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segunda-feira, 23 de julho de 2018

O declínio das democracias e o poder de atração dos modelos autoritários

Gustavo Sampaio

11:31

Enquanto as democracias se debatem com uma crise de confiança e regressões em liberdades fundamentais (inclusive nos EUA e na UE), modelos autoritários como o chinês e o russo parecem assumir-se como alternativa. Que fatores contribuem para esta mudança de referências? A democracia é um modelo exclusivamente ocidental ou tem um carácter universal?

No final do século XX, derrubado o “muro de Berlim” e desintegrada a URSS, a História parecia obedecer como que a leis físicas de evolução (o progresso do historicismo hegeliano), movendo-se num sentido irresistível: o triunfo da democracia liberal ocidental e subsequente expansão ao nível global. “O Fim da História e o Último Homem”, proclamou o cientista político nipo-americano Francis Fukuyama, em 1992.

No ano anterior, o colega Samuel P. Huntington publicara “The Third Wave – Democratization in the Late Twentieth Century”, no qual identificou três vagas de democratização. A primeira vaga surgiu no início do século XIX, quando a jovem democracia dos EUA concedeu o direito de voto à maioria dos homens brancos, inspirando outras nações. No seu auge, a primeira vaga resultou em 29 democracias, mas os conflitos mundiais da primeira metade do século XX provocaram um refluxo e o número de democracias caiu para 12 até meados de 1945.

A segunda vaga desenvolveu-se sobre os escombros da II Guerra Mundial e atingiu o zénite em 1962, com 36 democracias. Seguiu-se outro refluxo e uma queda para 30 no início da década de 1970, mas não tardou o advento de um novo impulso com a “Revolução dos Cravos” em Portugal, a 25 de abril de 1974, dando início à terceira vaga que incluiu dezenas de transições democráticas na América Latina, Ásia-Pacífico, Europa de Leste e África subsariana. Na década de 1990, perante mais de uma centena de democracias no total (embora muitas ainda não consolidadas) e os EUA a assumirem o estatuto de hiper-potência solitária, Fukuyama vislumbrou então “O Fim da História”.

Contudo, a História regressou no dia 11 de setembro de 2001, sob a forma de atentados terroristas em solo norte-americano. Os fracassos de nation-building no Iraque e no Afeganistão, a ascensão da China e o retorno da Rússia à lógica da Guerra Fria (o velho jogo de soma zero) dissiparam o “momento unipolar” dos EUA. As “Primaveras Árabes” lançadas em 2010 pareciam estar a semear uma quarta vaga de democratização, com epicentro no Norte de África e Médio Oriente, mas fracassaram quase todas (ou degeneraram em guerras). De acordo com o relatório “Freedom in the World 2018” da Freedom House, há 12 anos consecutivos que se verifica um declínio na liberdade global.

“Enorme descontentamento”

Que fatores têm contribuído para esta crise das democracias? “O relatório parece indicar que poderemos estar a assistir a uma vaga de reversão democrática. Parafraseando Yascha Mounk, que publicou recentemente um livro sobre a crise da democracia liberal e a emergência do populismo, sucedem-se longas décadas em que a História quase parece estagnar e períodos curtos marcados por mudanças rápidas e intensas. Após cerca de duas décadas em que a democracia liberal, o capitalismo e os valores ocidentais em geral pareciam não ter rivais, sendo as principais fontes de legitimidade na arena internacional (não foi por acaso que Vladimir Putin adotou a retórica ocidental da defesa dos direitos humanos para justificar a invasão da Geórgia e a anexação da Crimeia), parecemos estar a viver um momento de rápidas mudanças, marcado pela atração pelo autoritarismo e o populismo a este ligado umbilicalmente”, responde Samuel de Paiva Pires, professor de Relações Internacionais na Universidade da Beira Interior.

“Julgo que a crise financeira de 2008 pode ser apontada como o evento inicial de uma série de acontecimentos e processos que estão na origem do momento atual. A turbulência que se lhe seguiu, quer nos EUA quer na Europa, com especial destaque para a crise do euro, veio fomentar a ideia de que na globalização económica há vencedores (as elites dos países mais ricos e as classes médias que emergiram na China, Índia, Brasil e outros países em desenvolvimento) e perdedores (as classes médias dos países desenvolvidos). Esta ideia, ainda que verdadeira, passou a ser habilmente utilizada e explorada por determinados políticos, populistas, em regimes demo-liberais com o duplo objetivo de conquistar segmentos do eleitorado prejudicados pela globalização e contestar as elites que a fomentaram ao longo das últimas décadas. Por outro lado, os níveis de desigualdade na distribuição de riqueza em países como os EUA ou o Reino Unido aumentaram ao ponto de ameaçarem a estabilidade social dos regimes demo-liberais”, sublinha Paiva Pires.

