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terça-feira, 10 de junho de 2025

 

Donald Trump dissocia os Estados Unidos da União Europeia

By estatuadesal on Junho 6, 2025

(Por Thierry Meyssan, in Rede Voltaire, 20/02/2025)


Contrariamente ao que havíamos imaginado, em 1991, a queda do « Império americano » não se assemelhará à da URSS. Os aliados europeus ocidentais de Washington pretendem perpetuá-lo, com ou sem o seu líder. Segue-se que o Presidente Donald Trump os irá abandonar em campo aberto.
Depois de ter dissociado os Estados Unidos dos « sionistas revisionistas » no Poder em Israel, o Presidente Trump dissocia-os da OTAN e da União Europeia : ele já não quer que o seu país tenha a ver seja o que for com o « Império americano » e os seus mercenários que são os « nacionalistas integralistas » ucranianos.


Depois de ter dissociado os Estados Unidos de Israel [1], Donald Trump começou a dissociá-los da União Europeia. Tal como com Israel, primeiro ele deu a impressão de dar carta branca aos membros da UE e ao Reino Unido, depois iniciou o corte da ligação.

Recorde-se : o Presidente Trump deixou os dirigentes ocidentais convencerem-se que podiam na Ucrânia, por si sós, combater a Rússia. Durante muitas reuniões em Paris, em Londres e em Kiev, os dirigentes da UE e do Reino Unido esforçaram-se a anunciar que iam conjuntamente garantir a segurança do continente face ao perigo de « invasão russa ». Eles imaginaram colocar os seus países sob os guarda-chuvas nucleares britânico e francês e não mais sob o dos Estados Unidos. Eles pensaram numa guerra continental contra a Rússia e uma reorganização de alianças em torno do Reino Unido, da França, da Alemanha e da Polónia.

E depois : nada de nada. Os Estados Unidos suspenderam a sua coordenação com a UE [2]. Já não se concertam mais a propósito das medidas coercivas unilaterais que tomam contra a Rússia. O 17º pacote de «sanções» da UE foi o último lançado em Bruxelas com Washington. O 18º já o será em solitário. Anuncia-se que será de uma amplitude sem precedentes, mas sem os Estados Unidos, ele está condenado ao fracasso de antemão.

Os Estados Unidos assistiram à preparação de um « tribunal penal internacional para julgar os “crimes russos” na Ucrânia », no seio do Conselho da Europa, mas eles põem-se à margem [3]. A seus olhos, esta jurisdição não tem nenhum significado. Os tribunais penais de Nuremberga e de Tóquio tinham seguido a vitória dos Aliados sobre o nazismo, mas este antecipa a vitória dos «nacionalistas integralistas » ucranianos, colaboracionistas dos nazis, sobre a Rússia. Ele não é validado pelas Nações Unidas e não tem qualquer hipótese de o ser, tendo em conta o direito de veto russo.

Hoje, o Reino Unido e a UE devem ater-se às evidências. Não dispõem dos meios militares para aplicar a sua política. Estão encerrados nas suas contradições denunciando os danos colaterais ucranianos da “operação militar especial” russa, ao mesmo tempo que se comprazem com os danos colaterais palestinianos da guerra israelita contra o Hamas, portanto muito mais severos. Foram eles próprios que se afastaram dos Estados Unidos, a quem não levaram a sério.

Resta-lhes uma arma : o confisco de activos russos que eles congelaram já. Estes permitiriam então reconstruir a Ucrânia, sem que eles mesmos tivessem que pagar. No entanto, confiscar bens por motivos políticos, é violar o direito à propriedade. Uma tal decisão seria irreversível. Ela só é possível em tempo de guerra contra um inimigo. Confiscar estes activos é, pois, declarar guerra a um inimigo muito mais poderoso do que o conjunto formado pelo Reino Unido e pela UE.

