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segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Imobiliária Cacique

por João Mendes

Fotografia: Rui Duarte Silva@Expresso

Paulo Morais, antigo vereador de Rui Rio e candidato presidencial, defendeu recentemente, num artigo publicado no jornal Público, que as directas do PSD deviam ser invalidadas por estarem viciadas:

O novo presidente do PSD será escolhido por dois tipos de militantes: os genuínos, que aderiram livremente ao PSD e se preocupam com o seu destino; e um imenso grupo de milhares de cidadãos que foram artificialmente inscritos no PSD por caciques. Estes, de forma organizada e sistemática, pagam convenientemente as quotas e controlam as listas como quem tutela um rebanho. No dia das eleições, em grupo, em manada, milhares serão transportados em carrinhas e camionetas até às sedes, votando em Rio ou Santana, dependendo de quem os arrebanhou. Esta prática ilegítima, que envergonha a democracia, assenta numa ilegalidade maior e que só é possível através da violação da informação confidencial dos dados dos militantes constantes da base de dados do PSD.

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Ladrões de Bicicletas


Tudo na ordem

Posted: 15 Jan 2018 02:19 AM PST

Enquanto privatiza o que há para privatizar e aplica o resto do pacote austeritário da troika, Euclid Tsakalotos, formalmente Ministro das Finanças grego, tem obviamente tempo para participar no chamado debate, desta feita no Financial Times, sobre a arquitectura da Zona Euro, tomando de forma sempre ideologicamente reveladora os EUA como referência para “completar a zona euro e banir o espectro do populismo”. É claro que o modelo de transferências não impediu os populismos, sempre no plural, não se esqueçam, nos fracturados EUA.
Enfim, assim se confirma a total cooptação do que foi na Grécia a esquerda dita radical, uma lição, enquanto se espera por um não-lugar indesejável (a distopia dos Estados Unidos da Europa). Por estas e por outras, tenho insistido que o europeísmo é um dos principais mecanismos de destruição da esquerda social-democrata no continente. É um mecanismo eficaz, como se vê também no centro que na realidade comanda qualquer processo europeu, a Alemanha, onde o processo de resto já tem décadas e onde as duas alas do cada vez menos dominante partido exportador chegaram a mais um acordo de governo.
Entretanto, cereja em cima do bolo da elite do poder, a que tornou a social-democracia num apêndice inofensivo e a que por cá também se imagina no centro a mandar, o euro-liberal Centeno lá foi chamado a presidir ao chamado Eurogrupo, com sininho e tudo. Uma decisão sábia, realmente, como disse de forma reveladora o inenarrável Juncker. Tudo na ordem, aparentemente. Cuidado com as aparências.

Antes e depois

Posted: 14 Jan 2018 10:55 AM PST

As minhas desculpas ao repórter Nuno André Ferreira da Lusa, mas não consegui resistir.
Não sei porquê, acho que interpretei o que lhe ia na alma. Mas se não for o caso, inteiramente disponível para apagar este post...

Onde pára o desemprego jovem?

Posted: 14 Jan 2018 04:05 AM PST

1. A capa do Público da passada segunda-feira e o Expresso de ontem dão conta de um aumento do desemprego jovem (15 a 24 anos) de 24,6 para 25,6% entre setembro e outubro, ao arrepio do que estaria a verificar-se na generalidade dos países europeus (chegando o Público a afirmar que Portugal é o país da UE28 em que o desemprego jovem mais aumenta).
2. O aumento de 1 ponto percentual noticiado pelo Público e pelo Expresso resulta da comparação entre o valor definitivo registado em setembro e o valor provisório de outubro (ambos divulgados em dezembro). Contudo, sabendo que o INE tem revisto em baixa as estatísticas mensais de desemprego e caso tivesse sido considerado o valor definitivo de outubro - divulgado no dia a seguir à notícia do Público e quatro dias antes da notícia do Expresso - o alegado aumento do desemprego jovem passaria a ser dez vezes menor: +0,1 pontos percentuais, que resultam da diferença entre uma taxa de 24,5% em setembro e 24,6% em outubro (surgindo novembro já com um valor provisório mais baixo, a cair para os 23,7%).
3. Deve acrescidamente sublinhar-se que existe uma tendência para que o desemprego jovem aumente entre setembro e outubro, refletindo a situação de muitos jovens que terminam ciclos de estudo e formação e que, nessa altura, se encontram disponíveis para ingressar no mercado de trabalho. Deste ponto de vista, aliás, o aumento do desemprego jovem de 2017 é um dos dois mais baixos registados nos últimos dez anos, em que o peso relativo dos jovens desempregados desceu em apenas três deles (2010, 2013 e 2016), como mostra o gráfico seguinte:

4. Numa escala temporal mais ampla (que recorre à comparação da média dos onze primeiros meses de cada ano), refira-se aliás que a tendência tem sido a de um ritmo de diminuição do desemprego jovem superior ao do desemprego: -6 pontos percentuais entre 2013 e 2015 (neste caso certamente inflacionado pelo volume da, então, criação artificial de emprego) e -8 pontos percentuais entre 2015 e 2017. Isto quando a taxa de desemprego apenas cai -4 pontos percentuais em cada um dos períodos. Em termos europeus, a mesma tendência: tendo disparado entre 2011 e 2013, o desemprego jovem tem descido a um ritmo mais expressivo em Portugal que na Europa, ao contrário do que sugerem as recentes e circunstanciais notícias do Público e do Expresso.

5. Quer isto dizer que não há problemas com o desemprego jovem em Portugal? Seguramente que não. Desde logo, porque continuamos a registar, apesar da recuperação, taxas de desemprego neste grupo etário que são das mais elevadas da Europa (apenas superadas por países como a Espanha ou a Itália), persistindo igualmente problemas de precariedade e baixos salários (acentuados pelo facto de uma parte considerável da criação de emprego se verificar em setores onde essas questões têm maior relevo). O que não é possível é sugerir, a partir daí, que estamos em processo de divergência com a Europa, em termos de emprego jovem.

Entre as brumas da memória


Predestinações

Posted: 14 Jan 2018 11:55 AM PST

«Nós somos um Rio / Que não vai parar / É um desafio / Crescer, trabalhar / Anda, vem daí / Junta-te a mim / Fazer um país / E eu vou dizer sim…»

(Letra de Dias Loureiro)
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#ShitHolePresident!

Posted: 14 Jan 2018 07:31 AM PST

"Países de merda" respondem a Trump. E norte-americanos também reagem.

«O Presidente dos Estados Unidos recorreu ao calão, com a expressão "shithole countries", depois de dois senadores lhe terem apresentado um projeto de lei migratório ao abrigo do qual seriam concedidos vistos a alguns cidadãos de países que foram recentemente retirados do Estatuto de Proteção Temporária (TPS, na sigla em inglês), como El Salvador, Haiti, Nicarágua e Sudão.

As redes sociais de todo o mundo reagiram.

No Haiti, as pessoas usaram o Twitter para partilhar fotos do seu país de colinas verdes, palmeiras e água azul-turquesa.

"Hey #ShitHolePresident!" escreveu Harold Isaac. "Aqui está o meu país de merda".»

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O nosso vergonhoso silêncio perante as prisões políticas em Espanha

Posted: 14 Jan 2018 03:06 AM PST

«Estamos sempre prontos para protestar contra tudo e contra todos. Há mil e um movimentos de solidariedade com os presos de Guantánamo, em Israel, no Irão, na Arábia Saudita, na Venezuela, em Angola, na Guiné Equatorial, em Cuba, na Rússia, etc., etc. e aqui, ao nosso lado, permanecem presos membros do governo catalão, dirigentes de associações independentistas, deputados e alguns que não estão presos estão exilados como é o caso do presidente da Generalitat. A justificação estatal é de que se não se trata de presos políticos. Então o que é que são? São presos comuns?

Foram presos pela sua participação num processo independentista, que resultou da vontade da maioria dos catalães e que foi reafirmado nas eleições que o Governo espanhol convocou ao abrigo de um artigo da Constituição que lhe permite suspender os direitos autonómicos. Nessas eleições, os partidos e associações a que estão ligados os presos tiveram uma maioria de deputados, pelo que mesmo numas eleições convocadas com o objectivo de travar nas urnas o processo independentista, mas que acabaram por ter um significado referendário, a intenção do Governo espanhol resultou num reforço e não num enfraquecimento da legitimidade das posições políticas dos presos.