“A regressão democrática é tanto mais grave quanto inclui um certo número de países importantes, entre os quais alguns europeus (Brasil, Turquia, Filipinas, Venezuela, Hungria, Polónia). Os casos são diferentes e os fatores distintos, desde a expansão das correntes islâmicas até à corrupção política, passando pela ressurgência dos nacionalismos e movimentos racistas”, alerta Carlos Gaspar.

Por sua vez, Álvaro Vasconcelos, fundador do Instituto de Estudos Estratégicos e Internacionais de Lisboa, destaca três fatores: “Primeiro resulta da convicção dos cidadãos de que a sua capacidade para influenciar a política diminuiu profundamente e que as decisões são tomadas por forças que escapam ao seu controlo, como as forças do mercado e dos grandes financiadores das campanhas eleitorais; em segundo lugar resulta da falta de convicção democrática das elites dirigentes e a sua preferência por soluções tecnocráticas; e em terceiro lugar resulta do enorme descontentamento das classes médias dos países desenvolvidos que viram o seu nível de vida estagnar e, em alguns casos, regredir”.

Na perspetiva de Carlos Gaspar, investigador do Instituto Português de Relações Internacionais da Universidade Nova de Lisboa, “a regressão democrática é tanto mais grave quanto inclui um certo número de países importantes, entre os quais alguns europeus (Brasil, Turquia, Filipinas, Venezuela, Hungria, Polónia). Os casos são diferentes e os fatores distintos, desde a expansão das correntes islâmicas até à corrupção política, passando pela ressurgência dos nacionalismos e movimentos racistas. Mas o quadro geral aponta para uma inversão da ‘terceira vaga’ de democratização e assinala o fim de um ciclo longo de expansão democrática internacional, que se iniciou com a viragem pós-autoritária e pós-colonial em Portugal”.

“Líderes fortes e autoritários”

Como é que se explica a crescente atração por modelos autoritários como o chinês e o russo? “Há uma atração maior pelos regimes autoritários, incluindo numa parte das elites europeias que se podem rever no regime fascista do presidente Vladimir Putin ou no regime comunista do presidente Xi Jinping. A insegurança, o medo da mudança e o fascínio pelo poder bruto explicam a viragem, que está longe de ser inédita. No século passado, uma parte importante dos intelectuais europeus aclamou, à vez ou em campos opostos, personagens tão sinistros como Mussolini, Hitler, Estaline e Mao”, argumenta Gaspar.

Por seu lado, Vasconcelos traça uma clara distinção entre os modelos russo e chinês. “No caso da Rússia, mais do que o modelo de organização da sociedade, em que muito poucos se revêem, o que lhe granjeia apoios é o nacionalismo de Putin e a sua capacidade para enfrentar os EUA. O caso do modelo chinês é diferente. Dado o seu sucesso económico e a saída da pobreza de centenas de milhões de pessoas, aparece como um modelo não para as democracias, mas para países com regimes autoritários e com problemas de pobreza sérios. Creio que o modelo que ganha adeptos em certos setores das elites é o que Viktor Orbán chamou de ‘democracia iliberal’, ou seja, um regime com eleições, mais ou menos livres, mas onde as liberdades fundamentais e o estado de Direito são frágeis. Pode inspirar-se em Putin, mas não se revê na Rússia”.

“O liberalismo comete um erro capital ao negligenciar a importância que os indivíduos dão à segurança não apenas entendida no sentido restrito, mas num sentido amplo que inclui as dimensões económica, identitária e existencial. A importância destas dimensões explica, em boa parte, a atração por ideologias totalitárias e por líderes fortes e autoritários”, argumenta Samuel de Paiva Pires.

