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terça-feira, 3 de julho de 2018

“Xutos” à democracia: Marcelo, o “Rock”; Costa, o “Roll”!

João Lemos Esteves03/07/2018

João Lemos Esteves


opiniao@newsplex.pt

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Marcelo não convida Donald Trump porque não quer espicaçar Catarina Martins e companhia, utilizando a “opinião pública portuguesa” para não assumir o óbvio: até o Presidente da República – com a sua obsessão pelas selfies e pelas sondagens – já está refém da extrema-esquerda

1. A imprensa portuguesa rejubilou na semana transata: afinal, os portugueses podem ter orgulho em pertencer a esta nação, que tem sobrevivido às contingências da História contra todas as probabilidades e vaticínios mais fatalistas. Não há muito tempo, os mesmos jornalistas, comentadores e autointitulados intelectuais que pululam pelas nossas televisões, rádios e jornais faziam carreira a parodiar, a satirizar e a denegrir Portugal. O nosso país não passaria, afinal, de uma “choldra”, de uma “país do quinto mundo habitado por gente inculta”, com uma “classe política absolutamente corrupta e impreparada”. Entretanto, tudo mudou: Portugal passou a ser fantástico; o “último paraíso na terra”; um “exemplo de civilização”! Qual a razão desta mudança súbita? Estará a economia nacional estruturalmente melhor, projetando um presente mais seguro e um futuro mais auspicioso para todos os portugueses? Será que o nosso poder político é mais competente, sequer transparente, do que no passado?

2. Não, não e não: Portugal, na lógica da opinião publicada (sim, porque hoje praticamente não há notícias: só opinião ou propaganda), virou paraíso porque o fetiche sonhado por numerosos jornalistas do politicamente correto se tornou realidade. Finalmente temos um governo da extrema-esquerda com o PS: o casamento sonhado (e negado) durante décadas foi consumado, derrubando--se destarte os muros que separavam a esquerda. E a esquerda unida será invencível: independentemente das preferências políticas dos portugueses devidamente manifestadas nas urnas, a esquerda (basta querer) vencerá sempre. É uma mera questão aritmética: somando-se os deputados do extremo-PS com a extrema-esquerda, é bastante verosímil que a direita fique afastada do poder por um longo tempo. Só uma maioria absoluta da direita assegurará a sua possibilidade de exercer funções governativas – pelo que só em situações de exceção, de crise profunda, após o PS levar o país à bancarrota (cumprindo a sua tradição político-constitucional mais conhecida e reiterada) é que a direita poderá aspirar a corresponder aos anseios de mudança da maioria (cada vez menos) silenciosa dos portugueses.

3. Pois bem, qual o motivo que excitou as nossas “elites comunicacionais”? A lição de História dada por Marcelo a Donald Trump – e o seu aperto de mão em forma de “puxão ostensivo”. A prioridade nacional desde quarta-feira tornou-se, pois, desvendar os segredos do “aperto de mão singular” de Marcelo Rebelo de Sousa. Para tal foram ouvidos especialistas em linguagem corporal e mestres de judo (parece que o cumprimento é uma forma de sinalizar a disposição do combatente) e o próprio Presidente Marcelo comentou ao “Expresso” a sua façanha. De facto, Marcelo descreveu o gesto como um “golpe de aikido”, confirmando as análises com que o país político-mediático se entreteve: o nosso Presidente é especialista em aikido, o que, como se sabe, é a principal valência de política internacional que um político deve ter. Mais acrescentou Marcelo Rebelo de Sousa que não convidou o presidente Donald Trump para vir a Portugal porquanto tal poderia causar melindre na opinião pública nacional. Na mesma declaração ao “Expresso”, Marcelo revelou que o presidente da República Popular da China, Xi Jinping, virá a Portugal em novembro – o que é uma notícia, segundo o próprio Marcelo, entusiasmante. As leitoras e os leitores já perceberam o ridículo desta situação: então o nosso sábio Presidente Marcelo Rebelo de Sousa recusa convidar o presidente Donald Trump (o que é, aliás, um gesto contrário à cortesia diplomática, ainda para mais relativamente ao nosso mais importante aliado) porque isso poderia causar “urticária” na opinião pública devido ao “radicalismo” (como?!) do presidente dos EUA? No entanto, Marcelo anda muito contente (e a jornalista do “Expresso” fica em êxtase!) com a vinda do presidente de um Estado onde não há respeito pelos direitos humanos, não há limitação do poder político, onde há um Estado centralizado com “capitalismo de Estado” como é a República Popular da China! Então como é, senhor Presidente Marcelo: a opinião pública não fica com urticária por vir um presidente autoritário ao nosso país? Ainda para mais, Marcelo anunciou a vinda do presidente chinês a Portugal… nos Estados Unidos da América! O que, convenhamos, é uma singularidade diplomática…

