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terça-feira, 26 de dezembro de 2017

A maior tragédia de Mariano Rajoy

As eleições expulsam o presidente da Catalunha e expõem-no à maré de laranja
RUBÉN AMÓN
Barcelona 22 de dezembro de 2017 - 12:37 CET

GRAF5688. LAS ROZAS (MADRID), 20/12 / 2017.- O Presidente do Governo e o Partido Popular, Mariano Rajoy, durante o jantar de Natal do PP de Madri realizou hoje à noite em Las Rozas. EFE / MARISCAL MARISCAL EFE
Mariano Rajoy experimentou no surgimento de 21-D a maior derrota de sua carreira política. E ele não pode se esconder atrás de Garcia Albiol apesar do tamanho extra do candidato popular. A linguagem de seu colega tem sido uma vítima sacrificial, um fusível, o último centinela de uma estratégia imprudente. Muito negligenciado, subestimado, Rajoy Plaça de Catalunya na expectativa compensatória do voto nacional - uma assimetria perversa - que acabou incorrendo em uma negligência capitalista de estadista.

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A vitória dos cidadãos não impede a maioria separatista
O preço consiste em ter desaparecido da Catalunha, tendo sido restrito a uma formação marginal, razões suficientes para evocar os tempos fabulosos de Alicia Sánchez Camacho -19 deputados nas eleições de 2012 e perguntar se uma amputação política e territorial pode ser concedida ao líder da primeiro partido nacional e presidente do governo.

Não por causa da escala econômica e demográfica da Catalunha, ou por causa da experiência humilhante de ter sido expulso como uma epidemia, mas também porque a força dos Cidadãos predispõe a um novo equilíbrio da política nacional na franquia liberal-conservadora. Rajoy perdeu tudo na Catalunha. E está exposto no resto da Espanha à insolência da maré de laranja.

O predicado "popular" do PP parece ser um sarcasmo na frente da Catalunha. Satiriza a dimensão cada vez menor de um líder que incorporou sua antiga fama de Beelzebub - os recursos para o Estatuto - a aplicação de 155 e a gestão catastrófica de 1 de outubro. Rajoy fez bem em restaurar a ordem constitucional e para exortar as eleições de 21-D, mas a incompetência do governo no pucherazo indepe comportou o contrapeso de uma punição severa.

Rajoy não é perdoado pelo uso da força, mas acima de tudo ele não deveria ter sido perdoado pela reputação internacional que ele deu à propaganda separatista. Ele capitulou o Estado em 1 de outubro. Ele concedeu uma enorme sensação de desamparo. O CNI fez um tolo de si mesmo. Soraya Sáenz de Santamaría fez isso novamente há alguns dias, quando atribuiu a Rajoy o mérito de ter decapitado os líderes soberanos, varrendo os escrúpulos da separação de poderes.

Mariano Rajoy não é apenas o presidente de uma festa. Ele é o chefe do Governo da Espanha. Obrigação suficiente para subtraí-lo da frivolidade partidária. E para contrastá-lo com o exercício de uma visão preclare do Estado, além do eleitorismo. Ele nunca soube como oferecer um discurso à Catalunha. E a Catalunha terminou evacuando a semelhança de um corpo estranho.

A fraqueza surpreende Rajoy no momento mais sério de sua carreira. Sua interlocução no 21-D foi desautorizada. Os catalães o enviaram para o exílio. E ocupa uma posição de incerteza alarmante, até o ponto de considerar a conveniência de um avanço eleitoral.

Porque estas não eram exclusivamente eleições catalãs. O afundamento do PP é adicionado à falha do Podemos. E a melhoria irrelevante do PSC neutraliza o discurso canchero que Pedro Sánchez já havia preparado, de tal forma que apenas Ciudadanos adquire legitimidade para estimular o cenário político, ultrapassando até mesmo a dependência anterior de seu líder.