Enquanto Paiva Pires aponta noutro sentido, afirmando que “o paradigma liberal dominante no Ocidente aspira à neutralidade no que diz respeito à concepção do bem e é esparso quanto a considerações sobre a virtude. Dá prioridade aos direitos dos indivíduos e à liberdade destes na definição e prossecução dos seus objetivos e das suas noções de vida boa, mas negligencia, quando não chega mesmo a contestar, entendimentos comunais do que seja uma vida boa e as virtudes necessárias para tal vida. Não surpreende, por isso, que a religião tenha sido remetida quase exclusivamente para a esfera privada, que o Estado soberano seja contestado de diversas formas e em vários níveis de atuação e que qualquer forma de nacionalismo, saudável ou degenerada, seja vista como uma ameaça”.

“Acontece que a liberdade individual, por mais importante que seja, não é garantia da adesão e respeito pelas normas democráticas, especialmente quando se descuida a promoção das virtudes cívicas. Como salienta Roger Scruton a partir de uma leitura de Huntington, a liberdade e a tolerância não são suficientes para defender uma civilização”, prossegue Paiva Pires. “O liberalismo comete um erro capital ao negligenciar a importância que os indivíduos dão à segurança não apenas entendida no sentido restrito, mas num sentido amplo que inclui as dimensões económica, identitária e existencial. A importância destas dimensões explica, em boa parte, a atração por ideologias totalitárias e por líderes fortes e autoritários, ou seja, por ideologias ou políticos que prometem responder aos anseios existenciais dos indivíduos e garantir-lhes meios para um modo de vida satisfatório”, conclui.

“Diversas culturas”

Os valores democráticos são intrinsecamente ocidentais e dificilmente poderão ser “exportados” para outras regiões como o Médio Oriente ou determinadas nações do Extremo Oriente? Ou acredita no seu carácter universal? “A democracia não é um modelo ocidental. Foi adotada e está a funcionar em diversas culturas na Ásia, África, América Latina e até num país árabe, a Tunísia”, responde Larry Diamond, fundador do “Journal of Democracy” e professor de Ciência Política na Stanford University (Califórnia, EUA). “Claro que, em muitos desses países, a democracia enfrenta desafios. Mas também os enfrenta na Europa e nos EUA. Não me refiro a ‘exportar’ a democracia, implicando que o Ocidente tem o modelo e os outros devem “importar” esse modelo. A democracia é um conjunto de regras básicas de autogoverno, Estado de direito e proteção de direitos individuais. As formas institucionais específicas devem ser adaptadas por cada país, atendendo às suas necessidades e circunstâncias”, sublinha Diamond.

“A democracia não é um modelo ocidental. Foi adotada e está a funcionar em diversas culturas na Ásia, África, América Latina e até num país árabe, a Tunísia”, salienta Larry Diamond.

Perante a mesma questão, Gaspar defende que “os valores da liberdade, do direito e da dignidade da pessoa humana têm uma origem humanista, cristã e ocidental e são universais. Os europeus, os americanos ou os asiáticos que defendem esses valores e a sua universalidade não têm que deixar de o fazer. E tanto melhor se incomodam os déspotas, os fanáticos e os terroristas de todos os bordos. Mas as democracias europeias, ocidentais ou asiáticas não devem cometer o erro de impor pela força os seus valores”.

Quanto a Vasconcelos, responde da seguinte forma: “Creio que a aspiração democrática é universal, aliás como demonstram numerosos estudos, por exemplo o ‘World Values Survey‘. Esta enorme sondagem mundial demonstra como não faz sentido pensar que os cidadãos dos países árabes não querem a democracia. Os egípcios não estão a ter eleições livres, não porque não as quisessem, mas porque a ditadura militar impôs, pelas armas, o fim do processo democrático e lançou na prisão 50 mil opositores”.

“Zona de paz liberal”

É possível ocorrer um “efeito dominó” de democracias a regredirem para regimes mais autoritários, em busca de uma maior eficiência económica? O denominado “Consenso de Pequim” poderá superar o “Consenso de Washington” no futuro próximo? “É difícil e arriscado fazer previsões sobre uma realidade tão ampla e complexa. Creio que essa possibilidade depende muito de como as sociedades demo-liberais lidarem com os movimentos populistas no seu seio e isto será determinante para percebermos se estamos mesmo perante uma vaga de reversão da democracia. Que é uma possibilidade, é algo que fica patente se considerarmos o número de obras que têm vindo a ser publicadas sobre este tema, especialmente por autores norte-americanos que começam a colocar em perspetiva a possibilidade de os EUA se tornarem um regime autoritário. Os EUA são o ator central na ordem liberal internacional, lideram aquilo a que Michael Doyle se refere como a ‘zona de paz liberal’, uma atualização da teoria da paz democrática derivada da ideia de paz perpétua de Kant, iniciada no século XVIII e atualmente composta por cerca de 100 países, pelo que a sua aparentemente inimaginável transição para um regime de carácter autoritário seria um golpe fatal na ordem liberal internacional e poderia certamente gerar um efeito dominó”, responde Paiva Pires.

