Translate

domingo, 1 de abril de 2018

pároco de Caminha inicia caminhada pela fé

Novo artigo em BLASFÉMIAS


  por rui a.

007

«Vinde a mim as ovelhas desgarradas»

Ricardo Esteves, o já famoso pároco da bela cidade minhota de Caminha, irá realizar uma tourné religiosa, que se iniciará hoje, pelas 15,00 horas, na escadaria da Igreja Matriz, e se prolongará até ao final do mês de Setembro, para poder acolher os muitos milhares de emigrantes que até ao fim desse mês nos visitam.

Ricardo não foi insensível ao incontável número de apelos que lhe fizeram, depois da publicação desta notícia, para que levasse a Boa Nova aos quatro cantos do nosso país. «Tem sido uma completa loucura», afirmou. «De todo este lindo Portugal têm chovido telefonemas, emails e cartas de paroquianas e de alguns - em número menor - paroquianos, que me pedem para lhes levar a Palavra Divina. O meu objectivo é aumentar o número de fiéis, encher as igrejas portuguesas e salvar as almas pecadoras», avançou.

A tourné terá o nome global de «Vendaval da Fé» e consistirá numa missa celebrada pelo padre Ricardo, que envergará, para o efeito, uma sotaina colada ao corpo, sendo que os cânticos religiosos ficarão a seu cargo e serão adaptados a músicas de Tony Carreira. O climax - espera-se - será atingido ao som de «Ai destino, ai destino», considerada a 5ª Sinfonia de Tony, com a qual o prelado encerrará o serviço religioso.

Do Vaticano vieram palavras de incentivo do Papa Francisco, que vê com bons olhos a iniciativa de Ricardo. «O Papa Francisco é um homem moderno e de progresso. Não é um bota-de-elástico conservador, como o seu antecessor», disse Esteves. «Se ele me pedir, e porque não?, levarei a Palavra do Senhor ao Vaticano. A Basílica de São Pedro é um destino irresistível e será, se Deus quiser, o termo glorioso desta caminhada pela Fé»

Ladrões de Bicicletas


Descrucificar

Posted: 31 Mar 2018 07:26 PM PDT

«Numa entrevista de 1978, Eduardo Lourenço mostrou a verdade da nossa condição, na própria referência cristã: "Cristo é o momento (sem limite de tempo) em que a humanidade tomou forma humana. (...) Foi crucificado, não por querer ser deus, mas por ensinar o que era ser homem. Dois mil anos passaram sem que esquecêssemos nem aprendêssemos a lição".
(...) A cruz, a sentença de morte mais bárbara e cruel, fazia parte do mundo que Jesus queria mudar. (...) Ao contrário do que se repete há séculos, Jesus Cristo não desejou nem santificou a cruz. Alterou-lhe, porém, a significação de forma radical. Foi-lhe imposta, num julgamento iníquo, por ele recusar trair o seu projecto. Tornou-se, deste modo, o símbolo da fidelidade inquebrantável, o signo da extrema generosidade. A presença de sinais da cruz, desde o baptismo até à morte, diz que é preciso dizer não à crucifixão da vida e dizer sim à generosidade libertadora, no dia-a-dia.
Tudo isto vem confirmado no trecho do Evangelho (...): estava Jesus sentado junto ao mar da Galileia e uma grande multidão veio ter com ele e lançou-lhe, aos pés, coxos, aleijados, cegos, mudos e muitos outros. Se o mestre fosse um pregador de sacrifícios dizia-lhes: estais mal? Ainda bem. Assim podeis santificar-vos e, um dia, sereis muito felizes no céu. (...) Jesus não acreditava nessa mística. Curou-os e organizou, com pouca coisa, um grande banquete popular. (...) Poder-se-á dizer: porque não deixou a fórmula? Seria uma alternativa muito barata dos serviços de saúde, públicos e privados. Mas ele não veio para nos substituir. (...) A sua prática é um desafio à imaginação de todos os homens e mulheres, de todos os tempos, a usarem os seus talentos, as suas capacidades, não para cavar distância entre ricos e pobres, mas para as eliminar, pois não suporta ver uns à porta e outros à mesa, uns em banquetes requintados e outros na miséria.»
Frei Bento Domingues, Jesus nasceu para descrucificar
A propósito deste excelente texto de Frei Bento Domingues, publicado em dezembro do ano passado e que surge em vivo contraste com a liturgia dominante da culpa e do sacrifício, lembrei-me de uma intervenção de Miguel Baptista Pereira numa edição dos Encontros de Filosofia, em Coimbra, nos anos noventa. Questionado sobre que noção de «Homem» atravessava o pensamento marxista, o então professor na Faculdade de Letras referiu-se ao «Homem das dores», às vítimas da injustiça, do sofrimento, da desigualdade e da opressão, perante as quais o marxismo se assumia como projeto emancipatório (ou, regressando ao cristianismo e a Frei Bento Domingues, de descrucificação).

