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terça-feira, 2 de abril de 2019

Leite, tabaco e droga: o triângulo do Inferno

Novo artigo em Aventar


por António Fernando Nabais

Luís Cabral da Silva, especialista em transportes, lacticínios e estupefacientes, explicou, por assim dizer, que, com a baixa dos preços dos passes, as pessoas mais necessitadas poderão comprar leite, tabaco e, já agora, droga.

O pobrezinho, como se sabe, só está como está porque quer, porque o mundo está cheio de oportunidades, assim ele quisesse trabalhar. O pobrezinho, na realidade, é só um parasita que anda a ser sustentado com o dinheiro dos impostos das pessoas que trabalham. Com esse dinheiro, que não ganhou, na melhor das hipóteses, o pobrezinho irá comprar, como se sabe, um pacote de leite, um maço de tabaco e um saquinho de erva. Sabonete não precisa, porque o pobrezinho é naturalmente porco e, se cheirasse bem, já não era pobrezinho. Ler mais deste artigo

O que é que interessa saber quem é o pai da criança?

por estatuadesal

(Francisco Louçã, in Expresso, 02/04/2019)

Francisco Louçã

Acho tão natural a disputa de segunda-feira sobre a putativa paternidade da medida de redução dos passes sociais como que a esqueçamos logo no dia desta terça-feira. Sim, o Governo e o PS podem dizer que aplicaram a medida e até partilhar as cerimónias com autarcas de cores diversas, que aliás só compõem o ramalhete e reforçam a centralidade governamental nesta operação.

O facto é que a concretizaram, mesmo que tenham gerido o calendário de modo a adiar o processo até à primavera, e em parte até ao verão de 2019. Acusação de eleitoralismo? O primeiro-ministro não quer saber menos desse assunto, é-lhe indiferente, sabe que neste deve-e-haver ganha sempre. Vantagem para o PS. É campanha eleitoral? Claro que é, e depois, perguntará o primeiro-ministro, que atire a primeira pedra quem nunca fez campanha a partir do seu poder, agora sou eu quem está cá.

Vem então o PCP reclamar que há um projeto de resolução de há 22 anos que pedia o mesmo e que insistiu. Vem o Bloco dizer que o tinha proposto desde que existe há vinte anos e que colocou o assunto no acordo com o PS na Câmara de Lisboa. Tudo certo. E tudo isso tem a validade de um dia. O ponto é que saber qual dos pais da criança foi mais pai é razoavelmente indiferente para toda a gente que vai beneficiar do novo passe social e, portanto, os acessos de reivindicação proprietária de segunda-feira serão esquecidos na terça-feira.

Acho aliás tão expectável que o Governo e os parceiros da maioria parlamentar (Costa deve deliciar-se ao notar que este é um dos casos em que aquele partido que repete que não há acordos de incidência de maioria parlamentar a reivindica ferozmente) sublinhem o efeito redistributivo da medida, quanto que as direitas se mostrem incomodadas com isso. Caem na armadilha e com uma ingenuidade que mete dó. Sentir o silêncio contrastante de Cristas ou a multi-intervenção de Rio a fazer contas sobre Lisboa contra Bragança deve ser, para o Governo e as esquerdas, um conforto de alma. O PSD exige ao seu líder a energia de se afundar em acusações levianas e que vão contra o que toda a gente percebe da bondade da medida – eis a demonstração quimicamente pura de como a atmosfera das sedes do partido está intoxicada de insensatez. É um guião perfeito, que relembra como o PSD e o CDS se empenhavam em “empobrecer” Portugal, nas palavras do anterior primeiro-ministro Passos Coelho: eles não gostam do que as pessoas beneficiam. A história volta para trás e é isso, que as direitas deviam tentar fazer esquecer a todo o custo, que agora ajudam prestimosamente a relembrar. Se pusessem os olhos em Marques Mendes, o pai da teoria de que o-interior-é-que-está-a-pagar estes passes sociais e que se virou a tempo para elogios ditirâmbicos à medida que antes era tão desigualitária, perceberia como escorregaram na esparrela.