“Todavia, penso que o alarmismo é manifestamente exagerado”, ressalva. “A democracia norte-americana certamente sobreviverá a Trump, os regimes demo-liberais encontram-se consolidados e, como Conceição Pequito salienta no livro “Qualidade da Democracia em Portugal”, recentemente publicado, a tese da recessão democrática resulta mais da ausência de processos de democratização em países não-democráticos do que de retrocessos democráticos, não sendo despiciendo referir que a maioria dos regimes autoritários existentes encontra-se em países que não possuem condições favoráveis para que aí ocorram processos de democratização”.

“As democracias podem reformar-se. Para isso devem repensar a relação entre partidos políticos e grandes grupos financeiros, devem tornar-se mais participativas e devem criar condições para uma verdadeira alternância política”, defende Álvaro Vasconcelos.

“Claro que podemos perguntar-nos se será desejável que estes processos ocorram (obviamente, o ‘ranking’ da Freedom House parte do princípio que sim), se os regimes demo-liberais devem procurar promovê-los e qual o impacto que estas transições podem ter numa ordem internacional que ainda se vai regendo pelos princípios vestefalianos do respeito pela soberania estatal e da não ingerência nos assuntos internos de outros Estados (mesmo que, frequentemente, na prática a teoria seja outra). O histórico de tentativas de exportação da democracia não abona a favor dos EUA e os resultados da ‘Primavera Árabe’ não foram particularmente animadores. Mas se partirmos da premissa de que a teoria da paz democrática está certa (a evidência empírica atesta-o, pois as democracias liberais não se confrontam militarmente), nada impede que as democracias liberais continuem a prosseguir a estratégia liberal aconselhada por Doyle, preservando a ‘zona de paz liberal’, quer em termos de segurança coletiva quer mitigando as consequências negativas da globalização e do funcionamento da economia de mercado (algo que me parece essencial para desarmar a retórica populista). E expandindo esta zona através da difusão dos seus valores políticos e culturais para países não-democráticos e intervindo militarmente apenas quando necessário para opor resistência a governos autoritários que violam sistematicamente os direitos humanos”, argumenta.

Para Gaspar, “é um erro pensar que o declínio conjuntural das democracias ocidentais anuncia a decadência irrversível do Ocidente. É o erro que cometem, tipicamente, as elites autoritárias em Moscovo ou em Pequim, que não aprenderam nada com a Guerra Fria, com a dissolução da União Soviética ou com as manifestações de Tiananmen. De resto, o modelo chinês já teve uma maior projeção internacional do que tem hoje, quando as consequências da sua penetração externa, nomeadamente em África, se começam a fazer sentir mais negativamente”.

Ao passo que Vasconcelos crê que “as democracias podem reformar-se. Para isso devem repensar a relação entre partidos políticos e grandes grupos financeiros, devem tornar-se mais participativas e devem criar condições para uma verdadeira alternância política. Na Europa, o progresso na democratização do processo europeu ajudaria a uma regeneração das democracias dos estados-membros. A este propósito é de salientar a má notícia que foi a recusa de listas supranacionais para o Parlamento Europeu”.

[*] Artigo originalmente publicado no dia 29 de março de 2018.

Energia e alterações climáticas trazem Macron, Sánchez e Juncker a Lisboa esta sexta-feira

Almerinda Romeira

Ontem 14:38

A interconexão das redes permite o transporte de eletricidade e de gás, uma questão considerada fundamental por Portugal e Espanha. A Penísnula Ibérica tem sido considerada uma "ilha energética".

O futuro das interconexões energéticas da Península Ibérica com o resto da Europa estará em debate na próxima sexta-feira, 27 de julho, numa cimeira que, além do primeiro-ministro português, António Costa, junta o presidente do Governo espanhol, Pedro Sánchez, o presidente francês, Emmanuel Macron, e o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker. Na cimeira, está igualmente prevista a participação do presidente do Banco Europeu de Investimentos (BEI), Werner Hoyer.

A reunião tem como objetivo avançar numa questão considerada fundamental por Portugal e Espanha.

