de casos de interrupção voluntária da gravidez (IVG).
Ora, o que os dados mais recentes vêm de novo demonstrar, e reforçar, é exatamente o contrário. Não só o número de abortos tem vindo a diminuir paulatinamente desde 2011 (após três anos de subida, depois de 2008), como se atingiu, em 2017, a mais baixa taxa de incidência de IVG em jovens adolescentes (menos de 20 anos de idade). De facto, o número de IVG situa-se pela primeira vez abaixo de 15 mil em 2017 (estima-se que rondava 20 mil por ano, antes da despenalização) e o rácio de IVG em jovens adolescentes fixa-se nos 1,5‰ (quando rondava os 2,0‰ em 2008).

Mas há mais. Na média do período (2008 a 2017), cerca de 74% das mulheres nunca recorreu anteriormente à interrupção da gravidez, sendo de 20% o peso médio relativo das que a tinham feito uma vez (e de apenas 6% os casos de interrupção da gravidez por mais que uma vez). Por outro lado, entre 2011 e 2017 o ritmo de redução de IVG tende a ser mais significativo nas situações laborais e ocupacionais em regra mais críticas: estudantes (-31%), desempregadas (-33%) e trabalho não qualificado (com uma quebra de apenas -1%). Isto é, valores que comparam com a diminuição de -22% do número total de IVG). Por último, a percentagem de mulheres que adere a um método contraceptivo em momento posterior à interrupção da gravidez é sempre superior a 93%, entre 2008 e 2017.
Estes dados evidenciam que a profecia do descalabro, agitada pela direita, estava de facto errada. E arrasam, por isso, duas presunções morais sobre a natureza humana em que essa profecia assentou. Por um lado, a noção de que a inexistência de um maior número de abortos em Portugal, antes de 2008, se devia ao facto de o mesmo constar como crime no Código Penal. E, por outro lado, a ideia de que - uma vez eliminado o suposto efeito dissuasor da prescrição penal - a situação resvalaria para um autêntico regabofe, com a ligeireza e a irresponsabilidade a comandarem as opções das mulheres, que passariam por isso a abortar por «dá cá aquela palha».

O estranho caso do filho pródigo

Posted: 29 Mar 2019 06:34 AM PDT

Aparte introdutório
Muita tinta tem corrido a propósito das relações familiares no governo. Não é tema que me aqueça as veias: trata-se, no essencial, de um sintoma de desespero de uma direita sem discurso, que se vê obrigada a viver de caso em caso para sobreviver. Já foram os incêndios, já foi Tancos, agora são as relações familiares.
Embora não o considere um tema de grande relevo, creio que não deve deixar de inspirar algum juízo crítico junto dos envolvidos. Nos casos trazidos a debate, é evidente que não se trata de um favorecimento familiar direto. Na sua maioria, a relação política existia muito antes da relação afetiva e familiar. Mas essa coincidência não causal não deixa de ser um indício de algo que nos deve preocupar a todos: o facto de as elites políticas e intelectuais onde se recrutam quadros políticos serem muito exíguas. Nem sempre é propositado: os cargos de nomeação reúnem, desejavelmente, um misto de competência e confiança pessoal que germina mais facilmente em círculos restritos. O sujeito A não nomeia o sujeito B por ser seu familiar ou familiar de um outro dirigente político, mas por terem frequentado a mesma universidade, os mesmos espaços profissionais, de militância e\ou de lazer. Contudo, num momento em que a extrema-direita procura usar a desconfiança nos políticos como instrumento para a sua ascensão, a prudência aconselha a que se minimizem os fatores que, aos olhos dos cidadãos, transmitem a ideia de que os altos cargos políticos são distribuídos por uma elite restrita. Por isso, e ainda que sob pena de se cometerem injustiças individuais, deve evitar-se de futuro uma concentração tão elevada deste tipo de casos. (E, de caminho, escusarem-se de colocar o Carlos César a comentar eventuais casos de nepotismo - é como pôr um pirómano a falar de prevenção florestal).
O filho pródigo
Há, no entanto, relações bem mais misteriosas no espaço mediático português do que as relações familiares. E essas, confesso, preocupam-me muito mais do que as anteriores, porque espelham o quanto os círculos de confiança do poder económico e de algum poder político são ainda mais restritos.

