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domingo, 24 de junho de 2018

Trump, crianças, fotos antigas e “a culpa é do Obama”

  por estatuadesal

(José Soeiro, in Expresso Diário, 22/06/2018)

soeiro

José Soeiro

“A FOTO DA CRIANÇA É UMA MANIPULAÇÃO”

Foram hoje aprovados por unanimidade no Parlamento vários votos de condenação à política de Trump de separação das crianças migrantes dos seus pais. Ainda bem que, em Portugal, há um consenso sobre isto. Trata-se de uma linha vermelha que não podemos deixar passar. Mas ainda assim, apesar do consenso institucional, uma visita a alguns jornais e às redes sociais mostra como há ainda gente a relativizar a barbárie de Trump contra as crianças.

Nalguns casos, fazem-no invocando o facto de haver uma imagem que circulou que era de uma criança numa manifestação e não numa gaiola real. Também prefiro quando as fotos têm legenda, com o local, a data e o contexto e acho que temos direito a essa informação. Mas não desvalorizo os mortos da guerra civil espanhola pelo facto de a Guernica ser um quadro cubista. Quando um oficial nazi, ao ver a pintura, perguntou a Picasso: “Foi o senhor que fez isto?”, ele terá respondido: “Não. Foram vocês”. O facto de haver uma representação propositada da realidade não torna essa realidade uma ficção. E a separação das crianças e a sua colocação em gaiolas não é uma ficção: está, de facto, a ter lugar.

“ESSA LEI É DO OBAMA”

Noutros casos, a relativização do que está a acontecer recorre a um argumento cínico: com Obama a política de imigração norte-americana já era cruel contra os migrantes. Ora, esta é a parte de verdade de uma manipulação perigosa. E é essa que me importa discutir.

A confusão talvez se tenha instalado, também, com uma troca de fotografias. Jon Favreau, o ex-porta-voz de Obama, partilhou uma imagem de crianças em gaiolas para ilustrar a sua indignação com o que estava a acontecer em 2018. Mas afinal – aproveitaram os apoiantes de Trump para acusar – a foto era de 2014, ou seja, a política já vinha de antes. Sim, explicou depois Favreau, a foto era antiga mas além da semelhança haveria também uma diferença: as crianças estavam ali temporariamente por terem aparecido na fronteira desacompanhadas, e o esforço do Governo Obama era procurar a sua família para as reagrupar. Agora, argumentou Favreau, as crianças eram enviadas para as gaiolas por terem sido separadas das famílias pelo Governo: era Trump quem as tornara crianças desacompanhadas, quem estava a criar o problema, em vez de o resolver.

É possível que sim, e Favreau terá provavelmente razão. Mas o caso embaraçou os democratas. Porque a diferença verdadeira escondia também uma semelhança de verdade. As leis que Trump estava a mobilizar não viriam, de facto, de antes? Sim e não.

AFINAL, O QUE MUDOU COM TRUMP?

Trump promoveu várias alterações importantes nas políticas de imigração dos democratas. Revogou um decreto de Obama que protegia os “Dreamers”, isto é, que dava aos menores indocumentados que entrassem nos EUA uma autorização temporária para residirem, estudarem e trabalharem. Trump aprovou também um abominável decreto que ficou conhecido como o “Muslim Ban”, que proibiu a entrada nos EUA de cidadãos do Irão, Líbia, Somália, Sudão, Síria e Iémen, mesmo que refugiados e mesmo que viessem ter com a família, levando a que muitos que estavam fora e procuraram regressar ficassem pendurados no aeroporto. Além disso, Trump limitou o critério da reunificação familiar para a concessão de vistos. Propõe, ainda, desviar 25 mil milhões de dólares do Orçamento para que o seu famoso muro separe definitivamente o México dos EUA. E fez mais: com a sua política de “tolerância zero”, toda e qualquer entrada ilegal nos Estados Unidos passou a ser tratada como um crime federal, tornado o modo como as autoridades lidam com as migrações indistinto do modo como lidam com um crime. Daí a multiplicação das abjetas separações das crianças.