Para além do facto de que os seus exércitos não resistiriam dois dias numa guerra contra a Rússia, a UE iria inspirar medo a todos os seus parceiros no planeta : se é possível confiscar os bens russos, porque é que Bruxelas iria parar neste “excelente” caminho e não confiscaria já agora os activos de qualquer Estado que não tivesse condenado a Rússia ?

Em 14 de Fevereiro, durante a Conferência sobre Segurança de Munique, o Vice-Presidente JD Vance avisou o Reino Unido e a UE. Ele declarou : « a ameaça que mais me preocupa na Europa não é a Rússia. Não é a China. Não é um qualquer agente externo. O que mais me inquieta, é a ameaça que vem do interior - o recuo da Europa em certos dos seus valores mais fundamentais, valores que são partilhados com os Estados Unidos da América ».

Entenda-se bem aquilo que se passa. O Presidente Donald Trump anunciou que, agora, exigia que todos os aliados consagrassem 5% do seu PIB às despesas militares. Sendo este número impossível de alcançar – ele implica uma duplicação de despesas — a saída dos Estados Unidos do comando integrado da OTAN era previsível. Simultaneamente, o Presidente garantiu repetidamente que a União Europeia havia sido criada para prejudicar os Estados Unidos, quando a UE é o componente civil do «Império Americano», do qual a OTAN constitui o braço militar. Agora, depois de ter constatado que, nem o Reino Unido, nem a UE, são capazes de por em causa «o Império Americano», que os seus dirigentes são dependentes do «Império Americano» em prejuízo dos seus cidadãos, que se recusam a ser livres e independentes, Washington corta as amarras com eles.

Notem bem que Donald Trump não ataca os Europeus Ocidentais. Ele deixa-os apenas derivando em perseguição de uma quimera.

Para aqueles que, como eu, imaginavam a dissolução da OTAN e da UE depois da da União Soviética, é um passo em frente. Mas para súbditos britânicos e os cidadãos europeus, é uma catástrofe.

Nos próximos meses, assistiremos à reconciliação russo-americana. Tudo aquilo que formatou a nossa maneira de pensar será votado ao esquecimento. Chegou o momento dos Ocidentais substituírem suas elites e repensarem as suas sociedades. Mas, eles não estão preparados para isso, de todo.

Enquanto em 1991, imaginávamos a dissolução do « Império Americano » à semelhança do da URSS, constatamos que aquilo que o Presidente Donald Trump pretende concretizar é um cenário completamente diferente. Tal como Mikhaïl Gorbachev, ele deseja trazer o seu país de volta aos seus fundamentos (Make America Great Again!)-(«Tornar a América Forte Outra Vez»-ndT), mas os seus aliados europeus, esses, pensam prolongar esse Império.

Em Bruxelas, a administração da UE ainda não aceitou este cowboy. Ela espera que ele seja assassinado em breve ou que perca as eleições intercalares e seja forçado a entrar na linha. De uma certa maneira, aquilo que se joga hoje é o fim da Guerra Fria, quando os serviços de retaguarda (stay-behind) da OTAN faziam e desfaziam os governos Europeus Ocidentais. Os dirigentes da UE, a começar por Ursula von der Leyen e Kaja Kallas, têm origem directa nessas operações secretas. Eles são as crias do « Império Americano » e pretendem perpetuá-lo

 

Solução final: ataque à Flotilha da Liberdade prova plano sionista de extermínio total em Gaza

By estatuadesal on Junho 10, 2025

(Por Redacção Fepal, in Diálogos do Sul, 09/06/2025)


Ofensiva contra embarcação com Thiago Ávila e Greta Thunberg visa impedir que ativistas e o mundo testemunhem o extermínio decisivo dos palestinos; Israel precisa ser isolado e penalizado.