David Dinis acaba de ser nomeado diretor-executivo do Expresso. Antes desta nomeação, David Dinis já tinha ocupado as posições de editor de política do Diário Económico, editor de política do Diário de Notícias, editor de política de Jornal de Notícias, editor de política do Sol, diretor do Público, diretor Observador e diretor da TSF.
Face a este percurso, há uma pergunta que surge: que características únicas tem David Dinis para ser do agrado de um espectro tão vasto de projetos editoriais, ocupando sempre lugares de destaque? Será que na classe jornalística, tão vasta e pejada de profissionais talentosos, não haverá um conjunto numeroso de pessoas com competência para assumir cargos de direção? Por que motivo é que os cargos de direção dos jornais parecem sempre circular entre um círculo mesmo muito restrito de indivíduos, que pulam de projeto editorial em projeto editorial? E por que motivo a esmagadora maioria dessas figuras tem um posicionamento de centro-direita ou de direita?
A todas estas perguntas os responsáveis dos conselhos de administração responderão apenas que se trata de um conjunto de pessoas com provas dadas, que asseguram a qualidade de conteúdos e a viabilidade económica do projeto. Mas, se ultrapassarmos o patamar da ingenuidade, sabemos que se trata de bem mais do que isso. Numa época em que o diretor de um jornal não dirige apenas o seu projeto mas é também um comentador regular de todos os assuntos de atualidade - basta recordar o número de vezes que este pequeno círculo aparece em espaços televisivos de comentário - a posição que ocupa goza de uma imenso magistério de influência. Como ficou evidente durante a intervenção da Troika ou durante o processo de criação da Geringonça, estas figuras são capazes de criar um clima social de aceitação ou rejeição de determinado facto político pelo espaço de comunicação de que dispõem.
Assim, não é estranho que um número tão restrito de pessoas circule pelos mais variados meios de comunicação. A sua direção assegura que os projetos que dirigem e os comentários que produzem sejam convenientes ao poder económico e político dos proprietários desses meios de comunicação, que se que se estende desde a direita mais assumida até ao velhos tempos do centrão da política nacional, muito mais vivo do que a experiência dos últimos quatro anos pode fazer sugerir.
Há elites muito mais restritas e influentes do que os casos mediáticos que têm estado em destaque. E a direita, que tanto tem insuflado a questão das ligações familiares, é a principal promotora desses pequenos círculos de poder, que lhe garantem a hegemonia da opinião, mesmo numa conjuntura política desfavorável.
Há laços não familiares que são verdadeiros laços de sangue. O Diogo Queiroz de Andrade, o Paulo Baldaia, o Manuel Carvalho e uma mão cheia de outros nomes que vão circulando pela direção dos órgãos de comunicação são os filhos muito acarinhados de um poder económico e político que os trata com o maior afeto. E, de todos eles, nenhum será porventura tão mimado como David Dinis, o verdadeiro filho pródigo.

David Harvey e as crises do capitalismo

Posted: 29 Mar 2019 05:10 AM PDT

Excerto ilustrado de uma palestra de David Harvey, professor na City University of New York, sobre as diferentes interpretações acerca da última crise financeira.

Entre as brumas da memória


Daqui, desta Lisboa compassiva

Posted: 29 Mar 2019 12:29 PM PDT

Daqui, desta Lisboa compassiva,
Nápoles por suíços habitada,
onde a tristeza vil e apagada
se disfarça de gente mais activa;
daqui, deste pregão de voz antiga,
deste traquejo feroz de motoreta
ou do outro de gente mais selecta
que roda a quatro a nalga e a barriga;
daqui, deste azulejo incandescente,
da soleira de vida e piaçaba,
da sacada suspensa no poente,
do ramudo tristolho que se apaga;
daqui, só paciência, amigos meus!
Peguem lá o soneto e vão com Deus...
Alexandre O'Neill,  atrás dos tempos vêm tempos, 1996
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2 de Abril - Mão dada a Moçambique

Posted: 29 Mar 2019 11:29 AM PDT

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Agnes Varda

Posted: 29 Mar 2019 06:54 AM PDT

Menos uma. E que deixou tantas boas pegadas.
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O cansaço de César

Posted: 29 Mar 2019 04:01 AM PDT

«Carlos César está cansado e nota-se quando fala. Foi habituado a governar nos Açores com a maioria absoluta e a vida é outra coisa, é um descanso. No continente sempre foi almejada e quase sempre não conseguida, salvo com Sócrates, e deu no que deu.