É certo, dir-se-á, que a lógica de criminalização da imigração vem de trás. Vem mesmo. Não foi Trump que a inventou. Na verdade, as perseguições por entrada ilegal aconteciam com Clinton, Bush ou Obama. Sim, a administração Obama também deportou dos Estados Unidos milhares de migrantes a quem não foi reconhecido o estatuto de refugiados e até abriu um centro de detenção, longe de onde estavam os advogados defensores dos migrantes, que foi descrito pela New York Times Magazine como um cenário dantesco e desumano. A diferença é que Trump passou a tratar a questão não por via de centros de detenção (onde as famílias permanecem juntas), mas de prisões (onde evidentemente os menores não estão). A solução de Trump foi por isso utilizar a possibilidade de criminalização que já lá estava como forma de normalizar qualquer horror, incluindo o da separação das crianças, e de, por essa via de instalação do terror, tentar dissuadir os fluxos migratórios.

A INDIGNAÇÃO, SEM ARMADILHAS

É evidente que estas políticas, além de violarem direitos humanos básicos, não contêm os fluxos de quem foge da guerra ou da miséria. O facto de mais pessoas se estarem a aperceber da sua irrazoabilidade é muito positivo. A indignação contra um sistema de policiamento de fronteiras e de criminalização da imigração que republicanos e democratas foram construindo, e que agora Trump radicaliza, é muito importante. Na realidade, a política de “tolerância zero” de Trump revela não apenas a obscenidade do Presidente e o seu desprezo pelos outros, mas também quão más eram as normas que já lá estavam. A aplicação implacável dessas normas põe a nu a sua barbaridade.

Aproveitemos então o momento evitando duas armadilhas: a de protestarmos apenas contra as características psicológicas da personagem Trump, e a de menorizarmos a barbárie em curso pelo facto de haver leis que já vinham de trás. Agora que a monstruosidade destas práticas está a ser exposta, indignemo-nos contra as leis que autorizam esta separação e, já agora, contra a criminalização da imigração e a violação quotidiana dos direitos humanos das crianças e dos migrantes. Nos Estados Unidos, na Europa, e onde quer que seja.

O papel das banalidades e da ignorância na luta de classes

  por estatuadesal

(José Pacheco Pereira, in Sábado, 24/06/2018)

JPP

Pacheco Pereira

Todos os dias se repetem pseudo-argumentos, falsas evidências, mentiras, banalidades para usar nos conflitos sociais, a variante, em linguagem asséptica, da luta de classes. Uma das coisas que Trump percebeu muito bem é que, em períodos de conflito, esta forma de envenenamento da opinião, cresce exponencialmente e que as "redes sociais" são um excelente veículo para a sua circulação.

Durante os anos de lixo do "ajustamento" circulou um número anormal deste tipo de fake news para servirem de argumentário de combate social, por exemplo, contra os mais velhos, os reformados e os pensionistas. Uma parte eram argumentos neo-malthusianos para justificar cortes de pensões e reformas em nome de uma "justiça geracional" para os mais novos.

Nem os falsos argumentos neo-malthusianos eram sustentáveis - por exemplo falar das curvas demográficas na segurança social, omitindo a produtividade -, nem a distribuição dos recursos era corrigida "socialmente" a favor dos mais novos. Não era dos avós e dos pais para os filhos e os netos, era a favor de alguns avós e alguns pais e contra tudo o resto.

Um dos argumentos usados contra os professores (e há muitos que podiam ser usados com mais rigor, como os que têm a ver com a avaliação) é perguntar como é que podem "entrar" mais professores quando diminui o número dos alunos. É um tipo de argumento banal e redutor. Sim, pode haver redução do número de alunos e ser necessário haver mais professores se queremos combater muito dos factores de atraso e ineficácia do sistema de ensino e da qualificação dos portugueses. Como partimos de uma situação de atraso, o esforço para o colmatar pode implicar maior número de professores, turmas mais pequenas, diferentes formas de acompanhamento, escolas mais próximas. Não quer dizer que os efeitos positivos decorram apenas de haver mais professores, mas apenas que dizer que o número de professores deve diminuir com o número de alunos é superficial e banal.

Sabe qual é o problema dos fogos?...
Responde uma senhora estrangeira: "Estas pessoas são pobres e vão continuar a ser"...