4. Ora, por que razão terá Marcelo sentido “urticária” pela vinda do presidente dos EUA a Portugal (não obstante ter considerado a sua reunião com Donald Trump um “enorme sucesso” e com muita empatia entre os dois, como nós explicámos no “Sol” online na semana passada) – mas apenas júbilo pela vinda do presidente da China? Fácil: porque Marcelo não está preocupado com a opinião pública portuguesa – está tão-somente apreensivo quanto à sua popularidade junto dos militantes (e elite) do Bloco de Esquerda e da ala radical do PS. Marcelo não convida Donald Trump porque não quer espicaçar Catarina Martins e companhia, utilizando a “opinião pública portuguesa” para não assumir o óbvio: até o Presidente da República – com a sua obsessão pelas selfies e pelas sondagens de popularidade – já está refém da extrema-esquerda. Já convidar um presidente realmente autoritário que pensa que os direitos humanos são meros lirismos ocidentais e que tem evidentes objetivos expansionistas é uma animação para Marcelo – afinal de contas, até o Bloco de Esquerda e o PCP já se renderam aos encantos chineses. Portanto, no caso do presidente Xi, Marcelo não chateará nem Catarina Martins nem Jerónimo de Sousa. Não haverá, portanto, urticária na pele política de Marcelo… Assim como não haverá urticária no convite que Marcelo terá formulado ao presidente Putin para visitar Portugal: aliás, já em 2016, Marcelo, em declarações à agência de notícias do Kremlin, Sputnik, afirmou que “gostaria muito de receber o seu presidente, o presidente Putin, em Portugal”. Aí parece não haver urticária…

5. O melhor momento, contudo, ocorreu na passada sexta-feira. O poder político português esteve todo (literalmente todo!) no palco do Rock in Rio Lisboa, cantando as saudades que têm da sua alegre casinha. Entendamo-nos: a homenagem a Zé Pedro é mais do que merecida e justifica-se. Todavia, Marcelo poderia ter encontrado outras formas mais institucionais de proceder a tal tributo: por exemplo, um concerto aberto nos jardins do Palácio de Belém, como já fez. É que subir ao palco e ser fotografado encenando o símbolo do Rock in Rio suscita problemas políticos para o Presidente da República. Efetivamente, um Presidente que pugna e dá lições sobre a prevalência do poder político sobre o poder económico dá por esta via um sinal de que, afinal, é o poder económico e mediático que condiciona o poder político. Como poderá no futuro Marcelo Rebelo de Sousa reclamar (invocando a sua velha doutrina) que os políticos não devem envolver-se demasiado com iniciativas empresariais ou com os poderes fácticos? Será muito difícil…

6. Em segundo lugar, Marcelo Rebelo de Sousa ainda não percebeu que o tempo de tomar decisões difíceis está a chegar – no próximo ano teremos um calendário eleitoral intenso, com europeias e legislativas. Ora, o Presidente da República – que deveria ser o Presidente de todos os portugueses –, ao cantar junto de António Costa (e sua esposa, Fernanda, a estrela da noite, batendo todos em qualidade artística e vocal) e Catarina Martins, está objetivamente a beneficiar dois partidos políticos. Nossa questão: Marcelo também convidou representantes do PSD, do CDS ou do PCP para cantar no palco do Rock in Rio?