César quer ter as mãos livres para fazer o que quiser, ele e os socialistas de que é líder parlamentar. Está desejoso de um tempo em que “trabalhar” seja gerir a seu bel-prazer os destinos do país. É um desejo ter uma legislatura de papo para o ar, sem prestar contas.

César acusa sérias dificuldades em fazer esforços para governar através de acordos com outras forças políticas à sua esquerda. Cansa-se. Dentro da sua ótica, se tivesse maioria absoluta fazia o que queria sem passar cavaco a ninguém; como Cavaco durante dez anos.

César cansa-se de ter de lidar com a oposição e até com as forças com quem fez acordos. Foi bom que tivesse dado nota do seu cansaço porque alertou os portugueses para essa sua fragilidade.

Como líder parlamentar do PS advertiu que no Parlamento se fatigará sem apelo nem agravo se não tiver mais de metade dos lugares. Deu conta que o PS bem quer trabalhar, mas a dialética resultante dos acordos e da oposição fá-lo emperrar, precisa de roda livre.

Compreende-se num homem cansado por tanto desesperar por uma maioria absoluta. César desabafou. Pôs o coração na boca e saiu este destempero sob esta forma tão subtil... "Estou cansado...” Que maçada.

Na verdade, o PCP, o BE, o PEV e o PAN exigem compromissos na defesa do SNS, da Escola Pública, de uma Justiça mais acessível, da Segurança Social e de uma política de melhoramento das condições de vida, em vez do empobrecimento levado a cabo pelo governo do PSD e do CDS.

Há no desabafo de César uma enorme sinceridade, o que é sempre louvável. A César o que é de César... Se os portugueses quiserem um César descansadíssimo têm de lhe dar uma maioria absoluta.

Neste caso, César chegaria ao Parlamento e saberia que o número de deputados o deixaria à larga, despreocupado. O Governo descansadamente teria no Parlamento um eco que repercutiria o que São Bento propusesse. A Assembleia da República seria uma caixa-de-ressonância do Governo.

César, pomposamente, disse o que os socialistas “preguiçosos” dizem entre eles, porque os há trabalhadores que apoiam os acordos e não se cansam tanto. Se César tivesse maioria absoluta haveria um país inteiro a dividir, na família, uma vida boa.

Pelos vistos, ao cabo de quatro anos não lhe está na massa do sangue ter de negociar com parceiros tesos na defesa da população trabalhadora. É uma canseira, segundo as suas queixas e lamentações.

Se, apesar da “geringonça”, a família está bem presente, imagine-se o que seria com a tal maioria absoluta, o antídoto do cansaço de César. Como ele seria feliz e se sentiria a voar como uma borboleta.

O cansaço de César tem o seu quê para ser levado em conta. Ou o país nas mãos do PS. Ou o PS a governar com acordos à esquerda que dão mais descanso ao país, mas que cansam o líder parlamentar. Opções.»

Domingos Lopes

MONEY TALKS

por estatuadesal

(Clara Ferreira Alves, in Expresso, 30/03/2019)

Clara Ferreira Alves

(A Dona Clara adora as elites e escrever sobre elas e - reconheça-se -, que o faz bem. Que a América é como um perdigueiro a farejar os odores do dinheiro do qual a Europa se envergonha e tem pudor de ostentar.

Bem, mas assim sendo, a Dona Clara sempre me pareceu mais americana que europeia. Quem não tem os dólares de Trump para ostentar pode ficar-se sempre por parodiar quem os detém.

Estátua de Sal, 30/03/2019)