O regime sionista de Israel, forma social e estatal degenerada que supera até mesmo o nazismo, que se faz enquanto experimento social genocida na Palestina há 77 anos e que leva a cabo o maior extermínio humano da história em Gaza, em 611 dias ininterruptos e televisionados, acaba de atacar com violência a Flotilha da Liberdade, integrada por 11 tripulantes, dentre eles a ativista Greta Thunberg, o brasileiro Thiago Ávila e a parlamentar palestino-francesa Rima Hassan, cuja missão era furar o bloqueio “israelense” e entregar comida e medicamentos à população palestina, submetida à fome como arma de guerra na pretendia solução final perseguida pelo sionismo e seus aliados ocidentais.

O Medleen é uma embarcação que não leva armas ou militares; leva apenas ajuda humanitária, a que Israel e seu dono, os EUA, negam aos palestinos desde o início do extermínio em Gaza, em 7 de outubro de 2023. Se os ativistas não representam nenhum perigo militar ou de “segurança”, por que atacá-los com tamanha violência? Por que impedir que cheguem às costas de Gaza?

A resposta é simples: porque a ajuda humanitária não pode chegar aos civis de Gaza, às mulheres, crianças, anciãos, presos neste campo de concentração para serem exterminados, o objetivo final de Israel, agora abertamente confessado por seus dirigentes e pelo presidente dos EUA, Donald Trump.

Além disso, Israel não pode permitir que estes ativistas testemunhem a solução final em curso em Gaza e a informem ao mundo, in loco e ao vivo. A razão é a mesma da maior matança de jornalistas da história (219 contra 69 na 2ª Guerra Mundial): esconder do mundo o extermínio sionista em Gaza.

Atacar os ativistas da Flotilha da Liberdade tem as mesmas motivações dos maiores assassinatos da história de profissionais de saúde (1.411), de funcionários da ONU (203), de profissionais da defesa civil (113), professores (800): tornar inabitável Gaza e levar à morte massiva do povo palestino que habita Gaza.

Foram essas ações que levaram à maior matança de crianças de todos os tempos (9.997 por milhão de habitantes, 3,55 vezes mais que no período nazista, quando foram mortas 2.813 por milhão de habitantes da Europa da 2ª Guerra). Tudo isso tem a ver com a busca da eliminação dos 2,3 milhões de habitantes palestinos de Gaza, integral limpeza étnica.

É evidente que a ajuda humanitária da Flotilha da Liberdade é fundamental, mas é menor frente ao que os ativistas estão mostrando ao mundo: Israel não tolerará as ações de solidariedade que impeçam o extermínio do povo palestino. Se ainda faltavam, não há máscaras que possam esconder as reais intenções sionistas em Gaza.

Diante de mais esta ação criminosa de lesa-humanidade do regime degenerado de Israel, este precisa finalmente ser isolado e penalizado, seja com sanções, boicote e desinvestimento, seja com bloqueio militar, inclusive implacável ataque bélico, que vise proteger o povo palestino do maior desastre humano da história.

Se a humanidade parou a Alemanha nazista e destruiu seu regime, é nosso dever histórico parar o Israel sionista e destruir seu regime. Termos feito isso fez bem à humanidade e ao povo alemão. Parar Israel hoje trará segurança para a humanidade e salvará palestinos e israelenses da ideologia fascista sionista e de seu regime genocidário.

Nossas mais irrestritas solidariedade e gratidão aos 11 ativistas da Flotilha da Liberdade.

Por fim, o Brasil tem o dever legal, político, ético e moral de romper todas as relações com este regime análogo ao nazista que atende pelo nome fantasia Israel, até que este pare o genocídio em Gaza e cumpra todos os ditames do Direito Internacional e das Resoluções da ONU para a Palestina.

Palestina Livre a partir do Brasil, 8 de junho de 2025, 78° ano da Nakba.

segunda-feira, 24 de março de 2025

 

A Ordem das Grandes Potências: A nova realidade geopolítica de Trump

By estatuadesal on Março 18, 2025

(A l e x a n d r e D u g i n, in ArktosJournal, 17/03/2025, Trad. Estátua)

Alexandre Dugin afirma que a visão geopolítica de Trump abandona o globalismo liberal em favor de uma “Ordem das Grandes Potências” multipolar, onde a verdadeira soberania pertence apenas aos estados civilizacionais autossuficientes, cada um consolidando o seu próprio grande espaço, anunciando a fragmentação da velha ordem mundial e a ascensão inexorável de hegemonias regionais.



