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sábado, 1 de setembro de 2018

Morte política, esquerda e direita

  por estatuadesal

(José Preto, 01/09/2018)

esquerda

Rio sempre me pareceu um quadro técnico bancário, tão grotesco como qualquer outro, homem fora do seu sítio e das coordenadas de intervenção proporcionada à sua preparação e ao que foi revelando da sua sensibilidade.

Surpreendeu-me ao mobilizar Elina Fraga e Mónica Quintela. São advogadas em quem confio. Gente que lança ao estado dos aparelhos de justiça um olhar realista e lúcido e que, por isso, tem dos problemas da sociedade portuguesa uma aproximação sensata, face à já indisfarçável situação de emergência social. Creio que Rio desencadeou com isto - e sem o notar imediatamente - combates à medida do alarme que suscitou.

A Rio falta ainda muita coisa. Rio tem de distanciar-se dos seus hábitos intelectuais de técnico bancário e deve - se acaso quiser ir a algum lado – ponderar a situação aflitiva da classe média, ameaçada, entre mil outras coisas, por um surto único de especulação imobiliária que, antes de atingir a sua inevitável crise de bolha financeira, ameaça a consumação da completa descaracterização das nossas cidades e a expulsão das suas populações. Ainda ontem um amigo me fazia notar os prédios comprados, recuperados e fechados em desafio – que não pode deixar de ter réplica – aos limites sociais da propriedade. O imobiliário, se não interviermos imediatamente, terá apenas função especulativa a preços sociais difíceis de calcular. E não sei como chamar à gestão do património imobiliário público que estimula estas circunstâncias e propicia o aproveitamento delas.

Entre os campos queimados e as cidades alvo de apropriação pelos especuladores internacionais, pergunto-me como pode a população completamente desarmada estar tão calma, pesando sobre ela, como pesa, uma tão clara ameaça de morte. Nem os clubes desportivos lhe deixarão. (Sim, é esse o problema e não outro; e a intransigência da oposição deve estar à medida do problema).

Impressiona-me também que a direita dos gangs prefira tentar destruir o que foi seu principal partido a aceitar Rio. Isso significa que a aposta fundamental foi bem feita. Voluntária ou involuntariamente. Consciente ou inconscientemente. Rio tem aberto o caminho da direita que falta. A que recusa a mera instrumentalidade do Homem. A que preserva a Nação como projecto comum. A que olha o Estado como instrumento primeiro de solidariedade do corpo nacional e primeiro instrumento de defesa da comunidade. Essa Direita falou pela última vez com Sá Carneiro, Barrilaro Ruas e Gonçalo Ribeiro Telles, lembrou a sua existência, esporadicamente, com Adriano Moreira, mas não tem corpo militante organizado e eficaz, que responda ao eco social das suas posições. Conseguirá Rio perceber a importância do que tem nas mãos? Dir-se-ia que não. Pelas parvoíces dos seus velhos hábitos largadas sobre o serviço nacional de saúde, por exemplo, dir-se-ia que não. Mas era bem importante que o entendesse.

À esquerda não estamos muito melhor. O Leninismo calou-se, no essencial. Deixou até criminalizar o seu discurso político referencial sem reacção visível. O PCP parece esgotar-se nos hábitos do funcionalismo sindical. A esquerda radical do individualismo solidarista – o liberalismo radical de esquerda – também não tem milícia consistente entre nós. Embora haja núcleos interessantes de anarquistas. E embora o PCTP- MRPP tenha retomado a sua marcha natural de resistência, abandonando a “aura” social de excentricidade consentida a que o tinha circunscrito a figura pessoalmente estimável de Garcia Pereira, tal como a imprensa (falida) a havia aceitado já e a vinha gerindo, até à expressão terminante de rejeição dos representantes da legitimidade histórica do partido. O PCTP- MRPP não quis ser uma curiosidade do sistema politico, com sedes fechadas e circunscrita às intervenções públicas de uma “primeira figura” fazendo papel de “tipo giro a dizer umas coisas”. Talvez Garcia Pereira tivesse, ele próprio, podido recusar esse papel. Aparentemente terá pensado que aquilo que dizia seria suficiente para tanto. Não foi. Não, pelo menos, do ponto de vista dos seus companheiros de quarenta ou cinquenta anos de militância (se bem percebi).