Organograma

Posted: 31 Mar 2018 12:47 PM PDT

Sanitários públicos em Alcochete

Centros do mundo

Entre as brumas da memória


Posted: 31 Mar 2018 01:31 AM PDT

Quando cheguei a Paris pela primeira vez, no fim da década de 50, não duvidei de que estava no centro do mundo. Ida de uma Lisboa aferrolhada, a beleza e a força da cidade, o encontro com a pátria cultural que já então era a sede dos meus sonhos de liberdade, tudo convergiu para me maravilhar.

Mais tarde, bem mais tarde, os tempos tinham mudado e, com alguma pena minha, Nova Iorque impôs-se e destronou Paris.

E assim cheguei ao século XXI, em que tenho viajado muito por todos os continentes. Que seria, que está a ser, um século asiático, tornou-se uma convicção mais do que trivial. Que reencontraria a China como a entrevi agora, sobretudo em Pequim (ainda não voltei a Xangai), foi um verdadeiro murro no estômago: nunca vi nada que, de longe ou de perto, se parecesse com uma tal demonstração urgente de poder, de força, de organização. Feliz e optimista com esta realidade? Claro que não, sabendo nós o que está subjacente e que não se vê, sem ponta de democracia no horizonte. Tudo isto pode implodir? Sim, mas nada leva a crer que aconteça, pelo menos tão cedo, estando o resto do planeta como está. O centro é agora aqui e já estende os seus tentáculos pelo mundo inteiro.

Por tudo isto, regresso a casa com uma ideia que não me sai da cabeça: preparemos os nossos filhos e os nossos netos para aprenderem a viver em sociedades pós-democráticas, porque é bem provável que elas sejam uma realidade por aí, talvez mais depressa do que possamos imaginar. Pessimismo? Olhem que não…

ABLUÇÕES PASCAIS

por estatuadesal

(In Blog O Jumento, 31/03/2018)

ceia

É uma pena que o nosso cardeal não tenha imitado o Papa Francisco lavando os pés de criminosos na missa da Quinta-feira Santa. Não faltam por aí bandidos muito dados a missas e abluções pascais e nem era preciso ir á penitenciária. Nem faltam bandidos que no passado eram apóstolos do nosso sistema financeiro.

O cardeal poderia ter mesmo convidado o franciscano Melícias para o ajudar na qualidade de sacristão, já que o famoso franciscano, que é uma espécie de padrinho espiritual do regime, conhece os banqueiros como a palma da mão. Para o papel de apóstolos não faltam candidatos.

Já imagino o Ricardo Salgado, o Carlos Costa, o Passos Coelho, a Maria Luís, o Vítor Gaspar, o Vítor Bento, o Oliveira e Costa, o Dias Loureiro, o Cavaco Silva, o Durão Barroso, o Jaime Gama e o Luís Amado unidos na tarefa de discípulos a que Jesus decidiu lavar os pés na última ceia, para lhes garantir que iriam para o céu com a alma bem lavadinha.