Hoje, a geografia da nova ordem mundial que Trump e os seus apoiantes estão determinados em construir está a tornar-se cada vez mais clara. Desta vez, Trump 2.0 está firmemente decidido a romper com o globalismo liberal de esquerda e com os neocons (que são, na sua essência, apenas outro tipo de globalistas) e recusa a comprometer-se com tais projetos. Ele está a cortar laços com o passado e a colocar o porta-aviões dos EUA num novo rumo.

O modelo de relações internacionais ao qual Trump adere pode ser descrito como a "Ordem das Grandes Potências". Esta é uma extensão lógica de toda a ideologia MAGA — "Make America Great Again". O próprio nome evidencia que não se trata do Ocidente, não se trata de espalhar a democracia liberal em todo o mundo, e não se trata de atlantismo, mas especificamente dos Estados Unidos como um estado-nação. De acordo com a visão de Trump, este estado deve libertar-se completamente do globalismo, juntamente com as restrições, obrigações e imperativos associados a ele. Aos olhos de Trump, quase todas as instituições internacionais existentes refletem a velha ordem, enquanto ele busca criar uma nova ordem. Isso aplica-se a tudo — à ONU, à NATO, á OMC, à OMS e todos os outros órgãos supranacionais. Ele vê-os todos como sendo criações de liberais e globalistas, enquanto ele próprio se mantém firme e consistentemente ancorado nos princípios do realismo.

Realistas e liberais são as duas principais correntes de pensamento em relações internacionais, opondo-se em todos os aspetos, especialmente na sua compreensão fundamental da soberania. Os realistas consideram a soberania absoluta, enquanto os liberais a veem como sendo relativa, esforçando-se para subordinar administrações nacionais a uma autoridade internacional superior. Na visão deles, isso deve eventualmente levar à unificação da Humanidade e à criação de um Governo Mundial. Os realistas rejeitam tal ideia categoricamente, vendo isso como um ataque à liberdade e à independência dos estados. É por isso que os trumpistas se referem aos globalistas como o "Estado Profundo" — a entidade que busca subordinar a política dos EUA a uma agenda supranacional.

Um protótipo de política globalista pode ser encontrado em “Fourteen Points” de Woodrow Wilson, que, após a Primeira Guerra Mundial, delineou o papel dos EUA como uma potência global responsável por promover a democracia liberal à escala planetária. Trump, por outro lado, no espírito da escola realista, gravita em direção à Doutrina Monroe anterior — “América para os americanos”, que implica evitar o envolvimento ativo na política europeia e a recusa de interferir nos assuntos internos de outros estados fora do continente americano (e mesmo assim, apenas quando eventos nas Américas afetam diretamente os interesses nacionais dos EUA).

No entanto, deve-se notar que o Trumpismo difere em alguns aspetos do realismo clássico. Para Trump, o que importa não é meramente o status legal da soberania, mas algo mais crucial — a capacidade de um estado conquistar, estabelecer, fortalecer e defender a sua independência frente ao mais sério rival potencial. Portanto, não se trata de soberania em geral, mas de soberania real, apoiada por um volume correspondente de recursos — económicos, militares, demográficos, territoriais, naturais, intelectuais, tecnológicos, culturais e assim por diante.

O proeminente estudioso americano de relações internacionais, Stephen Krasner, também ele defensor do realismo, referiu-se à soberania nominal puramente legal como uma "ficção" e até mesmo uma "hipocrisia". John Mearsheimer, um realista clássico, tem a mesma visão. Donald Trump também compartilha dessa perspetiva. Na opinião deles, a verdadeira — real — soberania só pode pertencer a uma grande potência. Consequentemente, o realismo está a ser atualizado para um nível que não envolve apenas estados comuns, mas estados civilizacionais completos e autossuficientes. Esse é o tipo de ordem mundial que Trump prevê como o roteiro para sua revolução geopolítica. Por um lado, é uma rejeição completa do globalismo; por outro, é um movimento em direção à integração regional de "grandes espaços", o que é necessário para a autossuficiência e autarcia de uma grande potência.