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Alguém acreditou que a investigação de Mueller sobre possível conspiração entre a campanha de Trump, com Trump à cabeça, e a Rússia de Putin pudesse ser provada e punida, a existir? Só os democratas, que parecem ter esquecido em que país vivem. Na América, e não é a América de Trump, apenas os Estados Unidos da América, perseguir o poder absoluto é impossível. O que é o poder absoluto? A união do poder político e do mais alto cargo público jamais inventado, com o poder económico e social. Donald Trump é um multimilionário. Pode sê-lo apenas no papel, ou com créditos, corrupções e falências, mas continua a ser um multimilionário, parte de uma casta que é reverenciada, elogiada e copiada no país da oportunidade e do individualismo. Os americanos não respeitam especialmente os direitos humanos ou a perseguição da felicidade, ao contrário do que se pensa por aí, os americanos respeitam o dinheiro e a liberdade de o ganhar e acumular de todas as maneiras. Em nenhum outro lugar uma pessoa é abordada por estranhos que perguntam, o que faz?, e a seguir, quanto fatura por ano? Para um europeu, este é um crime de lesa-majestade. Na Europa, o dinheiro é um segredo envergonhado, por causa das doutrinas marxistas que geraram as nossas democracias e a proteção do trabalhador. Na América, terra do capitalismo triunfante, o capital é o valor supremo e o acumulador de capital não é um bandido, é um herói.

Trump, com o seu “belo Sikorsky”, o helicóptero em que chegava aos comícios, as mulheres compradas e importadas que ele diz que lhe custaram uma fortuna, o avião dourado, a marca gravada nos arranha-céus, a ostentação de riqueza que lhe valeu a capa da “Vanity Fair” e a adulação dos liberais e dos media antes de se zangarem com ele, é um moderno herói americano. Antes de manipular o Twitter com destreza, Trump manipulava os media e usava-os como garantia pessoal e bancária. Na televisão, que ainda comanda o mundo, Trump foi um vencedor, e gerou milhões de dólares. Quando o momento chegou, na ressaca dos movimentos politicamente corretos e da negação dos efeitos perversos da globalização e do dumping chinês nos trabalhadores brancos do Ocidente, Trump avançou e ganhou. Os democratas continuaram a discutir temas de sociedade e utopias, enquanto Trump lhes roubava a classe operária e rural, mais os pobres. De caminho, Trump levou ainda, na sua acumulação de capital político, os ideólogos da supremacia, os racistas misturados, os iletrados, os frustrados e os reacionários, essa América redneck que impera no sul e no meio do continente e que não quer saber de finuras. Não ganhou o voto popular mas por essa altura já o colégio eleitoral estava garantido pelos republicanos que viram nele a galinha dos ovos de ouro. Ali, as eleições ganham-se com o voto branco, masculino e feminino, não com o voto dos imigrantes, das minorias, dos negros que ou não votam ou não podem votar, das mulheres e dos homossexuais. Ou das elites. Pode ser que a demografia esteja a mudar, mas este voto ainda é o voto principal. E na Europa também, caso estejamos esquecidos. Não se ganham votos em França ou na Holanda, na Suécia ou na Dinamarca, com os africanos e os muçulmanos. Convém perceber como ganha a extrema-direita nos países onde a imigração aumentou brutalmente.

Trump já era um vencedor antes de ocupar a Casa Branca. A junção dos poderes deu-lhe o maior poder que alguém jamais teve. O do Twitter, da televisão, do dinheiro, do voto e do cargo. O cargo de Presidente foi concebido como tendo proteção total. É inverosímil destronar um Presidente eleito, e não existe arbitragem. O ‘Watergate’ deu ao jornalismo a ilusão de um poder fictício e pontual, mas o ‘Watergate’ foi também uma junção única de poderes. O do dinheiro da Katharine Graham, uma grande senhora de Washington e do establishment, o da coragem dos denunciantes e dos jornalistas e editor do “The Washington Post”, o da fraqueza intrínseca de um Nixon paranoico e assustado com o Vietname, o das marchas dos direitos civis, o da ideologia da revolução na política americana. O Vietname deu cabo de Nixon, mais do que o assalto ao ‘Watergate’, mas quando o ‘Watergate’ aconteceu, ele só poderia cair. Hoje, o poder presidencial não cairia assim. O ‘Watergate’ seria, na era das redes e da internet, na época pós-subprime e pós-9/11, impossível. Os mercados ensandeceriam e dariam cabo do mundo que conhecemos.

Pensar que os Estados Unidos estariam preparados para acusar o seu Presidente de conspiração e de traição, de ser um agente dos russos, uma toupeira de Le Carré, é ficção que ninguém ousaria escrever. O sistema americano, de Wall Street a Silicon Valley, do Pentágono ao Capitólio, poderia admitir que estava nas mãos rapaces de Putin sem dar por isso?

