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terça-feira, 11 de abril de 2017

O golpe de força é um golpe de mestre ou apenas bluff?

A opinião de

Francisco Sena Santos
Francisco Sena Santos

A barbaridade em Khan Sheikoun tem tudo para nos revoltar. Quando vemos as imagens daquelas crianças, daquela gente de todas as idades, a morrer em asfixia pelo gás tóxico, saímos da rotina do desfile de imagens de guerra que, pelo efeito de repetição, quase desarma a nossa sensibilidade. A utilização de armas químicas mortais, como ficou evidente ter acontecido na semana passada na Síria, tudo indica que por acção da aviação do regime de Damasco, é um crime de guerra e um ataque à humanidade. É mais uma atrocidade na crueldade infinita, com vários autores, nesta guerra que já levou, em seis anos, umas 400 mil vidas e que gerou milhões de refugiados. A retaliação de Trump, enviada em 59 mísseis Tomahawk, gera uma primeira impressão de castigo merecido, algo de vitória moral sobre o regime brutal do insustentável Assad. Mas a eficácia da acção afigura-se inconsequente, a não ser no espectáculo e na propaganda de Trump. Em contrapartida, do ponto de vista estratégico de procura da paz, estes mísseis podem fazer disparar os riscos de escalada. Rússia e Irão já avisaram que responderão com contundência se houver novo episódio.
Os factos destes dias encaixam em cheio no que Zygmunt Bauman, sábio a dar-nos a entender o que acontece à nossa volta, definiu para o tempo actual como sociedade líquida: uma realidade em que todas as metas mudam a cada momento. Resulta uma sociedade imprevisível, desconcertante, onde o que é passageiro se impõe ao que é estável.
Trump, em toda a campanha eleitoral e nas primeiras semanas da sua presidência, repetiu que a sua América não se meteria no tema da Síria e que a prioridade externa é a de derrotar o inimigo comum, o terrorismo do califado Islâmico. Trump virou costas aos sírios e anunciou-nos uma América isolacionista, a ligar pouco ao resto do mundo.
No tempo de Obama, Trump tinha argumentado contra a hipótese de resposta militar americana a um igualmente chocante bombardeamento químico pelos caças de Assad. Então, Trump recomendou a Obama que guardasse a pólvora. Como interpretar esta mudança abrupta ao lançar fogo Assad que combate o terrorismo do Estado islâmico? Trump impulsivo? Ou um Trump a mudar de perfil, a tentar encaixar na prioridade “America First” (em que tem sofrido revezes) o velho papel de xerife do mundo, uma espécie de “America is back”? Há uma estratégia consistente para promover a paz?
O tempo tem mostrado que Trump tem apurado sentido da oportunidade. O horror global pelo ataque químico na Síria ofereceu-lhe uma ocasião mesmo a calhar. Num momento de popularidade interna em quebra e de alta da impopularidade externa, Trump, com esta cascata de mísseis, conseguiu elogios de opositores democratas nos EUA e de dirigentes europeus que lhe recusavam benevolência. Colocou-se como homem de acção, recuperou a confiança de alguns eleitores desiludidos e deve ter entusiasmado os falcões e o lóbi das guerras ao mostrar que a América continua a usar o bastão.
Com o golpe de força através dos mísseis lançados à distância sobre uma base principal de Assad, Trump, para além da propaganda, também pode estar a enviar mensagens para vários destinatários. Deixou no ar a possibilidade de acção semelhante contra um outro sinistro déspota, o norte coreano Kim, que se supõe beneficiar de tolerância da China, cujo presidente jantou nessa mesma noite com Trump. É plausível que tenha pretendido dizer a Pequim que tem de fazer parar os planos nucleares da Coreia do Norte, ou entram em acção os mísseis americanos.
Também terá passado uma mensagem aos que acusam de demasiada proximidade com Putin, precisamente quando avança nos EUA a investigação sobre o envolvimento suspeito de gente do staff de Trump com o aparelho de Putin no Kremlin. Trump mostrou indirectamente os músculos a Putin, em vésperas de uma cimeira diplomática em Moscovo entre a Rússia e os EUA. Significará que Trump sai do proclamado isolacionismo e adere à negociação diplomática?
Alguma esperança? O que está em causa na Síria não é uma guerra civil. É uma guerra global, jogada por representantes. De um lado, à cabeça, os dos Estados Unidos, da Turquia e da Arábia Saudita. Do outro, os da Rússia e do Irão. Está em causa a hegemonia numa região estratégica no equilíbrio geopolítico global. É uma guerra com muitas guerras dentro e em que não há bons, são todos maus. Sobram as tantas vítimas.
A Nobel da Literatura Svetlana Aleksievic lastimava outro dia que Trump seja uma catástrofe semelhante a Putin. Svetlana lamenta que a Rússia tenha perdido um certo romantismo, ainda que ingénuo, que avançou no tempo de Gorbachov. Hoje há pouco espaço para ilusões.
É de admitir o benefício da dúvida a Trump com este seu golpe de força na Síria. Pode vir a revelar-se um golpe de mestre. À partida, parece mais um bluff para a propaganda. Sendo que a imprevisibilidade é perigosa em tempo de conflitos muito complexos. A frota naval americana a abeirar-se do mar da Coreia levanta inquietações.
 