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Entre as brumas da memória


Espanha: não há rei para tanto país

Posted: 25 Dec 2017 12:09 PM PST

Mais um discurso de um rei tão desastroso que talvez venha a ajudar Espanha a tornar-se uma República mais depressa do que previsível.

«Hoy, el rey Felipe ha intentado entrar en muchas casas asegurando que “hay que reconocer que no todo han sido aciertos; que persisten situaciones difíciles que hay que corregir, y que requieren de un compromiso de toda la sociedad para superarlas". ¿Qué "sociedad", se preguntarán muchos/as españoles? ¿La que Su Majestad protegía el 3 de octubre? ¿Esa mayoría silenciosa que resultó ser un engaño electoral? ¿La que eligió y reeligió la opción independentista en Catalunya? ¿La que contempló horrorizada, desde Lugo a Málaga, las cargas del 1-O y el encarcelamiento sin sentencia y sin consenso jurídico de líderes políticos con su bendición?»

Daqui – a ler na íntegra.
.

A gente põe-se a pensar e pergunta

Posted: 25 Dec 2017 06:30 AM PST

«O sucesso, dizem-nos, é o reconhecimento do “milagre português” pelo Eurogrupo. Ora, a gente põe-se a pensar e pergunta: uma centésima dos juros da dívida cujo pagamento não questionamos para não aborrecer o Eurogrupo não teria evitado que a linha da CP que transportava os nossos familiares lá para a terra tivesse sido desmantelada?


Não, não há dois países. O abandono interno e o sucesso europeu são o mesmo país. Por isso, o abandono não será erradicado se não combatermos as regras do sucesso que o geram. Na verdade, que sucesso é este que te põe de bem com outros e de mal contigo?»

José Manuel Pureza
.

Dia de era bom

Posted: 25 Dec 2017 04:23 AM PST


DIA DE NATAL
Hoje é o dia de era bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.
É dia de pensar nos outros- coitadinhos- nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.
Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
Entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.
De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)
Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.
Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.
Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.
A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra- louvado seja o Senhor!- o que nunca tinha pensado comprado.
Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.
Cada menino
abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora
já está desperta.
De manhãzinha,
salta da cama,
corre à cozinha
mesmo em pijama.
Ah!!!!!!!!!!
Na branda macieza
da matutina luz
aguarda-o a surpresa
do Menino Jesus.
Jesus
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.
Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
Tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.
Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.
Dia de Confraternização Universal,
Dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.
António Gedeão


Espanha: não há rei para tanto país

Posted: 25 Dec 2017 12:09 PM PST

Mais um discurso de um rei tão desastroso que talvez venha a ajudar Espanha a tornar-se uma República mais depressa do que previsível.

«Hoy, el rey Felipe ha intentado entrar en muchas casas asegurando que “hay que reconocer que no todo han sido aciertos; que persisten situaciones difíciles que hay que corregir, y que requieren de un compromiso de toda la sociedad para superarlas". ¿Qué "sociedad", se preguntarán muchos/as españoles? ¿La que Su Majestad protegía el 3 de octubre? ¿Esa mayoría silenciosa que resultó ser un engaño electoral? ¿La que eligió y reeligió la opción independentista en Catalunya? ¿La que contempló horrorizada, desde Lugo a Málaga, las cargas del 1-O y el encarcelamiento sin sentencia y sin consenso jurídico de líderes políticos con su bendición?»

Daqui – a ler na íntegra.
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A gente põe-se a pensar e pergunta

Posted: 25 Dec 2017 06:30 AM PST

«O sucesso, dizem-nos, é o reconhecimento do “milagre português” pelo Eurogrupo. Ora, a gente põe-se a pensar e pergunta: uma centésima dos juros da dívida cujo pagamento não questionamos para não aborrecer o Eurogrupo não teria evitado que a linha da CP que transportava os nossos familiares lá para a terra tivesse sido desmantelada?