Fazem-nos falta as esquerdas de posições aceradas. Presença radical. Problematizante. Polemizante. Assediante, mesmo. Não creio até que a comunidade nacional, nesta fase, possa sobreviver sem isso. A rua tem de voltar ao calendário político. A rua tem de voltar a gritar. Há coisas bem mais importantes do que os direitos dos gatinhos capados com que a “nova esquerda” se tem ocupado, conseguindo mesmo punir o abandono de animais de companhia, sem lograr sequer opor-se à exurbanização de populações inteiras, ou ao despejo de milhares de famílias.

E faz-nos falta a decência de direita. Aquela que consegue permanecer fiel a critérios de acção e conduta. Fiel à Lei e ao Direito e que, mesmo à custa do paternalismo que impacienta muitas vezes, consegue cumprir as suas funções e preservar a tranquilidade e os direitos. ..

É preciso varrer estas corjas agressivamente parasitárias do sistema político, com a mesma prontidão com que esta gente se precipita para fora do PSD. (Que economia de esforço). E dava realmente jeito que Rio entendesse o que está a acontecer-lhe. Porque se não o perceber ninguém conseguirá explicar-lho.

Rio deixou de me fazer rir.

Sanções, sanções, sanções, o estertor final da hegemonia do dólar?

  por estatuadesal

(Peter Koenig,  20/08/2018)

dolar

Sanções para a esquerda e sanções para a direita. Financeiras principalmente, impostos, tarifas, vistos de entrada, proibições de viagens, confisco de activos no estrangeiro, proibições e limitações de importação e exportação, sanções e punições também para aqueles que não respeitam as sanções impostas por Trump, aliás pelos EUA, contra amigos de seus inimigos. O absurdo parece interminável e crescente, como se houvesse uma data fatal para o colapso do mundo. Parece ser um último esforço para derrubar o comércio internacional em favor de – o quê? – "Make America Great Again" ? Preparar-se para as eleições intercalares dos EUA? Reunir as pessoas atrás de uma ilusão? O quê então?

Tudo parece arbitrário e destrutivo. Tudo obvia e totalmente ilegal por qualquer lei internacional ou, esqueça a lei, que de qualquer modo não é respeitada pelo império e seus vassalos, mas nem mesmo pelos padrões morais humanos. As sanções são destrutivas. Elas estão a interferir na soberania de outros países. São feitas para punir países, nações, que se recusam a submeter-se a uma ditadura mundial.

Parece que toda agente aceita esta nova guerra económica como o novo normal. Ninguém objecta. E as Nações Unidas, o corpo criado para manter a paz, para proteger o nosso mundo de outras guerras, para defender os direitos humanos, este mesmo corpo está silenciosa – por medo? Medo de ser "sancionada" ao esquecimento pelo império moribundo? Por que não pode a grande maioria dos países – muitas vezes é uma proporção de 191 contra 2 (Israel e EUA) – dominar os criminosos?

Imagine-se a Turquia, de súbito tarifas enormes sobre o alumínio (20%) e o aço (50%) impostas por Trump, além da interferência sobre a moeda do banco central que fez a Lira turca cair 40%, e isso “apenas” porque Erdogan não liberta o pastor Andrew Brunson, que enfrenta na Turquia uma sentença de 35 anos de prisão por "terror e espionagem". Um tribunal de Izmir acaba de recusar outro pedido de clemência dos EUA, convertendo no entanto a sua sentença de prisão em prisão domiciliária por motivos de saúde. Há a plena convicção que os supostos 23 anos de "trabalho missionário" do Sr. Brunson foram apenas uma cortina de fumo para espionagem.

O presidente Erdogan acaba de declarar que vai procurar novos amigos, incluindo novos parceiros comerciais no leste – Rússia, China, Irão, Ucrânia, até na inviável União Europeia, e que seu país planeia emitir certificados financeiros denominados em Yuan para diversificar a economia da Turquia, em primeiro lugar as reservas do país, gradualmente afastando-se da hegemonia do dólar.

Procurar novos amigos, também pode incluir novas alianças militares. Estará a Turquia a planear sair da NATO? Poderá a Turquia ser "autorizada" a sair da NATO dada a sua posição estratégica marítima e terrestre entre o leste e o oeste? A Turquia sabe que ter aliados militares que aplicam sanções por agir soberanamente em assuntos internos significa um desastre para o futuro. Por quê continuar então a oferecer seu país à NATO, cujo único objetivo é destruir o leste – o próprio leste, que não é apenas o futuro da Turquia, mas do mundo? A Turquia já está a aproximar-se da SCO (Organização de Cooperação de Xangai) e pode realmente aderir a ela num futuro previsível. Isto poderá ser o fim da aliança da Turquia com a NATO.

