Translate

quinta-feira, 5 de abril de 2018

Contra os pulhas marchar, marchar

por estatuadesal

(Por Valupi, in Blog Aspirina B, 04/04/2018)

CM-Viagra

Para além de se rirem à gargalhada do Código Deontológico dos Jornalistas e do Estatuto do Jornalista, para além de terem uma actividade criminosa regular ao serviço de uma agenda política, para além de se conceberem como uma organização paralela ao Estado de direito, a comercialização da pornografia e a redução das mulheres a objectos e animais sexuais é parte principal do sucesso do Correio da Manhã, tanto na versão em papel como no cabo. Eis um exemplo da passada quarta-feira:

Temos uma jovem fêmea em fato de banho a propósito de ser actriz algures. Temos uma senhora em roupa interior a propósito do Trump. Temos três rabos de três fêmeas adolescentes a propósito da Páscoa e do Algarve. Temos uma manchete sobre os “viagras” a propósito não se sabe do quê. E ainda temos, no canto superior direito, a promessa de se mostrar a namorada nua de um ou uma (não sei porque não consumi o artigo) jovem de Aveiro. Uma capa que é foda.

Este é o líder da imprensa escrita em Portugal, e da informação no cabo, uma fonte que irradia para o espaço público uma cultura machista e abusiva tão ao gosto “popular”. Os números validam os seus critérios, é o mercado a funcionar. A única moral que respeitam é a das audiências mais desqualificadas e pulsionais, como vimos no caso do vídeo publicado no ano passado sobre um episódio de bebedeira num autocarro com estudantes no Porto. Enfim, qual é o mal de deixar as senhoras exibirem as suas mamas e cus, se elas não se queixam e até agradecem a atenção? Qual é o mal de ilustrar a paisagem de uma praia com juvenis e graciosos traseiros de umas incautas raparigas? E qual é o mal, ó deuses, de chamar para a 1ª página o belo gesto do tal jovem de Aveiro que resolveu partilhar com o mundo a sua admiração pela anatomia da namorada? Estamos a falar de Aveiro, raios, não de uma terreola qualquer perdida no Baixo Alentejo.

Estranhamente, a Cofina, a entidade responsável por este tremendo sucesso comercial que fica como ex-líbris da sociedade que somos, não é alvo de qualquer agressividade pelas entidades e personalidades dedicadas e empenhadas na luta pela dignificação da condição feminina e pela igualdade de direitos entre os sexos. Os políticos, mesmo os valentões dos esquerdolas que não perdem uma oportunidade para sovarem os imperialistas e reaccionários que os cercam, calam-se quando se trata da Cofina. A criminosa e degradante Cofina.

E se esse silêncio se regista na esquerda pura e verdadeira, na direita e na indústria da calúnia há viscerais louvores ao que se passa no esgoto a céu aberto. Se o tema da conversa for poderes fácticos, a Cofina será um dos mais poderosos em Portugal tal a rede de influências e dependências que montou. Até o actual primeiro-ministro e o actual presidente da câmara de Lisboa, dois dos melhores políticos no activo, já por lá andaram a contribuir para aquela miséria.

O texto do Octávio Ribeiro onde trata o Gélson como um escravo fugido da plantação de açúcar é o espelho cristalino da axiologia que está em causa no que só aparentemente é díspar, a violação dos códigos deontológicos e a violação da condição humana. Que este esgoto a céu aberto tenha a protecção das forças onde depositamos a nossa confiança cívica e política, social e cultural, é uma prova do subdesenvolvimento estrutural que nos diminui a liberdade. Que fique calado quem quiser ser cúmplice destes pulhas.