Não, não há dois países. O abandono interno e o sucesso europeu são o mesmo país. Por isso, o abandono não será erradicado se não combatermos as regras do sucesso que o geram. Na verdade, que sucesso é este que te põe de bem com outros e de mal contigo?»

José Manuel Pureza
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Dia de era bom

Posted: 25 Dec 2017 04:23 AM PST


DIA DE NATAL
Hoje é o dia de era bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.
É dia de pensar nos outros- coitadinhos- nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.
Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
Entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.
De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)
Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.
Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.
Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.
A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra- louvado seja o Senhor!- o que nunca tinha pensado comprado.
Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.
Cada menino
abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora
já está desperta.
De manhãzinha,
salta da cama,
corre à cozinha
mesmo em pijama.
Ah!!!!!!!!!!
Na branda macieza
da matutina luz
aguarda-o a surpresa
do Menino Jesus.
Jesus
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.
Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
Tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.
Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.
Dia de Confraternização Universal,
Dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.
António Gedeão

Os incêndios e a chantagem sobre o Governo

por estatuadesal

(Por Carlos Esperança, in Facebook, 25/12/2017)

marcelo_pedro

Ninguém é insensível à dor e ao luto dos que perderam os entes queridos, no inferno dos fogos, e os haveres na voragem das chamas, mas há abutres que continuam atraídos pelo odor dos cadáveres e exploração dos sentimentos, sem respeito pelos defuntos.

Curiosamente, ninguém pergunta aos autarcas o que fizeram para prevenir incêndios e o que falhou nos planos de proteção civil, que lhes cabia elaborar e executar; ignora-se a EDP, cujos fios de alta tensão atearam fogos; esquecem-se incendiários que a PJ filmou em flagrante; isentam-se os donos das matas das obrigações de limpeza. Há quem ganhe com a desgraça e capitalize danos, enquanto a direita procura incinerar o Governo nos fogos que espevita.

Deixemos repousar os mortos e as famílias fazerem o luto, que as filmagens impedem e a oportunidade de aparecer na televisão, com o PR, dificulta.

É altura de saber por que motivo não há quem peça a um juiz que permita o acesso aos seguros dos que os tinham; se há forma de punir quem, tendo seguro, se candidatou aos subsídios concedidos; se é permitido vender as casas feitas para quem não as habita, e se deviam ser reconstruídas outras, onde os ex-moradores não querem voltar.

O circo mediático e os partidos da direita, ansiosos por acusarem este Governo e inaptos para escrutinarem IPSS de direito canónico, caucionam oportunismos e desonestidades.

Sob o ponto de vista material chegam ecos de que só há beneficiários e de que a pressão mediática levou a construir casas onde apenas havia ruínas, já isentas de IMI, para além de terem – e bem –, sido dotadas de instalações sanitárias as casas que não as tinham.

Na tempestade de afetos, por entre ralis de beijos e gincanas de abraços, a repetição dos itinerários oculta e estimula o oportunismo que medra no húmus da desgraça. O decoro e o pudor deviam moderar as filmagens de missas, viagens e encontros nos locais que a tragédia mediatizou. A dor não deve alimentar vaidades e oportunismos e, muito menos, benefícios indevidos e obscenos.

Ontem, o presidente das CEP relembrou os incêndios, para exumar os cadáveres para a mensagem de Natal. Referiu os corpos carbonizados e esqueceu 13 mortos e 52 feridos esmagados, à saída da procissão, em 15 de agosto, por um carvalho paroquial da igreja do Monte, no Funchal. Omitiu os que se finaram porque Deus foi servido de os chamar, e lembrou os que morreram por incúria do Governo da República.

O PR, que, depois de regressar do Funchal, não consta ter rezado uma só novena pelos mortos da procissão, regressou hoje, em pio necrotropismo, a mais uma missa, a apelar aos portugueses para visitarem as zonas ardidas de Pedrógão.

Ámen.