Ovar, 11 de Abril de 2017
Álvaro Teixeira

Síria: Fissão Tóxica (estatuadesal)

 

(Por Pepe Escobar, in Brasil247, 07/04/017)
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"Esses atos odiosos do regime Assad não podem ser tolerados." Assim falou o presidente dos EUA. Tradução instantânea: Donald Trump – e/ou toda a sopa de letras das agências de inteligência dos EUA, sem qualquer investigação detalhada –, estão convencidos de que o Ministério de Defesa da Rússia está simplesmente mentindo.
É acusação gravíssima. O porta-voz do Ministério da Defesa da Rússia, major-general Igor Konashenkov, reforçando que se tratava de informação "absolutamente objetiva e verificada",  identificou  um ataque da Força Aérea Síria lançado contra um depósito "rebelde moderado" a leste da cidade de Khan Sheikhoun usado pelos rebeldes para produzir e estocar ogivas carregadas com gás tóxico.  Konashenkov acrescentou que os mesmos produtos químicos foram usados pelos "rebeldes" em Aleppo no final do ano passado, conforme amostras recolhidas por especialistas militares russos.
Pois mesmo assim Trump sentiu-se compelido a telegrafar a linha que, hoje, virou sua pessoal linha vermelha na Síria: "Militarmente, não gosto de dizer quando e o que faço. Não estou dizendo que não farei coisa alguma de um modo ou de outro, e com certeza não diria a vocês (à mídia.)"
Por seu lado no gramado da Casa Branca, o patético reizinho de Playstation da Jordânia elogiava a "abordagem realista [de Trump] para os desafios na região."
Poderia passar por sketch de Monty Python. Desgraçadamente é de verdade.
O que está em jogo em Idlib.  Histeria à solta – mais uma vez –, a opinião pública ocidental esquece convenientemente que as armas químicas que Damasco declaradamente  possuía foram destruídas  faz tempo, em 2014, a bordo de um navio dos EUA, sob supervisão da ONU.
E a opinião pública ocidental convenientemente esqueceu que antes que Barack Obama transpassasse teoricamente a linha vermelha das armas químicas, um relatório secreto da inteligência dos EUA  já deixara bem claro que Jabhat [Frente] al-Nusra, codinome: al-Qaeda na Síria, já dominava todo o ciclo de produção e emprego do gás sarín e era capaz de produzi-lo em quantidade.
Para nem dizer que o governo Obama e seus aliados Turquia, Arábia Saudita e Qatar firmaram um pacto secreto em 2012 para lançar um ataque com gás sarín e culpar Damasco, criando o cenário indispensável para um replay da operação "Choque e Pavor". O dinheiro necessário para o projeto veio da conexão OTAN-CCG combinada a uma conexão CIA -MI6 também conhecida como linha de rato, para transferir todos os tipos de armas, da Líbia para jihadistas-salafistas na Síria.
Assim sendo pois, aquelas armas tóxicas que "desapareceram" – em massa – dos arsenais de Gaddafi em 2011 terminaram por ser 'um upgrade' para a al-Qaeda na Síria (não para o Estado Islâmico/Daech), rebatizado como Jabhat [Frente] Fatah al-Sham e amplamente descrita em toda a Av. Beltway do Departamento de Estado dos EUA, como "rebelde moderada".
Encurralados na província Idlib, esses "rebeldes" são hoje o principal  alvo do Exército Árabe Sírio (EAS) e da Força Aérea Russa. Damasco e Moscou, diferentes de Washington, estão empenhadas em esmagar toda a galáxia jihadi-salafista, não exclusivamente o Daech. Se o Exército Árabe Sírio continua a avançar, e se esses "rebeldes" perdem Idlib, é fim de jogo.