Lembrem-se: o mundo real bate à porta e vai ser no dia a dia que se vai medir o valor da medida. Haverá quem desconfie que faltou ambição e até cuidado na preparação desta mudança tão importante, tão tardia e que parece tão improvisada, com Centeno logo a alegrar a festa com o seu inevitável “não há mais dinheiro”

Mas que o Governo não se engane. Há sempre um choque de realidade. Ao contrário do que parecem pensar os planeadores centrais, os transportes públicos estão mesmo impreparados para um aumento significativo da procura, pelo menos em Lisboa, que conheço melhor. Ora, segunda-feira havia filas imensas nos guichês dos passes sociais, vai mesmo entrar mais gente nos transportes. Os autocarros que apanho para ir trabalhar estão apinhados e raramente cumprem horários. O Metro é uma desgraça, com tempos de espera inadmissíveis e sobrelotação homérica. Houve ligeiras alterações na Carris, é certo, mas no Metro nada, só tem piorado. Esta medida devia ter sido preparada ao longo de um ou dois anos com investimento em equipamento, contratação e formação de mais pessoal e o que foi feito nem chega a meio caminho. Vai haver muita gente a queixar-se e desconfio de que os ministros, lá nos gabinetes, nem se vão aperceber, contentes como estão com os grafismos das reduções de preços que os telejornais repetiram. Mas lembrem-se: o mundo real bate à porta e vai ser no dia a dia que se vai medir o valor da medida. Haverá quem desconfie que faltou ambição e até cuidado na preparação desta mudança tão importante, tão tardia e que parece tão improvisada, com Centeno logo a alegrar a festa com o seu inevitável “não há mais dinheiro”.

Dir-se-á, à boca pequena, que isto é tudo “português suave” e que estamos condenados a esta sina de nos irmos adaptando. Feroz engano, é demasiado arriscado deixar andar ou prometer e cumprir pouco de uma mudança deste calibre no quotidiano de tanta gente que se enfia nos autocarros e metros a abarrotar e que vai todos os dias para um trabalho pesado, para voltar ao fim do dia a casa, depois de tantas horas de labuta.

Uma coisa é certa: a vida quotidiana das grandes cidades entre transportes e habitação, entre cultura e trotinetes, entrou mesmo na agenda política. Não vai sair tão depressa e só se vai radicalizar. Ainda bem, a revolução urbana só está a começar e já veremos quem é capaz de a puxar para melhorar a vida de milhões de pessoas.

Quando Seixas da Costa, o embaixador pistoleiro, andava aos tiros a jornalistas

Novo artigo em Aventar


por Ricardo Ferreira Pinto


Depois de ter chamado javardo a Sérgio Conceição, aos portistas e aos sportinguistas apoiantes de Bruno de Carvalho, o embaixador Seixas da Costa veio admitir que provavelmente não escolhera bem as palavras.

É uma constante, de resto, na vida desta personalidade pouco diplomática: a má escolha das palavras e das acções.

Que o diga o jornalista Simões Ilharco, que em 1975 levou um tiro. Seixas da Costa deixou-o entre a vida e a morte.

Muita sorte teve Sérgio Conceição. Desta vez, o embaixador pistoleiro ficou-se pelas ofensas verbais.

Pouco certeiro no tiro a Ilharco, que ainda assim escapou, Seixas da Costa foi bem mais certeiro nos seus disparos politicos. Com um único tiro junto do ICOMOS, assassinou a Linha do Tua em nome de uma barragem que interessava a muita gente.

Interessava ao Governo PS, que em 2017 o nomeou para o Conselho Geral da RTP. Interessava à construtora Mota-Engil, que o convidou para administrador da empresa. Interessava à EDP, que também o convidou para seu administrador.

É hoje tudo isso e ainda administrador da Jeronimo Martins e opinador em tudo o que é sítio.

Não há almoços grátis e Seixas da Costa sabe-o melhor do que ninguém. Ele e a generalidade do PS, que neste tipo de promiscuidades consegue ser ainda pior do que o PSD.

Os outros? Os outros são uns javardos.