E se o Irão, Venezuela, Rússia, China – e muitos outros países que não se dispõem a curvar-se ao império – prendessem todos os espiões das embaixadas dos EUA ou camuflados nas instituições financeiras nacionais desses países, a actuarem como Quintas Colunas, minando políticas nacionais e económicas dos seus países de acolhimento? Cidades inteiras de novas prisões teriam que ser construídas para acomodar o exército de criminosos do império.

Imagine-se a Rússia – mais sanções foram impostas apenas pelo alegado e totalmente não comprovado (pelo contrário, refutado) envenenamento russo de quatro cidadãos do Reino Unido com o agente nervoso mortal, Novichok e por não admitir isso. Trata-se de uma farsa total, uma mentira flagrante, que se tornou tão ridícula que a maioria das pessoas que pensam, mesmo no Reino Unido, apenas riem disso. No entanto, Trump e seus pigmeus na Europa e em muitas partes do mundo sucumbem a essa mentira e por medo de serem sancionados, também sancionam a Rússia. O que se tornou o mundo?

O ministro da Propaganda de Hitler, Joseph Goebbels, ficaria orgulhoso por ter ensinado a importante lição aos mentirosos do universo: "Deixem-me controlar os media e vou transformar qualquer nação numa vara de porcos".Nisto é o que nos tornámos – uma vara de porcos.

Felizmente, a Rússia também já se afastou tanto da economia controlada pelo dólar que tais sanções não mais a afectam. Elas servem Trump e aos seus capangas como meras ferramentas de propaganda para exibicionismo: "ainda somos os maiores!"

Na Venezuela, alimentos importados, produtos farmacêuticos e outros bens estão sendo desviados nas fronteiras e em outros pontos de entrada, de modo que nunca chegarão às prateleiras dos supermercados – tornam-se mercadorias clandestinas na Colômbia, onde esses produtos são vendidos a taxas manipuladas de dólar de que tiram proveito cidadãos venezuelanos e colombianos.

Estes gangs de tipo mafioso são financiados pelo NED (National Endowment for Democracy) e outras “ONG” financiadas pelo Departamento de Estado, treinadas pelos serviços secretos dos Estados Unidos, dentro ou fora da Venezuela. Uma vez infiltrados na Venezuela – aberta ou secretamente – eles tendem a boicotar a economia local, espalhar a violência e tornarem-se parte da Quinta Coluna, principalmente sabotando o sistema financeiro.

A Venezuela que tem pessoas sofrendo, está lutando para sair deste dilema, tirando a sua economia do dólar, em parte através de uma criptomoeda recém-criada, o Petro, baseado nas enormes reservas de petróleo do país e também através de um novo Bolívar na esperança de colocar um freio às crescentes explosões de inflação. Esse cenário lembra muito o Chile em 1973, quando Henry Kissinger era secretário de Estado (1973-1977) e inspirou o golpe da CIA, fazendo “desaparecer” alimentos e outros bens dos mercados chilenos, assassinando o presidente legitimamente eleito Salvador Allende e levando ao poder Augusto Pinochet, um horrendo assassino e déspota. A ditadura militar provocou a morte e o desaparecimento de dezenas de milhares de pessoas e durou até 1990. Subjugar a Venezuela poderá contudo não ser tão fácil. Afinal, a Venezuela tem 19 anos de experiência revolucionária Bolivariana e um sólido sentido de resistência.

O Irão está a ser mergulhado num destino semelhante. Sem motivo algum, Trump renegou o chamado Acordo Nuclear, assinado em Viena em 14 de Julho de 2015 depois de quase dez anos de negociações. Agora de certeza impulsionado pelo ultra sionista Netanyahu novas sanções, as mais severas de sempre, estão a ser impostas ao Irão, dizimando também o valor de sua moeda local, o Rial.