Disso decorre o curso lógico em direção à anexação do Canadá e da Groenlândia, bem como a prioridade das relações com a América Latina num paradigma que mais beneficiaria os Estados Unidos.

É interessante notar a ambiguidade do slogan MAGA. Não está totalmente claro a que “América” se refere. Apenas os EUA? Ou toda a América do Norte (incluindo Canadá e Groenlândia)? Ou talvez até mesmo todas as Américas, incluindo a América do Sul? Essa ambiguidade não é acidental. Ela abre o horizonte de um “grande espaço” sem estabelecer limites claros preventivamente. Além disso, o apelo de Trump para tornar a América grande novamente pode ser interpretado como um apelo para a sua expansão territorial. Da mesma forma, o termo “Mundo Russo” é usado, estendendo-se para além das fronteiras da Federação Russa com limites indefinidos. O “Mundo Russo” é sinônimo do estado civilizacional russo, ou seja, a Grande Rússia.

Trump, por sua vez, pensa em termos do seu próprio estado civilizacional — a Grande América. Ao mesmo tempo, ele não tem pressa, nem pretende, abandonar a hegemonia — pelo menos ao nível regional. Mas ele está a mudar a configuração dessa hegemonia. Não é mais uma ordem mundial liberal baseada em regras em constante mudança e na usurpação do poder por elites cosmopolitas internacionais (no espírito do projeto global “Open Society” de George Soros), como era operacionalizado pelo Deep State, que Trump desmantelou. Em vez disso, é a liderança dos Estados Unidos como uma grande potência entre outras grandes potências que possuem soberania real — não nominal — e capaz de competir com os EUA de uma forma ou de outra.

A nova ordem de Trump prevê quantas grandes potências? ​​O professor Mearsheimer reconhece apenas três: os EUA, a China e, ficando um pouco atrás das duas primeiras, a Rússia. Ele continua cético sobre a Índia, acreditando que ela ainda não acumulou o potencial necessário para competir seriamente com as outras. No entanto, existem outras perspetivas — alguns argumentam que a Índia também pode ser classificada como um estado civilizacional. No entanto, em relação aos EUA, China e Rússia, quase todos os realistas concordam: essas nações poderosas — embora poderosas de maneiras diferentes — possuem o mínimo necessário para reivindicar o status de grande potência.

Assim, em vez do mundo bipolar da Guerra Fria, em vez do mundo unipolar neoconservador, ou do mundo não polar dos globalistas liberais, o Trumpismo prevê um mundo tri ou tetra polar, com um equilíbrio de poder definindo a arquitetura da futura ordem mundial. Isso exigirá o restabelecimento de quase todas as instituições internacionais para que elas reflitam realidades reais em vez de serem resquícios fantasmas de eras passadas, não mais ancoradas na realidade concreta.

Tal projeto pode parecer bastante similar à multipolaridade. De facto, o Secretário de Estado dos EUA Marco Rubio reconheceu recentemente que vivemos em um mundo multipolar. China, Rússia e Índia concordariam prontamente com essa verdade, pois já possuem todas as características de polos. No entanto, Trump assume uma postura altamente crítica sobre o bloco multipolar dos BRICS, que inclui quase todas as principais civilizações e serve como uma personificação institucional e simbólica da multipolaridade.

Para Trump, a China aparece como o concorrente mais sério e até mesmo oponente. Ele provavelmente vê o BRICS como uma estrutura onde a China desempenha um papel fundamental como o estado mais poderoso — financeiramente, economicamente, tecnologicamente e assim por diante. Além disso, diferentemente do conceito de Trump de uma ordem de grande potência, o BRICS inclui não apenas grandes potências totalmente estabelecidas, mas também blocos civilizacionais emergentes, como o mundo islâmico, a África e a América Latina. Isso transforma o BRICS numa hexarquia e, juntamente com a civilização ocidental, em uma heptarquia.