2 pesos e 2 medidas é que não pode ser, explicações precisam-se…

Novo artigo em Aventar


por António de Almeida

54 mil Euros pagos em 6 prestações a 3 familiares entre 2009 e 2011, por alguém que tem declarados rendimentos de trabalho dependente na ordem dos 200 mil Euros não parece à primeira vista um assunto de grande relevância.
No entanto o caso muda um pouco de figura se considerarmos que envolve Miguel Frasquilho, secretário de Estado no governo do cherne de Durão Barroso, deputado do PSD ao longo de várias legislaturas e actual chairman na TAP.
Adensando um pouco a trama, o dinheiro terá sido transferido pela Espírito Santo Enterprises com origem nas Ilhas Virgens Britânicas, que terá funcionado como saco azul do GES, numa altura em que Miguel Frasquilho desempenhava funções como director na Espírito Santo research.
Bem sei que todos temos direito ao bom nome e existe presunção de inocência, mas não é possível às pessoas próximas do PSD exigirem explicações à mínima suspeita que envolva um dirigente ou destacado militante do PS enquanto assobiam para o lado quando lhes bate à porta algo do género. Por mim que me estou nas tintas para os partidos políticos, todos eles, ide ler o post do Jorge, aguardo por mais explicações, que urgem, até porque me habituei a respeitar Miguel Frasquilho, não posso dizer o mesmo da maioria dos figurões dos mais destacados militantes do PSD. Por agora, tudo isto me parece mal explicado…

saudades do lápis azul

Novo artigo em BLASFÉMIAS


por rui a.

images

Para quem, como eu, acredita nas virtudes da democracia, constituem um autêntico enigma as ultimamente tão invocadas «interferências externas que se registaram em eleições como as dos EUA ou França». Na verdade, de duas três: ou se acredita no bom senso do povo, e acredita-se na democracia, ou admitimos que o bom povo é ingénuo e ignorante, e, então, a democracia torna-se inviável. Tratando-se de países com sociedades desenvolvidas, como terão sido intrujados os cidadãos americanos e franceses? Diabolizando a Sra. Clinton com falsas notícias sobre ela? Exaltando falsas virtudes da Mme. le Pen? Mas não houve também, para contrabalançar, toneladas de notícias caluniosas sobre os demais candidatos a essas eleições? O bom povo não conseguirá distinguir, no meio desse lamaçal plurilateral, o que verdadeiramente lhe interessa  e lhe julga convir? E, ademais, é precisamente para corrigirem os erros que os eleitores podem cometer, ou julgam ter cometido, que existe democracia e existem eleições. Se sábios e homens honestos estivessem sempre no poder, o valor destas seria decrescentemente menor...

Mas é com base nessa, esta sim, verdadeira intrujice, que o «nanny state» em que a União Europeia se tem vindo a transformar quer legislar para intervir na opinião publicada nas redes sociais e na comunicação social tradicional. Para já criaram um grupo de censores, dito doutro modo, «um grupo de peritos de alto nível para a apoiar no combate à desinformação online». O que será semelhante coisa? Onde conseguiram, estes cidadãos, alcançar semelhantes atributos? E por que têm eles que opinar sobre o que os outros cidadãos opinam, mesmo que as suas opiniões se fundamentem em falsidades? E, em política, o que é falso hoje não poderá ser verdadeiro amanhã? Em 2004, por exemplo, quantos militantes e dirigentes do PS não jurariam pela honradez de José Sócrates? Como reagiriam às supostas «fake news» que supostamente o difamavam? E quantos desses continuam a pôr hoje as mãos do fogo pelo seu antigo líder? Como reagiria, a montante, um «grupo de peritos» que tivesse de tomar decisões sobre essas notícias?

O velho «lápis azul» tem sempre mil e uma «boas» razões para existir. Da preservação da moralidade à segurança colectiva, não faltam pretextos. Invariavelmente alegados por quem o tem nas mãos.

mw-320