Estou um pouco farto de repetir a mesma coisa, sabendo inclusive que não tem qualquer resultado: as tragédias dão excelente televisão, grandes audiências, e quanto maiores forem mais podem ser exploradas. Os fogos do ano passado são disso um exemplo. Uma das suas consequências é má política, medidas apressadas e atabalhoadas, gastos desnecessários, respostas destinadas apenas a aliviar a pressão para se fazer alguma coisa e por isso, a prazo, mais tragédias. Há uma sobriedade a ter com estas matérias, uma grande contenção na exibição da dor, um enorme cuidado em avançar com propostas mal estudadas e com a obsessão dos "meios", diz a "voz que clama no deserto".

Mas não vale a pena, aquilo a que tenho chamado, com uma expressão incómoda, "masturbação da dor" é a regra, com entrevistas a vítimas, exibição de feridas, telejornais transmitidos dos locais dos incêndios, audição de gente séria misturada com "aproveitadores" (uma espécie que cresce nestes ambientes) autoridades apascentadas pelo senhor Presidente da República em exercícios ou de negação ou de justificação, ou de promessas sobre promessas. Este é caldo de cultura para a asneira, muita emoção e pouca racionalidade. Se alguém pensa que isto ajuda a resolver os problemas dos fogos, ou o ressuscitar de terras que estavam quase mortas e vão continua a estar, está muito enganado. Ouvi apenas uma voz dizer coisas acertadas, e era um sotaque estrangeiro, num português com sotaque: "Sabe qual é o problema? É a pobreza, estas pessoas eram pobres."

Como deve a comunicação social lidar com políticos como Trump, que usam a mentira de forma operacional?
Nos EUA há uma enorme discussão sobre como é que a comunicação social deve lidar com pessoas como Trump e os seus servos do Partido Republicano, que inundam o espaço público de mentiras flagrantes, repetidas, repetidas, repetidas. O efeito de repetição torna essas mentiras operacionais e, a seu modo, eficazes. E a comunicação social séria, acaba por ter um papel nessa operacionalidade. Algumas propostas são muito criativas e levam a pensar duas vezes. Por exemplo, um especialista do efeito psicológico da comunicação, sugere que os jornalistas que cobrem as declarações de Trump e as conferências de imprensa da Casa Branca, devem ser estagiários e não os repórteres mais conceituados. Na verdade, se ali só há mentiras não tem sentido fazer um upgrade da cobertura.

O Vale dos Caídos e a Espanha franquista

  por estatuadesal

(Carlos Esperança, 24/06/2018)

fascismo

O anúncio da transladação dos restos mortais de Francisco Franco, do Vale dos Caídos, no cumprimento da decisão unânime, aprovada em sede parlamentar, não é apenas um ato de reparação histórica às vítimas, é um corte com a herança que envergonha o País perante a História e o compromete no seio dos países democráticos.

Pedro Sánchez apenas se limitou a confirmar o cumprimento do compromisso e da sua obrigação, e acordou demónios adormecidos do fascismo. Sobressaltou os herdeiros da Falange, inquietou filhos dos algozes, levou o alvoroço às sacristias, fez tremer báculos, agitar mitras e enraivecer velhos purpurados. A Fundação Franco, que nenhum político teve a coragem de extinguir, amaldiçoou a medida de higiene que a democracia exige.

Não há outro país europeu que, por masoquismo ou falta de pudor, perpetue a memória de um genocida e o venere, por respeito aos direitos humanos e ao pluralismo político, herdados do Iluminismo, e assimilados na sua matriz civilizacional.

Quem aceitaria hoje que Mussolini, Hitler, Pétain, Tiso ou Salazar tivessem uma guarda de honra permanente a homenageá-los? Ou, noutro quadrante, Estaline, Pol Pot, Enver Hoxha ou Ceauşescu? Só resiste o culto a Kim Il-sung, na Coreia do Norte, e a Mao, no regime ditatorial chinês, de capitalismo selvagem, sob o pseudónimo de comunismo e a cooperação do partido que mantém o nome.

Franco é uma referência sinistra entre os maiores genocidas do século XX, um precursor europeu de Pinochet, a réplica caucasiana de Idi Amin. No entanto, aquela Espanha sem remorso nem vergonha, acordou para a contestação à democracia na defesa do carrasco que repartia com a Custódia o direito a desfilar sob o pálio, nas procissões pias.