7. Por outro lado, como acreditar que Marcelo Rebelo de Sousa, quando for chamado a decidir sobre a nomeação do próximo governo, tem distanciamento crítico em relação a António Costa e Catarina Martins para rejeitar, em nome do interesse de Portugal, um executivo proposto por estes dois partidos? Politicamente, o que parece é. E o que parece é que Marcelo quer continuar com António Costa e Catarina Martins em São Bento… Enfim, os nossos políticos deram mais uns “xutos e pontapés” na qualidade da nossa democracia. Na autoridade do Estado. Surpresa? Talvez não… Portugal não é mesmo os Estados Unidos da América.

joaolemosesteves@gmail.com

À consideração da beleza do futebol português

Opinião

Miguel Guedes

27 Junho 2018 às 00:54

ÚLTIMAS DESTE AUTOR

A mudança de chip que a selecção portuguesa insinuava ser capaz de operar ainda não se materializou. Decorrida a fase de qualificação e após uma bem sólida exibição no particular contra a Bélgica, a sensação era a de que tínhamos um meio-campo capaz de desatar o nó, sepultando a monotonia artística que nos coroou campeões da Europa, sem que com esse upgrade perdêssemos consistência defensiva, solidez e espírito operário. Pela qualidade dos nossos jogadores, julgava-se por antecipação que continuaríamos a fazer das nossas fraquezas força mas algo mais: esta equipa podia não ir tão longe como em 2016 mas jogaria diferente, para melhor, e poderia ser bem sucedida. Com outro brilho, nota artística, outra beleza. Apesar do melhor jogo colectivo contra o Irão, a sensação que abala é a de que dificilmente melhoraremos o tanto que precisamos para os jogos a eliminar. Talvez porque ainda hesitemos, achando que somos capazes de mudar o chip em tempo recorde. A beleza não tem idade mas tem o seu tempo. E já a seguir vem o Uruguai, uma equipa sem "eyeliner".

Alguns jornalistas em auto-análise, que se queixam de que há um Mundial que lhes está a passar ao lado à custa das denúncias e investigações judiciais que atingem o Benfica e os seus responsáveis, foram - eles mesmos - protagonistas permanentes do maior enxovalho diário a um clube de que tenho memória, à boleia de um homem e das suas circunstâncias. Durante os últimos dois meses, o pântano do futebol português chamou-se Sporting e alimentou-se do seu ex-presidente. Entretanto anunciou-se a convocatória, a preparação da selecção entrou em curso, jogaram-se três particulares e o Mundial da Rússia disparou ao ritmo de quem desmantela matrioskas em loop. E apesar da beleza do futebol continuar bela, não houve um dia em que a crise do leão ficasse alojada nas grades internas da sua jaula. Pelo contrário, alimentou finados serões "non-stop" como se de uma novela de voyeurismo espírita se tratasse. E o futebol continuava belo, porém.

Agora que, a propósito da operação "Mala Ciao", a Polícia Judiciária desenvolve mais uma investigação que envolve o Benfica e, no respeito pelo Estado de Direito, há uma multiplicidade de buscas ordenadas por um juiz, algo parece estar a impedir alguns daqueles que alugaram cadeira de orquestra para a crise leonina de poder desfrutar da tão terna beleza do futebol, à conta do "ambiente irrespirável que se vive no futebol português". Vão medindo as tensões ao drama, é um belo jogo colectivo. Estimo as melhoras.

O autor escreve segundo a antiga ortografia

* MÚSICO E JURISTA

Geringonça. PCP diz que “o mito acabou” e aguarda encontro com Costa

CRISTINA RITA03/07/2018 12:40

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Comunistas endurecem o discurso sobre o acordo e o Orçamento. O primeiro-ministro ripostou: investe-se no IP3, mas não há dinheiro para “evoluções” salariais

“Termina um mito de que era possível fazer a quadratura do círculo de corresponder à reposição de direitos (...) e aceitar a submissão aos ditames da União Europeia e do euro”. A frase do secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, depois de dois dias de reunião do comité central, traduz-se no registo mais duro dos comunistas sobre o acordo com o PS, o “exame comum”, como lhe prefere chamar o PCP.

O líder do PCP não tinha ontem data e hora marcada para se encontrar com o primeiro-ministro e iniciar a negociação do Orçamento de 2019 ao mais alto nível. Talvez ainda seja esta semana, apurou o i – um detalhe que em política é sintomático do distanciamento entre as esquerdas. O Bloco de Esquerda já falou com Costa no passado dia 19, mas os comunistas ficaram na lista de espera. E o chefe de governo repisou ontem a ideia de que não há dinheiro para se fazer tudo. Para o efeito usou a requalificação do IP3, que liga Viseu e Coimbra.