O Irão, sob o Ayatollah, já embarcou num curso de “Economia de Resistência”, o que significa a desdolarização da sua economia e mover-se rumo à auto-suficiência alimentar e industrial, bem como aumentar o comércio com países do Leste, China, Rússia, SCO e outras nações amistosas e culturalmente alinhadas, como o Paquistão. No entanto, o Irão também tem uma forte Quinta Coluna, enraizada no sector financeiro, que não deixa de forçar e propagar o comércio com o inimigo, ou seja, o Ocidente, a União Europeia, cujo sistema monetário do Euro faz parte da hegemonia do dólar, apresentando portanto uma vulnerabilidade similar às sanções como as que o dólar produz.

A China – o grande prémio do Grande Jogo de Xadrez global – está também a ser "sancionada" com tarifas sem fim, por ter-se tornado a economia mais forte do mundo, superando de longe os EUA, quer em produção real quer medida pelo poder de compra das pessoas. A China também tem uma economia sólida e uma moeda baseada no ouro, o Yuan, que está a caminho de rapidamente ultrapassar o dólar americano como a moeda de reserva número um do mundo. A China retalia, é claro, com "sanções" idênticas, mas, em geral, o seu domínio dos mercados asiáticos e a crescente influência económica na Europa, África e América Latina é tal que a guerra tarifária de Trump pouco significa para a China.

Quanto à Coreia do Norte a muito falada cimeira Trump-Kim de meados de Junho em Singapura há muito tempo se tornou um pequeno ponto no passado. Os alegados acordos obtidos estão a ser violados pelos EUA, como era de esperar. Tudo sob o pretexto falso e puramente inventado de que a RPDC não aderiu ao seu compromisso de desarmamento; uma razão para impor novas sanções procurando estrangular a economia.

O mundo olha. É normal. Ninguém se atreve a questionar os auto-intitulados Donos do Mundo. A miséria continua a ser distribuída tanto para a esquerda como para a direita, aceite pelas massas ao redor do mundo, sujeitas a lavagem cerebral. Guerra é paz e paz é guerra.

Literalmente. O Ocidente vive uma zona de conforto “pacífica”. Para quê perturbar isso? Se as pessoas morrem de fome ou por bombas isso acontece longe e permite-nos viver em paz. Para quê importar-se? Especialmente porque somos gotejados continuamente a dizerem-nos o que está certo.

Numa recente entrevista à PressTV, perguntaram: por que os EUA não aderem a nenhum dos tratados ou acordos celebrados internacional ou bilateralmente? Boa pergunta. Washington está a quebrar todas as regras, convenções, acordos e tratados, não está a respeitar nenhuma lei internacional ou mesmo padrão moral, simplesmente porque seguir tais padrões significaria renunciar à supremacia mundial. Estar em pé de igualdade não é do interesse de Washington ou de Telavive. Sim, esta relação simbiótica e doentia entre os EUA e o Israel sionista está a tornar-se progressivamente mais visível; a aliança da força militar bruta e o domínio financeiro pleno e traiçoeiro, juntos lutando pela hegemonia mundial, pelo domínio total. Esta tendência está a acelerar-se sob Trump e sob aqueles que lhe dão ordens, simplesmente porque "eles podem". Ninguém faz objecções. Isso tende a retratar uma imagem de poder inigualável, incutindo medo e esperando que incite à obediência.

Na realidade, o que está a acontecer é que Washington está a isolar-se, o mundo unipolar está a mover-se rumo a um mundo multipolar, que desconsidera e desrespeita cada vez mais os Estados Unidos, despreza a sua agressividade e belicismo – que mata e lança na miséria centenas de milhões de pessoas, a maioria delas crianças indefesas, mulheres e idosos, pela força militar directa ou por conflitos liderados por procuração. O Iémen é apenas um exemplo recente, provocando sofrimentos humanos infindos a pessoas que nunca fizeram mal aos vizinhos, muito menos aos americanos. Quem poderia ter algum respeito por tal nação, chamada Estados Unidos da América, pelas pessoas por trás destes monstros mentirosos?

Este comportamento do império agonizante está a levar aliados e amigos para o campo oposto, para o Leste, onde jaz o futuro, longe de uma Ordem Mundial globalizada, rumo a um mundo multipolar saudável e mais igualitário. Seria bom se os membros do nosso corpo mundial, as Nações Unidas, criada em nome da paz, finalmente reunissem coragem e se levantassem contra as duas nações destruidoras, pelo bem da humanidade, do globo e da Terra-Mãe.


[*] Economista e analista geopolítico.