Foi para isto que a América ganhou a Guerra Fria? Para ser vencida pelos trolls russos e kompromat? Seria o fim do poder americano, a machadada final no império, e nem Gore Vidal aprovaria tal coisa. Mesmo que existissem provas de collusion, Mueller seria desaconselhado a apresentá-las. O deep state existe e, neste caso, beneficiaria Trump para salvar a América da vergonha e da humilhação. Esta investigação estava condenada, tão condenada como a estupidez de exaltar uma atriz pornográfica e o venal advogado, Michael Avenatti, como arautos da limpeza moral do Presidente. Avenatti foi preso esta semana, claro, com outra acusação pendente. Tão condenada como a de considerar Michael Cohen, outro venal criado, um arrependido que viu a luz da verdade e do bem.

Dito isto, não acredito que Putin tenha recrutado Trump. Seria demasiado inteligente para o fazer. Não precisou. As táticas do KGB dão fruto sem necessidade de enfiar toupeiras na Casa Branca, e já não estamos no século XX. Basta usar a tecnologia e oferecer uma suíte de hotel com serviços incluídos e uma torre Trump na capital. Para relembrar com amizade o passado em Moscovo. Money talks, bullshit walks.

Uma grande família

por estatuadesal

(José Soeiro, in Expresso Diário, 29/03/2019)

José Soeiro

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Paulo Rangel, atolado na desventura em que se transformou o PSD e no vazio de diferenças entre a sua política europeia e a de Pedro Marques, encontrou nos laços de parentesco de assessores e Governantes o tema central da sua campanha. Só que, como lembrou e bem Adriano Campos, o rei da “caça à família” foi até há pouco tempo o sócio e advogado do Cuatrecasas, um escritório que assessorou as privatizações da ANA e da TAP no anterior Governo, que participou da resolução do Banif, que deu apoio à elaboração das escandalosas parcerias público-privado com a Ascendi na rodovia (essas mesmo que valeram a tantos portugueses, além do buraco no Orçamento do Estado, as cartinhas do Fisco, feito cobrador de fraque de uma entidade privada). Famílias há muitas e as que resultam dos negócios são tanto mais eficazes quanto se escondem em formas de afinidade e vínculo que não precisam da consanguinidade para ativarem os mecanismos de proteção e de cumplicidade de quem pertence ao mesmo clã.

Na verdade, enquanto PS e PSD trocavam acusações tonitruantes sobre o parentesco dos membros dos gabinetes, preparavam nos bastidores um entendimento de última hora que surpreendeu os que acreditaram que as juras de amor à transparência eram, desta vez, para levar a sério. De que falo? Da proposta do PSD que – apresentada sem aviso e contra a anunciada intenção de aumentar as restrições à acumulação da função de deputado com outras que podem entrar em conflito com aquela – visa permitir que os deputados que são advogados, membros de sociedades de advogados ou que vêm do setor financeiro intervenham no processo legislativo, mesmo que as suas sociedades estejam envolvidas nos processos abrangidos por essa legislação. Como diz o Público, o que os deputados do PSD fizeram foi, em conjunto com os do PS que garantiram a sua aprovação, “abrir alas àquilo que antes queriam evitar”.

Nada disto é novo. Só mostra como, neste campo, nada mudou. Lembro-me bem de como no passado, por exemplo, deputados dos grandes escritórios se juntaram para chumbarem uma proposta do seu próprio Governo que obrigava os estagiários na área do Direito a serem remunerados. Ou de, mais recentemente, nos trabalhos para rever a legislação laboral, os deputados próximos do setor do trabalho temporário mexeram os seus cordelinhos para que o PS não aceitasse mexer em nada de essencial no setor. A ordem reina.

Claro que, para desviar o assunto, ouviremos falar da “importância da regulamentação do lobbying”, conversa que é pura areia para os olhos, quando, no essencial, PS e PSD se juntaram para garantir a continuidade das portas giratórias entre interesses económicos e poder político que têm sido uma característica estruturante do capitalismo português.

Vai de vento em popa o país de Maria Luís Albuquerque e da promiscuidade com os fundos abutre, de Adolfo Mesquita Nunes e da Galp rentista, de Carlos Peixoto e dos escritórios dos vistos Gold, de António Vitorino e da EDP, de Carlos Moedas e dos CTT privatizados (logo dirigidos pela sua mulher, depois do negócio ruinoso da privatização).

O centrão e o mundo dos negócios sempre formaram uma grande família.