“Quando estamos a decidir fazer esta obra estamos a decidir não fazer evoluções nas carreiras ou vencimentos.” A declaração do primeiro-ministro é clara. Não vai ceder aos argumentos do PCP ou do Bloco sobre o descongelamento integral de nove anos das carreiras dos docentes. O custo da intervenção no IP3 são 134 milhões de euros, e sem espaço para a introdução de portagens.

O primeiro-ministro insistiu: “É preciso ter em conta que, quando decidimos fazer esta obra, significa que estamos, simultaneamente, a decidir não fazer outra obra.” O aviso tinha um destinatário: os sindicatos de professores. Os recursos são limitados, mas o PS parece estar apostado numa nova bandeira, a do investimento público.

Mais a sul, o líder parlamentar, Carlos César, fez o discurso de que o Alentejo tem ficado em segundo plano e que o momento é de inverter a tendência.

Nas jornadas parlamentares, que terminam hoje na Pousada do Alqueva, César confessou o objetivo das visitas aos concelhos de Beja e Évora: “Viemos para aprender e apreender. Saímos daqui com a convicção do que é prioritário.” Os socialistas prometem pressionar o executivo a incluir Beja no mapa do plano nacional de investimentos, o projeto sobre o qual o chefe de governo já pediu uma maioria de dois terços no parlamento, facto que irritou Os Verdes no último debate quinzenal com António Costa.

Memórias do pec IV

No PS, o discurso de crise política tem um preço e uma memória. Em 2011, com o chumbo do PEC iv, do então primeiro-ministro José Sócrates, abriu-se a porta a eleições antecipadas e a esquerda foi penalizada por ajudar o PSD e o CDS a derrubarem o executivo. Os riscos são elevados, apesar de a História não se repetir. Este fim de semana, o ministro do Trabalho deu corpo à voz corrente de vários parlamentares. “Hoje, os eleitores são muito exigentes a esse respeito e estão à espera de que esta legislatura termine, e termine nesta lógica de compromissos”, declarou Vieira da Silva ao “DN”.

No dia em que o primeiro- -ministro voltou a dizer que não haverá dinheiro para se fazer tudo, a coordenadora do Bloco de Esquerda atacou o executivo. “É pouco prudente que o governo esteja à espera da muleta do PSD para quebrar o compromisso”, defendeu Catarina Martins, aludindo à situação dos professores.

pacote laboraL Os comunistas apelaram ao protesto no dia 6 de julho, data da discussão no parlamento sobre o pacote de medidas de alterações legislativas laborais, e, hoje, o Bloco senta à mesma mesa Carvalho da Silva, antigo líder da CGTP, a coordenadora do BE e o deputado José Soeiro para discutir a “valorização laboral”.

Ainda não é certo se o PSD votará a favor das propostas do governo ou se optará pela abstenção. A decisão deve ser tomada esta quinta-feira, dia 5, com a hipótese de se fazerem algumas propostas de alteração. E tudo depende da estratégia que os socialistas adotarem: se as alterações mudarem o acordo de concertação social, então, o PSD não passará cheques em branco aos socialistas.

Agora, tudo depende da geometria parlamentar. Basta que os partidos à direita do PS se abstenham para assegurar a aprovação dos diplomas, num dia que servirá para medir o nível de tensão entre os partidos que sustentam o executivo.

As negociações para o Orçamento do Estado de 2019 ainda não entraram no detalhe de propostas concretas, mas os comunistas sublinham que não aceitam pressões nem do Presidente da República nem do primeiro-ministro para votarem favoravelmente o documento.

No Bloco de Esquerda, o discurso varia entre a cautela e o ataque. “O que está a acontecer neste primeiro semestre de 2018? António Costa perdeu a estrelinha, demonstrou que as suas escolhas são mero jogo político. E dá razão ao Bloco de Esquerda: a ausência histórica de entendimentos à esquerda não foi defeito da esquerda. Foi feitio do PS. E só aconteceram em 2015 porque a esquerda teve força para os impor e o PS não teve força para lhes resistir. O mel com que a esquerda era tratada passou recentemente a fel”, escreveu Pedro Filipe Soares, líder parlamentar, num artigo de opinião no “DN”. Entre os bloquistas, o sentimento é o de esperar para ver até onde vai António Costa e se há a tentação de obrigar o Bloco ou o PCP a romperem a corda.