A arte de destruir a Linha do Douro

02/04/2019 by Autor Convidado

miradouro
[Luís Almeida]

Ao longo dos anos, os pseudo ferroviários que administram e definem politicamente as orientações do setor tem-se revelado muito criativos na “arte” de destruir a oferta comercial de linhas ferroviárias um pouco por todo o país.
E quando se pensa que já se viu de tudo, percebe-se que a imaginação não tem limites.
Em 2016, os operadores fluviais do Douro deixam de usar o comboio por falta de fiabilidade e condições de conforto da oferta ferroviária. São os parâmetros mínimos de um transporte ferroviário de sucesso. Estima-se que 30 mil passageiros passaram do comboio para os autocarros.

Em 2017, a CP reage, por pressão dos operadores interessados em vender um produto no Douro que tenha… Douro! Assina-se pomposamente um protocolo em Janeiro e um novo comboio, exclusivo para operadores, começa a circular em Maio. Os mesmos operadores exigem que o mesmo se prolongue até ao Pocinho, a CP não acede mas percebendo finalmente a importância dessa parcela de turismo e a reboque de tudo o que há décadas se faz na Europa em matéria de turismo ferroviário e que se traduz em relevantes receitas para as empresas, lança o Miradouro até ao Tua.

O MiraDouro tinha tudo para ter sucesso: não tem climatização mas tem janelas amplas que permitem o debruçar sobre o vale. Não tem suspensão dupla mas tem o conforto suíço dos amplos salões e espaços tão característicos das carruagens Schindler. Não tem a modernidade dos dias que correm mas tem o suspense, a magia, a mística e a história nos rodados que já percorrem vários milhões de quilómetros.

Então porque razão o Miradouro não funcionou? A resposta é simples: a CP não quis que funcionasse:

  1. No primeiro ano de atividade (2017), o MiraDouro ia até ao Tua. A viagem no sentido Porto/Tua tinha uma marcha relativamente normal. Em sentido contrário, o comboio saía tardíssimo do Tua e tinha um tempo de espera superior a 1h na estação da Régua antes de seguir viagem.
  1. Na estação de Valongo tinha uma paragem técnica de mais 20 minutos para ser “ultrapassado” por um suburbano.
  1. Em 2018 é suprimida a viagem entre a Régua e o Tua, alegando que o comboio não trazia passageiros no regresso. Ora, a menos que os passageiros se “afogassem na barragem” e uma vez que não há oferta rodoviária e que não foram reportados desaparecimentos massivos de pessoas na região, há uma forte probabilidade das pessoas regressarem em comboios com horários mais adequados e marchas mais rápidas do que a do Miradouro no sentido Tua/Porto.
  1. A CP não perdia clientes, simplesmente os clientes procuravam outro horário de regresso, mas ainda assim foi este o argumento utilizado. No final de contas, deixou de haver passageiros em qualquer um dos sentidos.
  1. Ter um comboio para vender uma viagem junto ao rio e dar essa experiencia apenas nos 30 minutos que vão entre o Mosteirô e a Régua sendo que a região demarcada do Douro começa apenas na estação de Barqueiros (pouco mais de 15 minutos antes da Régua) pode também não ser a oferta mais apelativa.
  1. A falta de passageiros… bem, sobre isso não vou dizer nada, porque apesar de tudo, é só dar uma volta pelas redes sociais onde ontem caíram dezenas de fotos que comprovam a “falta de passageiros” no comboio.
  1. Já para não falar do absurdo argumento técnico de que as “camelas” (UTD série 59x) que alugamos obscenamente a Espanha por 5 a 7 milhões de euros/ano são “mais económicas” com os seus 5 motores dos anos 80 a queimar gasóleo e geram mais valor do que 6 a 7 carruagens Schindler traccionadas pelas mais económicas locomotivas diesel (série 14xx) que alguma vez tivemos em Portugal (se assim for, se calhar a CP deveria estar a exigir a eletrificação e não a trocar o parque diesel).

E como parece que isto não vai ficar por aqui, hoje sabe-se que o comboio a vapor vai reduzir para metade as viagens depois de anos sucessivamente a crescer. Estamos “ansiosos” para saber com que mais criatividade nos vão brindar os pseudo-ferroviários que estão a destruir um património que é de todos e uma mais valia evidente para uma empresa que precisa desesperadamente de equilíbrio orçamental… mas também de chegar ao século XXI.