O assunto foi abordado no primeiro encontro Costa e Sánchez, realizado a 2 de julho em Lisboa, pouco depois do espanhol ter assumido a presidência do governo. Aquando do seu anúncio, a agência Lusa noticiou, citando fonte governamental, que “o objetivo central da cimeira é avançar no cumprimento do objetivo europeu em matéria de energia e combate às alterações climáticas”.

Antes do início da cimeira, António Costa terá um almoço de trabalho com Emmanuel Macron.

A interconexão das redes permite o transporte de eletricidade e de gás.

Em 5 de janeiro de 2015, os operadores de Portugal, Espanha e França assinaram um acordo para o desenvolvimento de projetos com vista a aumentar as interconexões de eletricidade entre a Península Ibérica e o resto da Europa. Este documento estratégico foi considerado fundamental para atingir o nível mínimo de interconexões de 10% aprovado no Conselho Europeu de outubro de 2014.

AccuWeather: “Número de mortos no Japão pode chegar aos milhares antes que a vaga de calor termine”

HÁ 8 MINUTOS

Uma vaga de calor no Japão já matou pelo menos 44 pessoas desde 9 de julho, mas poderão existir centenas de mortes não registadas.

Com as temperaturas a ultrapassarem frequentemente os 35º C, a população opta por se proteger do Sol com chapéus-de-chuva

Yuichi Yamazaki/Getty Images

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Depois das chuvas torrenciais, o Japão enfrenta agora uma vaga de calor que já terá matado mais de 44 pessoas desde dia 9 de julho — só este sábado terão morrido pelo menos 11 —, noticiou a CNN. Dez mil pessoas foram hospitalizadas devido à vaga de calor no mesmo período, noticiouThe Japan Times.

No domingo, às 7h30, Tóquio já tinha os termómetros nos 32 graus Celsius e a maior parte do país estava em alerta para as altas temperaturas, noticiou a Kyodo News. Na segunda-feira, Kumagaya, perto de Tóquio, bateu os máximos de temperatura alguma vez registados no país e chegou aos 41,1º C. Já na quarta-feira, a cidade de Tajimi tinha batido o recorde quando atingiu os 40,7º C, referiu o site AccuWeather. Por sua vez, a cidade de Kyoto teve, durante sete dias seguidos, temperaturas acima dos 38º C, algo que nunca tinha acontecido desde que há registo (no início do século XIX).

“A AccuWeather estima que o número de mortos no Japão devido à vaga de calor já esteja nas centenas apesar de os números oficiais só falarem de pouco mais de duas dezenas e prevemos que os números subam até aos milhares antes que a vaga de calor termine”, disse Joel N. Myers, presidente e fundador da AccuWeather, uma empresa que fornece serviços de previsão meteorológica para todo o mundo desde 1962. Para o Joel Myers, o número de mortos por causa da vaga de calor poderá nunca chegar a ser conhecido, por um lado, nem sempre as mortes associadas ao calor são reportadas como tal, por outro, o calor pode fazer acelerar o desenvolvimento de doenças graves que só provocam a morte semanas depois.

O Japão começou o mês de julho com mais de 200 mortos e centenas de feridos devido chuvas torrenciais, inundações e aluimentos de terra no oeste do país. O tempo mais seco que se seguiu poderia ajudar os milhares de agentes no terreno, mas as elevadas temperaturas põe em risco não só as equipas de salvamento, como as pessoas que continuam desalojadas devido ao resultado da tempestade — cerca de 4.500 a viver em abrigos. Sem falar que nos locais afetados pelas cheias ainda há escassez de água potável e corre-se o risco de disseminação de doenças.

António Costa ao NYTimes: “Não passámos do lado escuro para o lado luminoso da Lua”

HÁ 34 MINUTOS

A política da Geringonça mereceu a atenção do The New York Times: "Portugal ousou livrar-se da austeridade. Está a ter uma grande retoma". Costa diz que ainda não passou "para o lado luminoso da lua".

NUNO VEIGA/LUSA

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A melhoria da situação económica em Portugal despertou a atenção de Liz Alderman, antiga editora de economia do International Herald Tribune, agora correspondente-chefe do The New York Times para a Economia na Europa, a partir de Paris. A jornalista lembrou os passos dados para reverter os efeitos da crise desde que António Costa tomou posse em 2015 e referiu-se à eleição de Mário Centeno para o Eurogrupo como uma “recompensa” de Bruxelas pelos resultados alcançados.