Costa garante que a geringonça vai continuar

Miguel SilvaLUÍS CLARO03/07/2018 13:53

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“Queremos continuar este caminho com a companhia que temos”, disse o secretário-geral do PS

António Costa dedicou boa parte do seu discurso, no encerramento das jornadas parlamentares do PS, ao acordo entre os socialistas e os partidos à sua esquerda. O secretário-geral do PS garantiu que “quando se está bem acompanhado não se deseja mudar de companhia”.

Costa quis aliviar o clima de tensão e defendeu que o acordo à esquerda deve ser renovado. “Queremos continuar este caminho com a companhia que temos porque nos sentimos bem acompanhados”, disse.

O líder socialista pediu “estabilidade” e alertou que a proximidade das eleições legislativas não deve afetar as negociações do Orçamento. “Não será por ser ano de eleições que vamos pôr em causa tudo aquilo que conseguimos”.

Costa referiu, porém, que o PS é “essencial” para que a geringonça exista e “funcione”.

Acordo entre Merkel e Seehofer adia crise política na Alemanha

Andreia Martins - RTP03 Jul, 2018, 11:51 / atualizado em 03 Jul, 2018, 12:16 | Mundo

Acordo entre Merkel e Seehofer adia crise política na Alemanha

O acordo entre a CDU e a CSU prevê a rejeição de requerentes de asilo que estejam registados noutro país da União Europeia. | Hannibal Hanschke - Reuters

A chanceler alemã e o líder bávaro alcançaram um entendimento sobre as políticas migratórias que prevê a criação de “centros de trânsito” para conter a migração secundária. O documento tenta salvar a coligação de Governo e impede para já a demissão do ministro alemão do Interior, mas a sua aprovação depende agora da palavra final do SPD e de um novo acordo com os vizinhos austríacos.

É uma aparante cedência por parte da chanceler alemã que evita um cenário imediato de crise política no executivo alemão. Depois de várias semanas de confronto, Angela Merkel, da CDU (União Democrática Cristã), e Horst Seehofer, líder da CSU (União Social Cristã), chegaram a um entendimento sobre a questão migratória.

Os detalhes ainda não são totalmente conhecidos, mas sabe-se que este inclui a criação de “centros de trânsito”, à imagem de zonas de segurança em aeroportos internacionais onde se faz o controlo alfandegário e de passaportes. Na prática, estes centros não serão considerados território alemão, o que fará com que seja mais fácil deportar migrantes, refere a agência Reuters.

O acordo prevê também recusar a entrada de requerentes de asilo junto à fronteira com a Áustria caso estes estejam registados noutro país da União Europeia. 

As medidas pretendem, desta forma, conter as “migrações secundárias”, ou seja, o movimento de migrantes dentro do Espaço Schengen, uma vez que muitos chegam a outros países europeus acabam por escolher a Alemanha como destino. 

O entendimento chegou cinco horas depois de uma reunião realizada esta segunda-feira, em que Angela Merkel, no poder há mais de 12 anos, tentou evitar a demissão iminente do seu ministro do Interior. Horst Seehofer chegou mesmo a ameaçar bater com a porta no último domingo, dando três dias à chanceler para propor novas medidas satisfatórias. Ao fim de 24 horas, havia um acordo selado entre os dois líderes. 

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“O espírito de parceria na União Europeia é preservado e, ao mesmo tempo, estamos a dar um passo importante para impor ordem e controlar a migração secundária. Encontrámos um bom compromisso após duras negociações e dias difíceis”, disse a chanceler aos jornalistas.

Por sua vez, o ministro do Interior, que ocupa igualmente a liderança da CSU – partido bávaro aliado da CDU há quase 70 anos – assumiu estar satisfeito com um “acordo claro” que visa “conter a imigração ilegal na fronteira entre a Alemanha e a Áustria”.

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A questão migratória foi um ponto de enorme tensão nas últimas semanas entre as duas forças políticas irmãs que não concorrem uma contra a outra em eleições desde 1949 e chegou a colocar em risco a estabilidade do Governo de Angela Merkel.