O catalanismo, mesmo com a violência da guerra civil, tem sido no essencial um dos movimentos independentistas mais pacíficos em Espanha, e, nas últimas décadas em particular, é essencialmente um movimento cívico, linguístico, cultural, democrático, e, como se vê, com enorme apelo popular. Pelo contrário, o espanholismo militante, o centralismo monárquico castelhano, que existiu sempre e que veio agora ao de cima com intensidade, tem uma longa história de crimes e violência. Constituiu e constitui uma espécie de fundamento de movimentos como o falangista, de que toda a extrema-direita e muita da direita espanhola permanece próxima ou herdeira. Tem na sua história uma componente autoritária, antidemocrática e antiliberal, que semeou mártires por toda a Espanha no século XX. O modo como Rajoy respondeu com intolerância e violência ao processo catalão é directamente subsidiário dessa tradição e levantou a lama desse fundo espanholista agressivo da direita.

Os socialistas apanhados nas suas contradições contam cada vez menos, a não ser para legitimar Rajoy e o PP. O Ciudadanos aproveita e bem a sua oportunidade política de substituir, pelo menos na Catalunha, um PP quase inexistente. E os independentistas têm o seu próprio labirinto para nele caminhar. Mas, seja como for, existem os presos políticos e os presos políticos são também responsabilidade nossa.

A União Europeia de há muito que está longe de ser o local da democracia e dos direitos dos povos e tem critérios dúplices. Fecha os olhos ao Governo da Áustria, que entregou à extrema-direita pastas cruciais para a segurança do Estado e para a emigração e refugiados, é complacente com os húngaros, e, mesmo com os polacos, faz muito menos do que exigia a gravidade da situação. Mas o silêncio face a um país-membro que tem nas cadeias presos políticos é inadmissível.

É também por isso que a responsabilidade de solidariedade para com os presos políticos catalães é também uma exigência cívica para nós portugueses.»

José Pacheco Pereira

o efeito ap-ucd

por rui a.

Há algum tempo que estava para escrever umas linhas sobre isto: o que se passa com o actual PP e o C's espanhóis pode bem ser uma repetição do que aconteceu, há mais de trinta anos, com a UCD - o então partido maioritário da direita espanhola, responsável por sucessivos governos e a que presidiu, por muitos anos, o mítico Adolfo Suarez - e a AP - o partido donde saiu o actual PP, liderado, nessa altura, por Manuel Fraga Iribarne, que não conseguia ganhar eleições. Percebendo isso mesmo, Fraga afastou-se da liderança, remeteu-se para a Galiza, onde ficou até morrer, e «deu» o seu lugar a um jovem que todos consideravam pouco carismático, que era presidente da Junta de Castela e Leão, chamado José Maria Aznar. Ao fim de sete anos, em 1996, o PP ganha as eleições, embora sem maioria absoluta, o que conseguiria nas legislativas do ano 2000. Por sua vez, a  UCD já se tinha extinguido em 1983, ao fim de um longo calvário. Agora, com muitos anos de governo, escândalos diversos de corrupção e um líder cansado, apesar dos sucessos económicos do seu governo, parece que o eleitorado espanhol de direita quer coisas novas. Rajoy que se acautele. E António Costa que ponha os olhos nisto e perceba que, mesmo com a economia a andar bem, em democracia não há governos eternos.

De La Féria a Chopin com um toque de Bach

De La Féria a Chopin com um toque de Bach

por estatuadesal

Um político que não compreenda e, mais grave, não assuma para si mesmo esta disponibilidade para se abrir à mundividência proporcionada pelo fruir cultural, seja através da literatura, do teatro, do cinema, do bailado, da ópera, da frequência de museus ou de concertos, não está apenas a descurar o que constitui a grande herança da tradição humanista europeia. Está a autoexcluir-se de uma perceção do mundo onde haja lugar para a surpresa, ou para o questionamento, pessoal e coletivo, desencadeado pelas múltiplas interrogações contidas nas grandes obras da cultura de todos os tempos.

Fonte: Expresso | De La Féria a Chopin com um toque de Bach