Assim sendo, a ofensiva de Damasco tinha de ser impedida, custasse o que custasse, e bem à vista de toda a opinião pública global.
Mesmo assim, absolutamente não faz sentido que apenas dois dias antes de nova conferência internacional sobre a Síria, e imediatamente depois de a Casa Branca ter sido forçada a admitir que "cabe ao povo sírio escolher o próprio destino" e que ninguém mais falaria de "Assad tem de sair", Damasco lançaria um ataque com gás tóxico que absolutamente   contrário a todos os seus próprios interesses e antagonizaria todo do universo OTAN.
A coisa aí anda – e fala – mais como o velho tsunami de mentiras que anunciou o início da operação Choque e Pavor em 2003, e com certeza anda e fala como alguma mesma velha campanha da "al-CIAda" returbinada. A [Frente] Jabhat al-Nusra nunca deixou de ser a garotinha da CIA, no cenário preferencial de mudança de regime sírio.
As crianças de vocês não são suficientemente tóxicas A embaixadora de Trump à ONU, quadro da Heritage Foundation, Nikki Haley, girou como neomíssil embriagado, como se poderia prever, monopolizando todo o ciclo ocidental de noticiosos de TV. Apagado, também previsivelmente, foi o vice-embaixador da Rússia à ONU Vladimir Safronkov, que reduziu a pó de traque a "obsessão do ocidente com mudar o regime" na Síria, que é o que sempre emperra esse Conselho de Segurança".
Safronkov repetiu que o chamado 'ataque químico em Idlib estava baseado em "relatórios falsificados dos Capacetes Brancos" – organização "há muito tempo desacreditada". Pura verdade. Mas agora os Capacetes Brancos até já ganharam um Óscar , e essa medalha de honra da cultura pop   os torna inacusáveis – para nem dizer que os imuniza contra os efeitos do gás sarín.
Inventem Trump e o Pentágono o que quiserem, analista independente da inteligência dos EUA, avesso a pensar corporativamente é bem claro: "Ataque aéreo contra a Síria, só se for coordenado com a Rússia, e a  Rússia não permitirá ataques aéreos contra Assad. A Rússia tem os mísseis de defesa bem ali e pode bloquear o ataque. Terão de negociar.  Não haverá ataque, porque qualquer ataque pode precipitar uma guerra nuclear."
As "crianças sírias" mortas são agora peões de jogo muito maior, muito mais perverso. O governo dos EUA pode ter assassinado um milhão de homens, mulheres e crianças no Iraque – sem qualquer 'indignação' manifesta entre as "elites" em todo o espectro OTAN. Há uma criminosa de guerra ainda à solta, que admite diante das câmeras   que o assassinato direta e indiretamente de 500 mil crianças iraquianas foi "justificado".
Por seu lado, Barack [Nobel da Paz] Obama instrumentalizou a Casa de Saud para que pagasse – e armasse – coisa como 40 grupamentos "selecionados" pela CIA na Síria. Vários desses grupamentos já estavam fundidos, ou haviam já sido absorvidos pela Jabhat [Frente] al-Nusra, atualmente Jabhat [Frente] Fatah al-Sham. E todos eles dedicados aos seus próprios massacres de civis.
Enquanto isso, o Reino Unido segue alegremente armando  a Casa de Saud, em sua empenhada luta para reduzir o Iêmen a uma vasta terra devorada pela fome, semeada de "danos colaterais" em seus túmulos. Ninguém no espectro da OTAN chora por aquelas crianças iemenitas mortas.
São crianças mortas pouco tóxicas.
 
Ovar, 11 de Abril de 2017
Álvaro Teixeira