Vários responsáveis da CSU arrastaram o tema da migração para o topo da agenda mediática, assumindo perante o seu eleitorado uma posição bastante mais rígida sobre os migrantes, quando faltam menos de quatro meses para as eleições na Baviera, onde a AfD (Alternativa para a Alemanha, partido de extrema-direita) tem registado um crescimento significativo em sondagens recentes que ameaça a maioria absoluta dos conservadores aliados de Merkel. 

Enquanto o ministro do Interior defende, desde o início do mandato, em março deste ano, a rejeição de migrantes registados noutros países europeus junto das fronteiras alemãs, a chanceler tem optado por dar prioridade a uma solução ao nível europeu no âmbito das questões migratórias, como a que foi alcançada na última sexta-feira, durante a recente cimeira europeia.

O que diz o SPD?

Com este novo acordo, Angela Merkel cede à agenda do ministro para garantir a sobrevivência do Governo. Mas há outro parceiro nesta equação que poderá não facilitar a nova posição conjunta da CDU e CSU. Os social-democratas do SPD, que também fazem parte da “grande coligação” que governa a Alemanha, querem ver esclarecidos vários pontos deste acordo.

“Ainda há muitas questões que precisam de ser clarificadas. Vamos demorar o tempo que precisarmos para tomar uma decisão”, disse esta terça-feira a presidente do partido, Andrea Nahles, citada pela imprensa alemã.

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Até que seja dado o aval pelo SPD, o Governo de Merkel continua em risco de colapso, uma vez que os social-democratas assumem uma posição bastante mais flexível na temática das migrações. 

No domingo, o partido tinha delineado um plano em cinco pontos para fazer face à questão migratória, onde se opõe a qualquer “ação unilateral para recusar pessoas em fronteiras nacionais, dentro da União Europeia”. 

Independentemente da direção escolhida pelo SPD, a revista Der Spiegelconsidera, em editorial, que o que se passou na noite de domingo, com a ameaça de demissão de Hosrt Seehofer, deixou marcas irreparáveis na política alemã. Para a publicação germânica, a chanceler conseguiu o que era exigido pela CSU na cimeira europeia, e a insistência na questão migratória por parte do ministro do Interior pode ter consequências para o país em termos políticos. 

Na decisão do SPD, a ser conhecida nas próximas horas após reunião com os restantes parceiros de coligação, poderá pesar o comportamento do partido nas mais recentes sondagens, uma vez que a recusa do acordo entre CDU e CSU poderá precipitar a queda do Governo. 

Os dados mais recentes não são animadores perante um cenário eventual de eleições federais antecipadas, até porque as sondagens continuam a colocar os social-democratas abaixo dos 20 por cento, muito próximo da AfD, que ultrapassa nesta altura os 16 por cento.

E a Europa?

Pelo que já se sabe do acordo celebrado na segunda-feira entre Merkel e Seehofer, a abertura de “centros de trânsito” nas fronteiras alemãs poderá ter repercussões imediatas para outros países circundantes.  

Ao final da manhã, o presidente da Comissão Europeia afirmava que o acordo vai ser analisado por peritos europeus, mas que "à primeira vista" parecia estar em linha com as leis europeias.

"Ainda não estudei po acordo em detalhe. (...) Pedi aos serviços jurídicos que o analisem, mas parece-me estar alinhado com a lei", disse Jean-Claude Juncker numa declaração aos jornalistas em Estrasburgo.

Quem também já está a escrutinar este entendimento é a Áustria. O país vizinho, que faz fronteira com a região sul da Alemanha, disse esta manhã que está “pronto” a proteger as suas próprias fronteiras, caso o acordo firmado entre a CDU e a CSU seja implementado. 

“Se este acordo se tornar na posição oficial do Governo alemão, vamos tomar medidas para prevenir as consequências negativas para a Áustria e para a sua população”, frisou o chanceler austríaco, Sebastian Kurz, numa declaração conhecida esta manhã. 

Viena pede ao Governo de Merkel que “esclareça a sua posição”, mas garante que “o Governo está pronto para tomar as medidas necessárias para proteger as nossas fronteiras”, refere o comunicado conjunto do executivo austríaco citado pelas agências internacionais.

O acordo firmado entre CDU e CSU prevê que o Governo alemão procure um entendimento bilateral com a Áustria sobre o que fazer no caso de outros países da União Europeia se recusarem a aceitar de volta os requerentes de asilo registados nos seus países.