Estes amigos e serventuários da banca que a esta hora se estarão a rir dos portugueses que pagaram com língua de palmo os desvarios dos bancos de que eram donos ou que serviram com devoção. Depois da ablução dos prejuízos à custa de um aumento substancial da dívida dos portugueses deverão estar a gozar com os contribuintes, os idiotas que pagaram com austeridade as experiências do Passos Coelho e, a coberto destas, lavaram os prejuízos do sistema financeiro.

Liberdade para os presos políticos catalães

por estatuadesal

(José Soeiro, in Expresso Diário, 31/03/2018)

José Soeiro

Depois de, no fim do ano passado, o governo espanhol ter dissolvido o Parlamento eleito da Catalunha e provocado novas eleições, Carles Puidgemont deixou um compromisso e uma pergunta. Antes de se saber qual seria o resultado, o compromisso era que os independentistas respeitariam escrupulosamente o resultado desse ato eleitoral. A pergunta era se o governo espanhol do PP faria o mesmo.

Como se vê, não fez. A resposta do Reino de Espanha não podia aliás ter sido mais expressiva. Os 13 ex-membros do governo da Generalitat da Catalunha, bem como deputados eleitos nas últimas eleições regionais a 21 de dezembro de 2017, estão acusados de crimes como rebelião, sedição e desvio de fundos. Além disso, foi emitido um mandado de captura europeu e internacional para todos os que, entretanto, decidiram exilar-se para evitar a perseguição.

O autoritarismo do governo e a sanha punitiva do Supremo Tribunal não têm tido limites. Mais de um milhar de autarcas e de diretores das escolas foram acusados por terem colaborado na organização do referendo de outubro. A libertação dos presos políticos catalães, que nunca usaram qualquer meio violento para defender os seus pontos de vista, é liminarmente recusada. A situação política e social na Catalunha degrada-se a olhos vistos. Com estas escolhas, o governo espanhol e o Supremo Tribunal boicotam qualquer solução democrática para a questão catalã.

Sim, é mesmo do respeito por princípios básicos da democracia que se trata. Por mais que as autoridades espanholas proclamem que são uma “democracia”, os seus atos contradizem-nas todos os dias. Constituir como presos políticos dirigentes que foram eleitos, propor que sejam condenados a penas que podem ir até aos 30 anos de prisão, perseguir os exilados com mandados internacionais, não é próprio de uma “democracia madura”. Se somarmos a isso a violência policial e a repressão das manifestações, a coberto da chamada “Lei da Mordaça” aprovada em 2015, só podemos constatar que hoje, aqui ao lado, os mais elementares direitos democráticos se encontram, de facto, suspensos.

Há uma semana, o Comité de Direitos Humanos da ONU insistia que o Estado espanhol deveria com urgência "assegurar todos os direitos políticos de Jordi Sánchez" (o dirigente associativo que foi impedido de defender a sua candidatura à Presidência da Generalitat). No mesmo dia em que este apelo era feito, Jordi Turull (o novo candidato independentista à presidência) foi preso. É o modo do Reino de Espanha responder à ONU.

Perante isto, o silêncio quase generalizado da chamada “comunidade internacional” é um gesto lamentável de cobardia. O governo português pode invocar que não pretende ingerir-se em “assuntos internos” de outros estados, e os deputados da Direita e a maioria dos deputados do PS podem alinhar pelo mesmo diapasão. Porque o argumento é puramente circunstancial, a hipocrisia torna-se evidente. Dezenas de votos foram aprovados noutros momentos sobre situações de desrespeito pelos direitos humanos e pelos direitos democráticos noutros países. Agora, o silêncio e a conivência.

Não vale a pena mascarar de legalidade o que é um evidente atentado à democracia, independentemente do que cada um e cada uma possa pensar sobre a independência ou a autodeterminação da Catalunha. Nenhum problema político se resolve sem que haja a negociação de uma solução política. Por isso, o que está a acontecer é grave e é uma irresponsabilidade. Felizmente há quem, em Portugal como noutros países, não se cale. E exija o mais básico dos direitos: liberdade para os presos políticos catalães