Com a experiência da cruel repressão da Revolução das Astúrias (1934) com tropas da Legião Espanhola, depois da vitória, apoiado pela Alemanha, Itália e Portugal, Franco estimulou durante cinco anos a alucinada chacina de centenas de milhares de pessoas, mortas em campos de concentração, execuções extrajudiciais ou em prisão.

A decisão do destino a dar aos restos mortais do genocida cabe à família, que não pediu perdão ao País, tal como o Vaticano, que esqueceu o apoio de Pio XI, designando como Cruzada a sedição, e a dos bispos espanhóis aos de todo o mundo a manifestarem o seu entusiasmo.

À Espanha democrática cabe dar um funeral digno às vítimas do franquismo e alterar o significado ao lúgubre monumento que perpetuou a memória e a vontade do ditador.

Enquanto não se alteram a constituição e o regime político, e se extinguem os títulos nobiliárquicos, cabe ao governo do PSOE solicitar ao rei a extinção do título de ‘duque de Franco’ que, no dia da moção de censura, que remeteu o PP à oposição, foi assinado pelo ministro da Justiça, Rafael Catalá, proclamando Carmen Martínez-Bordiú como nova duquesa de Franco, com o título que pertencera a Carmen Franco, filha do ditador, e solicitado algum tempo antes pela neta.

Urge fazer justiça para pacificar as feridas da guerra cuja violência foi exercida dos dois lados, e que os vencedores prosseguiram impiedosamente. Urge contar a verdade.

O nacionalismo e o populismo são chagas que dilaceram de novo a Europa, da Áustria à Itália, na própria Alemanha, da Polónia à Hungria. Neste último país, a ajuda altruísta a refugiados passou a crime, punível com prisão. Parece que o exemplo dos EUA, após a eleição de um presidente inculto e amoral, está a singrar na Europa das Luzes, esquecida a sua herança humanista, mas nenhum país reverencia ainda a memória de um déspota.

Rescisões, finanças, orçamento, futebol, modalidades: os dossiers que o Sporting tem para resolver a breve prazo

SPORTING

HÁ 2 HORAS

Bruno de Carvalho ainda é no plano formal líder da SAD do Sporting mas está fora. Há uma Comissão de Gestão, outra de Fiscalização, uma Mesa e "apoiantes". Quem resolve o quê a breve prazo nos leões?

Assembleia Geral do Sporting este sábado teve a maior votação de sempre neste tipo de reunião magna: quase 15 mil pessoas

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

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Por volta das seis da manhã, Bruno de Carvalho comentou as principais incidências da Assembleia Geral que levou à primeira destituição de sempre de um presidente do Sporting. E fez pela primeira, única e última vez: entre as constantes acusações de que foi uma “golpada” e que a reunião magna estaria cheia de ilegalidades, fechou a porta (sendo que pode sempre abrir-se uma janela com ele…) ao clube não só como dirigente mas também como associado e adepto. Os sócios decidiram, está decidido. Uma era que se pensava ir durar anos a fio foi-se desmoronando e caiu de forma retumbante nos últimos quatro meses.

Agora, o antigo líder que ocupou o cargo durante 63 meses está fora de um jogo que não pode parar. Há questões para resolver para ontem, planificações para dar ordem ao amanhã, matérias que fazem diferença no agora. Também é verdade que algumas se resolvem por si, como aconteceu com o Grupovarius, que anunciou o regresso como parceiro do clube e principal patrocinador do judo verde e branco. Mas há pelo menos cinco dossiers prementes para agarrar a curto prazo. E não foi por acaso que a Comissão de Gestão decidiu marcar uma conferência de imprensa para as 18 horas em Alvalade.

Poderão os jogadores que rescindiram voltar atrás neste cenário?