Trump, no espírito do realismo frio e do pragmatismo americano, é cético em relação a qualquer coisa virtual ou potencial — isto é, algo meramente possível, mas ainda não realizado. Sua postura é essencialmente: "Primeiro, torne-se uma grande potência, depois conversaremos." Qualquer aliança além da influência dos EUA — especialmente uma em oposição a ela — será percebida como uma ameaça.

Ora, onde é que a União Europeia se encaixa nesse quadro? Bruxelas, após a mudança de administração dos EUA, encontra-se numa posição difícil. Após a Segunda Guerra Mundial, a Europa tornou-se uma espécie de província ou mesmo uma colónia político-militar da América. Mas com o afastamento de Trump do globalismo, a UE deve dissolver-se ou passar por uma transformação radical.

Algumas nações europeias — Hungria, Eslováquia, Sérvia (não membro da UE), Croácia e, até certo ponto, a Itália e a Polónia — estão inclinadas em seguir Trump e adotar o slogan MEGA: “Make Europe Great Again” (Tornar a Europa Grande Novamente). Outras estão confusas, lutando para manter o rumo globalista anterior sem o apoio dos EUA. O futuro da Europa agora depende se ela abraçará a soberania real e os valores tradicionais — ou perecerá.

O gelo do velho mundo está a quebrar-se. O degelo já começou.

 

A Paz à vista

By estatuadesal on Março 19, 2025

(Joseph Praetorius, in Facebook, 18/03/2025, Revisão da Estátua)


Trump olha Putin como um igual? Olha-o como um estadista, em todo o caso, cujo Estado não depende de ninguém para entrar em guerra. Ao contrário das gentes em Kiev, em tudo dependentes do apoio externo para se baterem, fazendo-o, de resto, com desprezo assustador pelas vidas dos seus soldados.

As gentes em Kiev não estão, portanto, em posição de pôr condições. Podem, quando muito, chamar a atenção para este ou aquele detalhe, lançar este ou aquele apelo. Pôr condições, porém, é coisa a exigir que os ponham no seu lugar. Como fez Trump, justamente.

A troca de impressões de Trump com Putin - embora se não saiba tudo sobre ela, nem possa saber-se - revela as diferenças fundamentais entre os papéis e os respectivos protagonistas. A Rússia é sujeito. Os de Kiev são objeto. A Rússia tem projetos soberanos. Os de Kiev, têm meras oportunidades que, aliás, tendem a perder.

O cessar-fogo é pois, e para já, parcial. A Rússia poupará as infraestruturas de energia e outras. E os de Kiev não podem atrever-se a atacar com "drones" quaisquer instalações em território russo.

As questões da navegação no Mar Negro têm de ser mais cuidadosamente estudadas. Embora imediatamente. Como as demais ampliações do cessar-fogo.

Evidentemente, carece de sentido fazer cessar operações militares em qualquer quadrante, se isso significar o prosseguimento dos fornecimentos de armas por parte de quem queira prosseguir a guerra, à custa das vidas de soldados ucranianos.

O mesmo se dizendo quanto à mobilização, que se faz de modo tão ultrajante para os direitos das vítimas, enquanto os filhos das pretensas elites se passeiam em carros de alta cilindrada de Portugal à Polónia.

Há coisas a sustar desde já. Os norte-americanos não podem estabelecer conversações ao mais alto nível e conceder às gentes de Zelensky informações, satélites e técnicos de navegação que permitam atacar solo russo. Putin sublinhou a necessidade disso parar. Não há reparos a formular a essa posição.

As operações militares, terrestres, aéreas e navais, prosseguirão - com as acordadas exceções - enquanto o desenvolvimento do estudo das demais questões prossegue.