O admirável mundo novo e a sua companheira a censura

  por estatuadesal

(José Pacheco Pereira, in Público, 01/09/2018)

JPP

Pacheco Pereira

O incremento da censura na Internet, em particular nas redes sociais, é uma tendência perigosa, que vai a par com legislação destinada a “proteger-nos” do racismo, do ódio nacionalista, da violência verbal, que desde a Constituição, aos surtos de indignação com apelos censórios, é tudo destinado a criar um mundo fofinho e higiénico que não existe na realidade.

Há muita coisa que se pode fazer para combater o problema combinado das fake news – teorias conspirativas – boatos perigosos - boatos atentatórios da personalidade – linguagem de ódio – uso da Internet para fins de manipulação profissionalizada por serviços de informação e agências de comunicação, etc., e tudo é melhor do que a censura que começa a generalizar-se e depois a normalizar-se. Censura essa que merece o aplauso da multidão do “politicamente correcto”, que preza pouco a liberdade. A liberdade que existe para os outros poderem dizer as coisas que mais me repugnam.

Em primeiro lugar, é preciso separar as coisas: separar os crimes das opiniões, por afrontosas que sejam; as acções bélicas de “propaganda negra” ou outras usadas pelos servições de informação, que são também crimes, do uso de linguagem violenta e odiosa; a incitação ao crime, que é também um crime, das obscenidades racistas e outras. Ou seja, simplificando, - tratar os crimes como crimes e deixar o resto para a liberdade de expressão, insisto, mesmo que a consideremos repugnante.

No plano do crime, a legislação precisa de evoluir e adaptar-se a esta nova realidade, mas a regra é sempre a mesma: o que é crime cá fora é crime lá dentro. Deve-se facilitar a identificação dos autores mesmo anónimos em casos de investigação de crimes, e perceber que os crimes de abuso de liberdade de expressão, calúnia, ataques insultuosos, devem ter legislação expedita e exemplar. As fornecedoras de serviços de redes sociais devem assumir a responsabilidade por não permitir a manipulação de identidades, e devem ser capazes de identificar com clareza junto das autoridades quem esteja a cometer crimes em linha.

O uso de anonimato deve manter-se na base do princípio de que alguém está a denunciar (whistleblowing) algo que pode ser um crime, ou uma malfeitoria ou uma prática inaceitável e deve ser protegido de retaliações, mas não é justificado para a cobardia da opinião. Já o uso de pseudónimos é legítimo e deve ser protegido, desde que, quando haja crimes, seja possível aceder ao nome verdadeiro. Eu sei que tudo isto é complicado e há meios eficazes de dar a volta ao anonimato, mas quem o sabe fazer é um número pequeno dos habitantes que pululam as redes sociais e que, na maioria dos casos, são muito rudimentares na protecção da sua identidade. E deviam perceber que há consequências para as brincadeiras que colocam em linha.

Do mesmo modo, é perigoso instituir, como cada vez mais acontece, formas de policiamento da linguagem. Usar, como se diz nos EUA, a n-word, nigger, chamar “macacos” aos jogadores negros, acompanhado os insultos, por gestos simiescos, chamar “monhé” ao primeiro-ministro, chamar “paneleiros” aos homossexuais e “fufas” às lésbicas, e por aí adiante, por muitas fúrias verbais que suscite, cabe no meu entendimento da liberdade de expressão. Nada tenho contra as tempestades de resposta - quem não se sente não é filho de boa gente - mas sou completamente contra a censura do Estado, do Facebook, do Google e do Twitter, que pretende criar um muro sanitário para as ofensas e, ao fazê-lo, entram num processo censório que sabemos como começa, mas não sabemos como acaba.

Já outra coisa é escrever que o “senhor A roubou o dinheiro da cooperativa B” quando se trata de uma falsidade. Ou quando, de forma organizada, as empresas de comunicação que fazem campanhas negras a favor de empresas ou pessoas denegrindo os seus adversários ou competidores. Infelizmente, isto é cada vez mais comum e “invisível” usando comentários dirigidos, manipulando os sites que avaliam restaurantes ou hotéis, ou disseminando falsa informação. Isto tem que ser tratado como fraude. A essas pessoas, eu levava-as a tribunal, e às empresas a mesma coisa e, em ambos os casos, pedia indemnizações vultuosas, que é o que mais os afecta.