O que aconteceu em Portugal mostra que demasiada austeridade aumenta a recessão e cria um ciclo vicioso”, disse António Costa, citado pelo The New York Times. “Criámos um plano alternativo à austeridade, focando-nos num maior crescimento e em mais e melhores empregos.”

Ao contrário do que aconteceu na Grécia, com uma década de cortes nas despesas, a recuperação de Portugal teve um efeito benéfico no aumento de confiança das pessoas e das empresas.  “O gasto real com estímulo foi muito pequeno”, afirmou ao jornal João Borges de Assunção, professor da Faculdade de Ciências Económicas e Empresariais, da Universidade Católica de Lisboa. “Mas a mentalidade do país tornou-se completamente diferente e, de uma perspetiva económica, isso tem mais impacto do que a mudança real na política.”

“Portugal beneficiou muito depois dos anos duros que sofremos. A disposição está muito melhor do que antes e isso e importante para a economia”, concorda outro dos entrevistados, Jorge de Melo, recentemente apontado para CEO da Sovena.

Mas o salário mínimo português, de 580 euros, continua a ser o mais baixo da zona Euro. Além disso, o crescimento económico abrandou, os salários recuperaram, mas não aumentaram em relação ao período pré-crise, os trabalhadores em part-time continuam a ser mal pagos e as vulnerabilidades sociais mantêm-se, sublinha-se no artigo.

“Não passámos do lado escuro para o lado luminoso da Lua. Ainda há muito por fazer”, admitiu António Costa. “Mas quando começámos este processo muitas pessoas disseram que o queríamos atingir era impossível. Mostrámos que há alternativa.”

Entre as brumas da memória

É o mínimo...


Posted: 22 Jul 2018 01:45 PM PDT

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Era uma vez um pirata honrado

Posted: 22 Jul 2018 10:00 AM PDT

Francisco Louçã no Expresso Economia de 21.07.2018:

«Era uma vez um pirata honrado, uma bruxa formosa e um lobito bom, que era maltratado por todos os cordeiros, quando Paco Ibañez cantava este mundo ao contrário em versos de Goytisolo. Lembra-se dele? A recente cimeira de Helsínquia foi como este mundo fantasioso, em que dois piratas não tão honrados se encontram para prosseguir a sua corrida comum. Já tudo se sabe sobre o que trataram e sobre a vitória estrepitosa de Vladimir Putin ao levar Donald Trump a admitir que confiava nas garantias do Presidente russo sobre a não interferência nas eleições norte-americanas. Traidor, disse-se nos EUA, e mesmo entre os apoiantes do Presidente houve algum incómodo por causa desta cedência pacóvia. É o mundo ao contrário, mas porque é que dois piratas não haveriam de acreditar nas fábulas um do outro? Ora, levemo-los a sério e imaginemos então, só por um momento, como seria o mundo se fosse ao invés do que nos dizem e prometem.

Trump ganharia a sua reeleição, adorado pelos seus apoiantes de uma direita radicalizada no ódio imperial aos outros povos, iluminada por inspirações religiosas e prometendo mobilizar as energias militares e o controlo político para criar um mundo temente a Washington, submetendo aliados e apoiando as investidas dos empresários que se escudam no Presidente agente económico.

Trump e Putin dividiriam o mundo em zonas de influência, deixando ao primeiro as mãos livres para um confronto com a China, numa guerra comercial eternizada por sanções e contrassanções. No meio, as instituições da globalização liberal seriam enfraquecidas, a Organização Mundial do Comércio porque não pode ser, a ONU porque é um embaraço. Quanto à NATO, não se exagere, bastaria que continue a assumir o dever estatutário de cumprir as ordens do Pentágono.

Neste mundo ao contrário, a União Europeia poderia desfazer-se por dentro, como vai acontecendo agora à vista de toda a gente. Orban conseguiria aliar-se a Salvini e à CSU da Alemanha e constituir a Internacional Populista, o tradicional Partido Popular Europeu perderia grande parte da sua força na eleição europeia e, se se conservar ainda na posição de primeiro partido, será porque as outras famílias dominantes se esfarelaram em múltiplas seitas. Macron leva uma parte dos liberais e dos socialistas, o Partido Socialista Europeu soçobra, e a esquerda, que se reforça, não tem uma proposta unificada. O Leste está mais próximo de Putin do que de Bruxelas e, quando a crise financeira sacudir a Europa, o euro volta a clamar por troikas.