Quanto ao fundo das questões, Trump sabe bem que boa parte da população ucraniana fala russo e quer continuar a usar a sua língua.

Sabem os americanos perfeitamente, também, que a Igreja Canónica dirigida pelo Santo Metropolita Onofre não pode continuar a ver os seus bispos, sacerdotes e leigos espancados, presos e desaparecidos, não pode continuar a sofrer o roubo dos seus tesouros, o saque das suas bibliotecas, o desalojamento dos seus monges, a apropriação selvagem das suas igrejas e catedrais, com o comprometimento dos papistas do lugar - ou os equivalentes de Bartolomeu do Fanar - gente de sórdido oportunismo, de apavorante e cobarde violência, cuja conduta não pode deixar de ser repugnante aos olhos de qualquer americano, porque a América resulta da reivindicação - e concretização - da liberdade religiosa.

Não me venham com a treta da Igreja do Santo Metropolita Onofre ser instrumento de outro estado. Primeiro, por não ser verdade, depois, porque, desse ponto de vista, todas as estruturas do papismo haveriam de ser proibidas, por serem gente de estado alheio, como o sublinhava Locke na sua Carta sobre a Tolerância... Se insistirem nessa via, os resultados podem bem revelar-se surpreendentes.

A desnazificação, a desmilitarização, a neutralidade, a defesa das populações, das suas liberdades e dos seus direitos à existência - de tradição e cultura russa, de tradição e cultura romena, de tradição e cultura húngara, de tradição e cultura polaca - devem ser, no acordo de paz, cuidadosamente reguladas.

A Ucrânia, se conseguir existir - o que se não dá por demonstrado - não pode senão conceber-se, no plano interno, como estado federal - ou regionalizado, com muito amplas autonomias - e estritamente neutral no plano externo.

Os europeus devem ser mantidos longe disto, para não ouvirmos daqui a uns anos que tais acordos teriam sido mero truque para enganar russos. Esse é aliás um dos motivos pelos quais Zelensky não pode outorgar seja o que for. Para que não venham dizer-nos que é tudo nulo, por ter outorga de homem com mandato caducado.

A Europa perdeu importância. Foi vencida. Mas sobretudo perdeu credibilidade. Aviltou-se. É outra capoeira a cujas galinhas alguém arrancou as penas.

A paz fará agora o seu percurso, apesar de se manterem ainda algumas operações militares. E a Rússia festejará em paz a imposição da razoabilidade que tão dispendiosamente acabará por conseguir. À Europa resta-lhe, por ora, conformar-se à subalternidade onde se colocou e lhe cabe hoje em todos os quadrantes.

 

Defesa da Europa e o Dom Quixote de La Mancha

By estatuadesal on Março 20, 2025

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 20/03/2025)



“Precisamos de uma mentalidade de defesa europeia a todos os níveis na Europa”, disse António Costa durante a 164.ª sessão plenária do Comité das Regiões Europeu.

António Costa repetiu o “mantra” da Europa ameaçada pela Rússia para justificar as colossais despesas em material de guerra previstas para os próximos anos e que, na verdade, servem para compensar a perda de lucros dos grandes grupos resultantes da perda de competitividade dos produtos europeus no mercado mundial, resultante em boa parte da política de substituição da energia barata importada da Rússia pela energia cara dos EUA, e da perda de mercados do antigo Terceiro Mundo para a China.

“A guerra da Rússia contra a Ucrânia tem sido um ato de agressão, causando sofrimento humanitário. Mas também ameaçador para a segurança europeia”, alertou, ao defender que “nada sobre a guerra contra a Ucrânia pode ser decidido sem a Ucrânia” e que é necessário “intensificar os esforços para construir uma Europa da Defesa”, acrescentou.

António Costa considerou que é necessária a “confiança dos cidadãos” na capacidade de a Europa os defender. Mas defender de quem?