O problema do que hoje se está a passar nas “redes sociais” e nas páginas de comentários não moderadas é o completo falhanço de várias instituições do Estado e da sociedade, a começar pela absoluta desadequação da educação e das escolas, ao mundo real em que desde crianças, aqueles que se pretende “educar” vivem. Depois, a sociedade, a comunicação social, deviam obrigar-se, primeiro a si próprias, e ao público em geral a dar prioridade à verificação dos factos. Se o Info-wars, ou Trump, ou a Fox News, ou um site racista português, ou um comentador do Facebook do PÚBLICO, disserem que Obama não é americano e é muçulmano, dupliquem o site com uma nota dizendo que é uma falsidade. A verificação sistemática, continuada e séria é a melhor maneira de combater as fake news. Dá trabalho, é difícil e o sucesso não está garantido, mas é melhor do que a censura.

Pode-se dizer que os mecanismos que garantem o sucesso da circulação de falsidades têm vantagem sobre a verdade porque o lubrificante que as faz circular tem a ver com outras coisas, com a polarização e radicalização política, com o ressentimento social, com o incremento nas redes sociais do tribalismo, com as iliteracias, a ignorância agressiva das redes e a propensão para as conspirações. É verdade, mas a censura não é resposta.

A última coisa que quero é que o Estado ou as grandes empresas tecnológicas, que fazem o mal e a caramunha, me “protejam” do ruído do mundo e me tratem como uma criancinha. O que eu quero é que os adultos vão à luta, denunciem as falsidades, que os jornalistas façam investigações sobre as fileiras racistas, homofóbicas, violentas, que denunciem os seus mentores, que a escola não se ponha com deslumbramentos tecnológicos e ensine a “ler” a Internet e a televisão, que a “conversação” na sociedade e nos media não tenha um átomo de complacência com este admirável mundo novo. Mas tudo menos a censura.

Secretária de Estado: “Portugal é um país com manifestações de racismo e xenofobia”

Jornal Económico com Lusa

12:20

Em declarações à agência Lusa, quando se completa um ano de entrada em vigor da Lei para a Prevenção, Proibição e Combate à Discriminação, Rosa Monteiro afirmou: "Não podemos escamotear essa realidade”.

Portugal é um país com manifestações racistas e xenófobas, admitiu a secretária de Estado da Cidadania e Igualdade, apontando que continua a haver muito preconceito contra a comunidade cigana e que é preciso conhecer o fenómeno para o combater.

Em declarações à agência Lusa, quando se completa um ano de entrada em vigor da Lei para a Prevenção, Proibição e Combate à Discriminação, Rosa Monteiro afirmou que “Portugal é um país com manifestações de racismo e de xenofobia”.

“Obviamente, como são todos [os países], e não podemos escamotear essa realidade”, defendeu.

No entender da secretária de Estado, “há um racismo tácito e há um racismo expresso”, que se refletem nas queixas apresentadas à Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial (CICDR).

Desde o início do ano e até ao dia 29 de agosto, a CICDR recebeu 206 queixas, mais 27 do que em todo o ano de 2017, o que representa já um aumento de 15%, sendo que as 179 queixas recebidas no ano passado significam também um aumento de cerca de 50% em relação a 2016.

Como a nova lei entrou em vigor a 01 de setembro de 2017, é preciso acrescentar as 59 denúncias que deram entrada até 31 de dezembro do ano passado para constatar que a comissão já recebeu 265 queixas enquadradas pela nova legislação.

Rosa Monteiro defendeu que é preciso conhecer o fenómeno para o conseguir combater e apontou que há estudos do ‘European Social Survey’ – uma organização de realização de inquéritos transnacional, de cariz académico, da qual Portugal faz parte – que mostram que “Portugal apresenta níveis superiores à média europeia em termos de racismo”.

Por outro lado, destacou que em Portugal “não há um discurso xenófobo aberto por parte, por exemplo, de agentes políticos”, contrariamente ao que se passa noutros países, algo que classificou como “muito positivo”, tendo em conta um “consenso alargado na defesa e no combate a essas formas de discriminação”.

Já no que diz respeito às motivações, a secretária de Estado destacou que é interessante perceber que a principal foi a discriminação étnica e racial e que muitas das queixas foram apresentadas por pessoas ou associações ligadas à comunidade cigana.

“Percebemos que há muitos preconceitos e muito desconhecimento relativamente àquilo que é ou são as pessoas ciganas e as suas realidades de vida e como sabemos o desconhecimento gera preconceito e gera segregação”, sublinhou.