À exceção de Rui Patrício, que se comprometeu com o Wolverhampton ainda antes de qualquer sufrágio ou decisão em relação ao futuro institucional do Sporting, os restantes oito jogadores que revogaram o vínculo com os leões continuam sem clube (pelo menos que seja conhecido em termos públicos). E ao longo deste sábado, vários sportinguistas que iam falando quer no exterior do Altice Arena, quer nos vários canais televisivos, focavam de forma transversal essa necessidade de falar com William Carvalho, Gelson Martins, Bruno Fernandes, Rodrigo Battaglia, Rúben Ribeiro, Daniel Podence, Rafael Leão e Bas Dost para tentar inverter essa decisão ou, no mínimo, assegurar uma transferência que pudesse beneficiar (ou não lesar) todas as partes. Mas a dúvida, no atual cenário, é a figura para fazer isso: Augusto Inácio é o diretor geral do futebol leonino mas não se sabe ao certo se ficará ou não no futuro; Artur Torres Pereira, bem como os restantes líderes da Comissão de Gestão, não tiveram qualquer ligação com a esfera do futebol à exceção de Sousa Cintra, quando era presidente. Assim, é provável que possa surgir uma figura de “fora”, indicada pelo único elemento não executivo da SAD (da Holdimo) ou pela Comissão de Gestão.

Quem vai ficar com a planificação da época do futebol? E Mihajlovic?

Numa das últimas intervenções públicas, Artur Torres Pereira, líder da Comissão de Gestão que ficará no comando do clube (em relação à SAD são mais as dúvidas do que as certezas), fez questão de sublinhar que Sinisa Mihajlovic não seria a sua opção e que é treinador… para já. Mas há mais questões de relevo para resolver, quando estamos a poucos dias do arranque da temporada a sério do plantel principal depois dos habituais exames médicos: como ficarão os dossiers que estavam a ser negociados, casos de Joel Obi, Fábio Coentrão ou Slimani? Quem recebe e negoceia eventuais propostas que possa aparecer para alguns dos atletas habitualmente titulares que não rescindiram, casos de Piccini, Coates ou Acuña? Quem fecha o calendário da pré-temporada e os adversários nos jogos de apresentação? Muitas vezes pouco falado mas muito relevante, quem agarra na pasta dos jogadores sem espaço em Alvalade mas que mantêm vínculo com os leões? Muitas perguntas, poucas respostas.

Quem vai tratar dos 15 milhões que são necessários até ao final do mês?

Devido ao adiamento do novo empréstimo obrigacionista de 15 milhões de euros (o outro, com o dobro do valor, será apenas uma preocupação maior lá para o final do ano), a SAD verde e branca precisa encontrar esse valor e de uma forma que já estaria mais ou menos prevista antes de tudo isto acontecer: a venda de um ou dois jogadores do plantel principal. Seja entre os que não rescindiram, seja entre aqueles que revogaram o vínculo — um dos nove elementos que entregou a carta apresentou, pouco depois, uma proposta para sair a bemcom um encaixe por valores que Bruno de Carvalho acabou por não aceitar. Aquilo que estaria previsto era apresentar publicamente o prospeto do empréstimo obrigacionista caso não tivesse havido a destituição, como houve e de forma estrondosa. E quem fica, o que fará?

Quem fecha as últimas contratações para as modalidades?

Como é normal nesta fase do ano, os plantéis das modalidades para a próxima temporada estão 90% compostos mas existem sempre aquelas situações pendentes, seja a nível de contratações, seja no âmbito de questões logísticas nos estágios de pré-época, por exemplo.É isso que se passa no Sporting, no futsal, no voleibol ou no hóquei em patins, por exemplo. Quem irá assumir essas decisões? E como serão construídas essas pontes? No plano teórico, a Comissão de Gestão teria essa responsabilidade, mas não foi, pelo menos em termos públicos, apresentada qualquer “divisão de tarefas” entre os 11 elementos encabeçados por Artur Torres Pereira. Depois, outros dois pontos a ter em conta: 1) imaginemos que existe a possibilidade real, como se falou, de Hélder Nunes deixar o FC Porto e assinar pelo Sporting — quem assume o pagamento da cláusula de rescisão? 2) provavelmente existem jogadores já contratados e fotografados ao lado de Bruno de Carvalho — como serão feitos os anúncios?

Quem vai fazer um novo orçamento para o clube (além de apresentar e votar)?