Ladrões de Bicicletas


Memória de mais uma entrevista

Posted: 02 Apr 2019 12:09 AM PDT

Depois de António Costa, Teresa de Sousa entrevistou Marcelo Rebelo de Sousa. A entrevistadora e o entrevistado são, uma vez mais, a expressão do europeísmo em crise. Dado que Marcelo Rebelo de Sousa borboleteia sobre muitos temas, pousando rapidamente numa ou noutra ideia convencional, basta sublinhar meia dúzia de coisas de forma igualmente rápida.
Em primeiro lugar, uma das preocupações do Presidente da República de Portugal é que daqui a uns anos não haja qualquer potência europeia no G-7, o que diz obviamente tudo sobre a confusão entre os interesses do centro europeu e os interesses específicos desta periferia num mundo felizmente mais multipolar.
Em segundo lugar, reconhece que a integração europeia não tem outra potência hegemónica que não seja a alemã – “o eixo Berlim-Berlim”, como apoda certeiramente, embora suspire pela liderança de Merkel. Entretanto, a política externa alemã resume-se por aqui ao objectivo de manter trancados muitos países europeus numa prisão monetária. Porque será?
Em terceiro lugar, fingindo subestimar a lógica política e das políticas inscrita nas regras da União Europeia, em geral, e da Zona Euro, em particular, fala de um “projecto de valores” e da sua “pedagogia”, sem se atrever, no entanto, a elaborar. Na realidade, os “valores” já existem e são os da concorrência de mercado sem fim. Marcelo substitui o antagonismo político por uma versão aparentemente afectuosa de paternalismo.
Em quarto lugar, fala do espectro dos populismos e do colapso do chamado extremo-centro, convocando um dos seus grandes pensadores, popular à direita e entre certa esquerda – o comissário Carlos Moedas –, quando este defende que o problema são “os medos”. O problema, na realidade, é que gente como este antigo e talvez futuro quadro da Goldman Sachs tem ainda nulas razões para ter medo.
Em quinto lugar, o balanço do triunfo institucional do bloco central europeu, que Marcelo tão bem encarna e que tão afanosamente tenta manter por cá, não é reconhecidamente o melhor: “Temos uma Europa com mais clivagens, mais divisões, com lideranças mais fracas, com novos problemas e velhas questões sociais”.
Finalmente, vem a solução: “A Europa continua a ser fundamental para Portugal”. A geografia não é destino político, claro. Em Marcelo, tudo é aparência; até a falta de ideias.

O elogio da troika onde não era suposto

Posted: 01 Apr 2019 11:16 AM PDT

Acabei de ler neste documento do governo que a economia portuguesa continua a ter constrangimentos à melhoria da produtividade, “apesar de algum progresso verificado nos anos mais recentes, na sequência de um conjunto de reformas implementadas no âmbito do Programa de Assistência Económica e Financeira”.
Li o documento todo à procura de dados ou estudos que apresentassem evidências claras da relação entre as "reformas" adoptadas no tempo da troika e o desempenho económico actual. Não encontrei.
Compreende-se que as instituições da troika e os membros e apoiantes do governo anterior insistam na ideia mítica de que a política de austeridade e a desestruturação das regras laborais são responsáveis pelo actual desempenho da economia portuguesa. É a forma de tentarem legitimar o que andaram a fazer ao país.
Que essa tese seja subscrita por um organismo conjunto do Ministério das Finanças e do Ministério da Economia do actual governo - ainda por cima iludindo o facto de muitas das reformas referidas (na educação, na modernização administrativa, na segurança social, na inovação, etc.) terem sido introduzidas antes da troika - não compreendo.
Este 1º Relatório do Conselho para a Produtividade é um documento estranho. Alterna passagens de análise económica rigorosa e sofisticada, com passagens que não são mais do que puro preconceito. Não deixa de ser uma boa iniciativa. Só espero que a segunda edição aprofunde o que é bom e deixe cair o resto.