Os dados provisórios da CICDR, analisados até ao dia 25 de maio, revelam que, entre as 114 queixas recebidas desde o início do ano, as principais motivações são a origem racial e étnica e a cor da pele (ambos com 25,4%), seguindo-se a nacionalidade.

Já entre as expressões que mais se destacam como fundamento para a origem da discriminação estão a “etnia cigana” e a “cor da pele negra”, as duas com 24,6%, seguidas da “nacionalidade brasileira” (11,4%).

Olhando para as 173 queixas registadas desde a entrada em vigor da nova lei, ou seja entre 01 de setembro de 2017 e 25 de maio de 2018, 35,3% foram encaminhadas para outras entidades, dependendo da matéria em concreto, enquanto 49,1% estão em fase de tramitação interna, sendo que 13,9% estão em fase de instrução no âmbito dos processos de contraordenação.

Das 173 queixas, 24 deram origem a processos de contraordenação, tendo sido já proferidas duas decisões de condenação em coima em 2018.

A secretária de Estado revelou que tem havido alguns processos em que é difícil fazer prova, mas não se mostrou defensora de mais mecanismos sancionatórios.

“Penso que é importantíssimo fazer a literacia da legislação existente, junto das próprias populações e de profissionais e por isso mesmo a CICDR tem apostado na formação e capacitação, desde as forças de segurança, com protocolos com a PSP e a GNR, e agora também com a direção-geral dos serviços prisionais de forma a que conheçam a própria legislação”, explicou.

No balanço de um ano da nova legislação, Rosa Monteiro faz uma avaliação positiva, apontando que “foi fundamental” a revisã

O futuro da mobilidade

Bruno Dias, EY Advisory Senior Manager

08:35

Fatores como a crescente urbanização, a mudança nas expetativas e hábitos dos consumidores e as tecnologias digitais estão a contribuir para a criação de um novo ecossistema de mobilidade e para a acelerar a alteração dos paradigmas associados à movimentação de pessoas e bens.

Fatores como a crescente urbanização, a mudança nas expetativas e hábitos dos consumidores e as tecnologias digitais estão a contribuir para a criação de um novo ecossistema de mobilidade e para a acelerar a alteração dos paradigmas associados à movimentação de pessoas e bens.

Assistimos a uma evolução de um modelo tradicional do setor automóvel assente em produção e venda de veículos e peças, para modelos complementares de novas experiências de mobilidade.

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Os consumidores atuais utilizam o seu carro pessoal para os mais diversos propósitos, independentemente de se tratar de utilização individual, familiar ou transporte de carga. O futuro passa por um modelo mais flexível que permita selecionar numa aplicação a viatura necessária para um propósito e momento específico, como um pequeno utilitário para um dia de trabalho na cidade e uma van para transporte num fim de semana familiar.

Esta disrupção é uma oportunidade para stakeholders de várias indústrias numa perspetiva de geração de valor para cidadãos e consumidores e para implementar modelos de geração de receitas adicionais e recorrentes.

Novos players estão a aparecer focados exclusivamente neste novo modelo, nomeadamente fornecedores de serviços de mobilidade (a Zipcar, a Uber ou a Didi). Outros, como os gigantes tecnológicos Google e Apple, posicionam-se cada vez mais como capacitadores de soluções de conectividade e como fonte de inteligência de dados.

Muitos dos players incumbentes do setor automóvel têm investido na criação de unidades focadas em serviços de mobilidade como a Maven da GM ou a Smart Mobility da Ford, sendo que, dentro deste panorama complexo e diversificado de mobilidade, os incumbentes serão forçados a simultaneamente competir e cooperar. Exemplo de cooperação são os rivais BMW e Daimler que estão em processo de formação de uma joint venture para fusão dos seus serviços de mobilidade, nomeadamente combinando a Car2Go da Daimler com a DriveNow da BMW.

O futuro neste novo ecossistema passa por reinventar modelos de negócio e desenvolver serviços, muitos dos quais atravessando as fronteiras naturais dos setores tradicionais, a velocidades sem precedentes.

O sucesso depende da capacidade de inovar, de comercializar novos modelos de negócio que sejam parte integrante do ecossistema de mobilidade digital e de ter acesso a uma comunidade de talento que ajude a construir e tornar sustentáveis estes novos paradigmas.

Estão preparados para esta viagem?