De acordo com os estatutos do Sporting, o orçamento para o exercício da temporada seguinte, neste caso de 2018/19, terá de ser apresentado e votado em Assembleia Geral até dia 30 de junho de cada ano. E era isso que Bruno de Carvalho estava a tentar fazer quando convocou, de uma forma ilegal à luz da decisão dos tribunais, a reunião magna de dia 17 que nunca chegou a acontecer. Agora, com a destituição dos sete elementos do Conselho Diretivo, não há ninguém para apresentar o orçamento. Um orçamento que a Comissão de Fiscalização nomeada por Marta Soares e coordenada por Henrique Monteiro reprovou, num parecer muito crítico até na forma como eram feitas as contas. Neste vazio, quem resolve o problema? E como?

A guerra dos mundos e a desintegração europeia

  por estatuadesal

(Vicente Jorge Silva, in Público, 24/06/2018)

vicente

A Europa está cada vez mais dividida, por motivos vários e até nas páginas do mesmo jornal. Ontem, as páginas de Economia do PÚBLICO abriam com a reforma do euro (que "já não é só uma miragem mas ainda está longe") e as do Mundo com um novo episódio da crise migratória ("Há mais um barco com refugiados a testar a solidariedade europeia"). Ora, os dois temas, apesar das suas diferenças óbvias, são hoje politicamente inseparáveis.

O ensaio teatral da reforma da zona euro, com Merkel a seguir timidamente os passos de Macron – e mesmo assim provocando logo a reacção negativa de 12 países, comandados pela super-ortodoxa Holanda –, surge como uma tentativa de resposta e fuga do eixo franco-alemão a essa crise migratória, explorada de forma cada vez mais histérica pelos populismos em expansão através do continente (e agora encabeçados pela Itália). Merkel pretendia, desse modo, desviar as atenções do dossier mais explosivo e evitar o choque frontal com o seu ministro do Interior, refém dos cantos de sereia populistas, precipitando a queda do actual Governo alemão. Já Macron ter-se-á focado em demasia na reforma do euro, como notava Cécile Ducourtieux no Le Monde, enquanto a urgência está hoje na crise migratória. A verdade é que nem Macron nem Merkel têm respostas efectivas para essa crise e ambos cultivam uma estratégia de dissimulação, tentando esconder a migração com o euro (e mesmo assim lá estão a Holanda e os outros onze a resistir à reforma).

Pouco importa que os populistas dos diferentes quadrantes possam ter interesses nacionais contraditórios sobre a gestão da crise migratória, desde que os fantasmas por eles agitados sejam os mesmos. A irracionalidade não tem fronteiras, como vemos com o agravamento imparável da bestialidade de Trump face ao acolhimento das famílias de imigrantes (ele pode contradizer-se radicalmente entre dois tweets, como aconteceu agora mesmo sobre a Coreia do Norte, sem que a sua base de apoio fique minimamente incomodada, antes pelo contrário: quanto mais doido, melhor).

A guerra dos mundos está declarada entre a civilização e a barbárie, enquanto a Europa corre o risco de caminhar rumo à sua desintegração (económica mas sobretudo cultural), por mais persistente e genuíno que seja o voluntarismo europeísta que queiramos opor aos cépticos, derrotistas e populistas. Ora, uma das razões fundamentais dessa desintegração reside, precisamente, numa dupla incapacidade: a de a Europa integrar os imigrantes e a de os imigrantes se integrarem na Europa (sobretudo depois da fractura provocada pelo islamismo radical e pelo terrorismo que aí obtiveram, por trágica ironia, uma grande vitória estratégica).

Por mais que se argumente a favor da hospitalidade com que deveríamos acolher os refugiados e imigrantes, nenhuma das fórmulas de integração propostas até hoje parece já funcionar, enquanto crescem os fenómenos de rejeição dos que procuram na Europa um novo horizonte para as suas vidas.

Atingimos uma linha vermelha face à qual não existem soluções satisfatórias, pelo menos enquanto a Europa permanecer dividida entre os que se fecham cada vez mais no interior das suas fronteiras nacionais e culturais e os que, em número cada vez mais reduzido, se mostram solidários com os protagonistas das tragédias humanitárias no Mediterrâneo.

Por outras palavras, este é o ponto nevrálgico da sobrevivência da Europa e para o qual nem Macron, nem Merkel nem nenhum outro líder (ou Governo ou instituição) estão hoje em condições de fornecer, para além de uma visão idealista e generosa, uma resposta pragmática consistente.