Este mantra assenta num conjunto de sofismas — isto é, de deturpações grosseiras. O primeiro é o da ameaça russa. A Rússia nunca atacou a Europa, e Europa é um conceito muito plástico e utilizado segundo as conveniências do pregador. A Rússia faz parte da Europa e da sua história e esteve envolvida nos conflitos europeus como todas as outras potências, da Suécia aos império austro-húngaro, e franco-prussiano, da França à Espanha e à Polónia.

A nova Europa é uma entidade criada pelos dirigentes europeus perdidos entre o final da administração Biden e o início da administração Trump e que ficaram na situação das moscas que caíram numa mancha de óleo se agitam muito sem sair do mesmo sitio. Esta Europa sem formas definidas é Bruxelas e é um produto dos funcionários de Bruxelasque andam em palpos de aranha para justificarem a existência e, mais difícil ainda, a sua utilidade.

Em desespero de perdas, a oligarquia europeia recorreu à velha solução da guerra e dos armamentos e colocou os seus agentes nos mais altos cargos da União Europeia a vender a ideia da invasão russa, da reconversão das fábricas de automóveis em tanks e das de latas de conserva em cartuchos dos operários em soldados.

A ideia seria boa, se não obrigasse os europeus a comprar um pacote de burlas tão valiosas como garrafas de ar de Fátima e a assumirem serem mentecaptos ou peregrinos chegados a um santuário de realidade virtual. Em Dom Quixote de La Mancha, Cervantes antecipou este delírio de ver castelos em moinhos, legiões em procissões, mas não chegou à desfaçatez de impor o pagamento do Rocinante, nem da lança de combate!

Na realidade, a Rússia, após três anos de invasão da Ucrânia, avançou 200 quilómetros e segundo informações ocidentais está próxima de atingir o máximo de potencial militar sustentável pela sua economia. A distância de Kiev a Paris é de 2400 quilómetros. O que significa que a este ritmo a Rússia necessitaria de 36 anos para atingir o centro da Europa. É evidente que esta contabilidade apenas serve para realçar o absurdo do tipo de argumentos dos armamentistas.

A desonestidade dos dirigentes europeus revela-se no que omitem e manipulam: a Ucrânia deixou de ter interesse enquanto objetivo militar e económico. Para a Rússia não serve de corredor de ataque à “Europa”, como revelam as dificuldades em avançar, mas também não serve para a “Europa”, mesmo rearmada, invadir a Rússia e conseguir o que nem Napoleão nem Hitler conseguiram, como o falhado contra ataque ucraniano apesar do maciço apoio ocidental demonstrou. Economicamente, as matérias-primas, os terrenos valiosos e infraestruturas já foram negociados pelo Reino Unido e principalmente pelos EUA. A Rússia, pelo seu lado, possui em quantidade todas as matérias-primas existentes na Ucrânia e basta-lhe o controlo dos portos do Mar Negro. O saque da Ucrânia está negociado entre os EUA e a Rússia. Assistimos apenas a cenas de disfarce que permitam à Ucrânia e à nova Europa saírem de cena sem humilhação. O anúncio do rearmamento da Europa faz parte da comédia de enganos com que os dirigentes europeus estão a iludir os europeus. Acontece que é um caríssimo número de ilusionismo.

Também não se vislumbra o interesse da Rússia em “invadir” a nova Europa que não dispõe de matérias-primas, que é um anão nuclear, que não domina tecnologias exclusivas, caso da Inteligência Artificial, que não tem presença significa no espaço nem nas redes de informação e comunicação, que é vista pelo resto do mundo como uma antiga potência colonial, um anexo dos EUA ou um resto abandonado por estes, o que ainda é mais humilhante, o que ainda torna mais absurda a despesa em armamento para se defender de quem não vê vantagens na sua conquista, a Rússia, que compraria um saco de gatos historicamente causadores de perturbações locais e mundiais.

O rearmamento da Europa faz tanto sentido como comprar uma armadura e um arreio de prata para um burro velho e convencer os pagantes de que têm ali um cavalo de batalha que os defenderá de um inimigo imaginário. O Dom Quixote de La Mancha antecipou este cenário.