Acontece o impossível, voltam os fantasmas do passado e as caricaturas tomam o poder. Mas acha mesmo que este mundo em que Trump e Putin se aliam e em que tudo o que era sólido se dissolve está assim tão longe de nós?»

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Viver em Gaza

Posted: 22 Jul 2018 06:01 AM PDT

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Política e ética

Posted: 22 Jul 2018 03:39 AM PDT

«Nesta última semana tivemos, em Portugal e no plano internacional, comportamentos de alguns políticos que causam indignação e deixam, ao cidadão comum, acrescidas desconfianças para o futuro. Trump foi, uma vez mais, a expressão limite da amoralidade, da utilização descarada da mentira, da negação de valores e princípios éticos que se exigem no exercício da política. E não faltam por aí atores políticos com total desprezo pela verdade e dispostos a mobilizar os cidadãos contra a democracia e pela negação da política. Na Assembleia da República (AR) assistimos a um comportamento desses: Manuel Pinho achincalhou os deputados e gozou com os portugueses, talvez por acreditar que os buracos nas leis, o espaço para manobras processuais e o arrastamento dos processos judiciais, e a sobreposição do poder económico ao poder político lhe permitirão passar impune. A sua arrogância e sobranceria foram chocantes.

Entretanto, também esta semana, vimos partir um político exemplar - João Semedo - um Homem de enorme humanismo e compromisso com as gerações futuras, que dedicou a vida à causa pública buscando como contrapartida a construção de vida mais feliz para o conjunto dos seres humanos - sempre a partir da defesa dos que mais precisam - e por consequência para ele. Era esse o alimento da alegria que nos mostrava nas horas boas e más dos combates políticos, sociais ou culturais em que se envolveu, a partir de uma militância empenhada primeiro no PCP e depois no BE.

Este contraste desafia-nos a uma reflexão séria sobre o que se passa com o exercício de responsabilidades públicas, com a política e a ética, identificando e denunciando as suas subversões. Imaginemos, por exemplo, uma associação cuja missão é a ajuda a terceiros em situação de necessidade e que nela, oportunisticamente, alguém se oferece para ocupar um cargo de responsabilidade, não para cumprir a missão da associação, mas para retirar do cargo vantagens pessoais de algum tipo. Quando a tramoia é descoberta, o prestígio da associação sofre um duro golpe, da mesma forma que a honorabilidade de todos os que trabalham para essa associação, mesmo a dos mais honestos e dedicados. E basta a existência de um ou outro caso destes para a reputação de todas as associações serem postas em causa. A partir daí, o desconforto de ser confundido com práticas detestáveis não afastará malandros dispostos a obterem vantagens por qualquer forma, mas levará muitas pessoas generosas e honestas a pensar duas vezes antes de se disponibilizarem para assumir responsabilidades.

Nesta sociedade tão dominada pela economia e pela finança, lembremos o palavrão que os economistas usam - "seleção adversa" - para designar situações em que o mau produto expulsa do mercado o bom produto. É claro que falar de política é mais amplo e exigente do que tratar estas questões, mas na verdade a política é para aqui chamada.

O que designa a expressão "classe política" nestes dias? Um grupo sob suspeita a que se associam normalmente epítetos do tipo "o que tu queres sei eu" e "eles são todos iguais" - uma associação de malfeitores. Quem quer ser da "classe política"?

As coisas estão tão mal que há um certo espanto quando se descobre, geralmente demasiado tarde, que há mulheres e homens honrados que dedicam ou dedicaram uma vida inteira à política por convicção e por generosidade. Aí surge uma espécie de ritual coletivo de penitência pública feito de elogios adiados, alguns genuínos, outros hipócritas.

Se queremos evitar que os partidos e outras instituições sejam desacreditados, que as cadeiras do Governo ou da AR não passem a estar em pleno ocupadas por malandros - mesmo que malandros finos, de gravata e muito "bons modos" - são precisos mais do que elogios requentados. É preciso sermos severos contra a conversa do "é tudo farinha do mesmo saco" que polui as caixas de comentários da Internet. É necessário não transigir com o "ele rouba mas faz" que já produziu, mesmo entre nós, candidatos vencedores. É preciso combater os julgamentos na praça pública feitos pelo jornalismo de cordel. É indispensável construir projetos políticos alternativos de rigor e de compromisso efetivo com as pessoas.»

Manuel Carvalho da Silva