Divagar e Conversar

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domingo, 2 de julho de 2017

Senhor eucalipto



por estatuadesal
(Francisco Louçã, in Público, 30/06/2017)
jose_manuel_fernandes

Assistir ao espetáculo de um adulto a comportar-se como um garoto cria uma certa vergonha alheia. Quando se trata de um debate importante para a comunidade, essa vergonha alheia transforma-se em pena. Tenho por isso pena do Dr. José Manuel Fernandes.
O Dr. Fernandes, que tem pergaminhos na imprensa – eu conheci-o na Voz do Povo, depois no Expresso e depois director do Público – capitaneia agora um projecto de agit-prop, o Observador, e nele entendeu que o incêndio de Pedrógão Grande seria a oportunidade de sacudir o país com uma intestina vaga de indignação. Se quem lê estas linhas deita os olhos a essa publicação online, já conhece o estilo da casa: Portugal é sempre uma crise alucinante, um governo trágico, um primeiro-ministro criminoso, tudo uma pepineira, pelo menos desde que Passos Coelho perdeu a maioria nas eleições. Portanto, nada de novo: na opinião da sempre fogosa brigada neoconservadora do Observador, este incêndio é só mais um fogo que arde para se ver, queime-se o governo e salvem-se os eucaliptos.
A querela é esta: os eucaliptos são ou não perigosos para a nossa floresta? Vejamos os factos. Diz o INE que Portugal tem 23% da sua área florestal entregue aos eucaliptos, ou cerca de 760 mil hectares. Só quatro países do mundo têm mais eucaliptal em termos absolutos do que Portugal: a China (mas é 104 vezes maior do que Portugal), o Brasil (92 vezes), a Austrália (83 vezes) e a Índia (36 vezes). Em termos relativos, nenhum país no mundo tem a superfície de eucaliptos de Portugal. Aos que me respondem com o argumento de “dá dinheiro”, pergunto só por que é que a Alemanha ou a Espanha não correm para este El Dorado. A resposta é que é perigoso, não é que os empresários alemães ou espanhóis sejam estúpidos. Sim, o nosso desordenamento florestal é grave, o abandono rural gravíssimo – mas é um desordenamento que promove os eucaliptos (77% do investimento na floresta em 2015 foi para eucaliptos), que são perigosamente combustíveis, sobretudo se plantados como o estão a ser. Portanto, mais vale travar a fundo e salvar a floresta deste negócio pirómano.
Mas o Dr. Fernandes não quer conversar. Quer bombardear. Por isso, ao teorizar sobre as razões para estarmos gratos aos eucaliptos, o Dr. Fernandes sente a necessidade de nos explicar, sobriamente, que não é um “miserável avençado das empresas de celulose”, do que não tenho dúvida. Mas, vai daí, acha-se obrigado a tratar os pontos de vista contrários como prova de “ignorância” (e repete “ignorantes”), “obsessão”, “arrogância”, “preconceito” e “confusão” de “cabeças conspirativas” (sic). Quem dele discorda, supremo atrevimento, são os “bota-faladura” (sic) (agradeço por isso que ele me inclua nesta lista como “sumo sacerdote”, o que pensariam os meus amigos se ele me esquecesse). Ler um texto de alguém que assina como jornalista e tão cheio de classificações insultuosas é confrangedor. O homem não se lembra de nada de quando foi director de um jornal de referência?
Mas ainda estava só a começar. Vem aí o melhor. São as “carinhas larocas” (sic) que o tiram do sério: “Quando a Catarina ou uma das manas Mortágua investe contra a chamada eucaliptolândia, os jornalistas que seguram os microfones quase acenam com as cabeças e depressa se esquecem de confrontar a sua doçura de hoje (quando morreram 64 pessoas num incêndio florestal) com a lendária agressividade dos tempos em que até as suas unhas encravadas eram culpa de Passos Coelho”.
O homem não gosta de ninguém, sobram os eucaliptos. Nem “da Catarina” nem das “manas Mortágua”, cuja “doçura” vitupera, pois contrasta com a sua “lendária agressividade” a respeito das “unhas encravadas”, nem dos jornalistas que, patetas, “acenam com a cabeça”. Se já chegou às “unhas encravadas”, não devemos mesmo ter pena do Dr. Fernandes?