Ladrões de Bicicletas


Moda Nancy Catalunya

Posted: 05 Apr 2018 02:31 AM PDT

Nos dias em que, no Brasil, se assiste a mais uma manifestação de judicialização da política - ou por palavras mais justas, a um claro acto de orientação política por parte de elementos da superstrutura judicial do velho Estado nunca desmantelado graças a uma transiçãopacífica - gostaria de dar imagem de outro caso semelhante mais próximo de nós.
Se dúvidas havia sobre uma sintonia entre os analistas políticos da TVE, a direita no Parlamento da Catalunha e os membros do Governo Rajoy, as imagens mostram-na de forma transparente. A moda Nancy Reagan continua a reinar, agora já reformatada. E de forma cada vez mais exaltada e acirrada.
Estranha e paulatinamente os elementos antidemocráticos, alçados em nome da defesa da Democracia, vão escorregando tão bem por entre nós, com apoio e cobertura de uma verdadeira internacional antidemocrática, com sede aparente em Bruxelas, cara de uma centralização europeia, comandada sabe lá Deus por quem... e que se vai transformando num simulacro de soberania popular em que apenas se vota o que alguém decide o que é permitido votar. E com o poder repressivo do Estado, desde aos serviços secretos até à Justiça.
Bem sei que não se compara (porque não?), mas dá-me sempre calafrios estes estados de letargia colectiva, de apatia de animais entorpecidos, de cabeça baixa durante anos e anos, porque me lembram como foi que - nas grandes democracias ocidentais - se foi aceitando que os nazis viessem buscar pessoas a casa. Ou a polícia política em Portugal e Espanha, logo no pós-segunda guerra mundial.
Não foi assim há tanto tempo.    

As duas pobrezas

Posted: 04 Apr 2018 07:29 AM PDT

Toda a gente sabe dizer mal da pobreza, da precariedade e da desigualdade.
Todos valorizam o voluntariado e gostam de dar uns sacos de plástico aos pobres, de ora em quando, ou à noite a quem dorme ao relento. Sabe tão bem: parece que somos úteis.
Até o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, há bem pouco tempo fez um discurso muito repetido na comunicação social. "Eu tenho vergonha”, afirmou ele. Até disse algo tão radical como: "É urgente juntar ao crescimento e ao emprego uma estratégia autónoma nacional de combate à pobreza, para a sua erradicação".
Ora, esta ideia da autonomia da pobreza é uma ideia errada porque dissocia os diferentes fenómenos da mesma causa - a eminente causa laboral. Como se os pobres medrassem nas cidades por autogeração, espontânea e até às vezes voluntária. Este pensamento tem se traduzido numa estratégia de combate autónomo aos pobres que tem, aliás, sido seguida - de forma mais ou menos acentuada - pelas políticas públicas, atacando apenas a juzante do problema.
Por isso, não é de estranhar que Portugal insista em ter - há décadas!! - mais de um quinto da população na pobreza. E tem ainda mais se não fosse o Estado a ajudar.
Mas quando alguém insiste em ligar o problema da precariedade laboral ao da pobreza, - fazendo eco de muitos estudos académico nesse sentido - aí o assunto é rapidamente empurrado para o quarto escuro da discussão política, de preferência acusando quem o suscita de ser comunista, radical de esquerda ou sindicalista da CGTP, o que é uma táctica muito Estado Novo de "resolver" o problema, mas tão actual entre nós.
Por isso, não é de estranhar que, ainda hoje o deputado do CDS António Carlos Monteiro, na audição do ministro do Trabalho sobre as alterações laborais em discussão, clamou que "a reforma laboral tem sido um sucesso". E lá voltou a repetir que foi essa reforma a suscitar o crescimento do emprego que hoje se sente. Ou seja, a reforma laboral de 2012 que aprovou uma longa lista de medidas, reduziu fortemente as retribuições salariais, aumentou o tempo de trabalho sem retribuição, acabou com o descanso compensatório por trabalho extraordinário, impediu a subida do SMN, asfixiou a negociação colectiva, abriu a porta à individualização da negociação, empresa a empresa, embarateceu fortemente o despedimento e ainda - pasme-se! - reduziu substancialmente os apoios aos desempregados...
Por isso, como alertou o próprio ministro,"é deveras impressionante que os beneficiários do subsídio social de desemprego inicial sejam pessoas que terminaram um contratos a termo sem direito a subsídio de desemprego e com condições de recursos que os habilitam a subsidio social de desemprego... "
Não é por acaso que as sociedades mais felizes - outra notícia muito divulgada na nossa comunicação social - está nos países nórdicos, que têm - ainda... - dos mais elevados níveis de sindicalização. E que esse nível de sindicalização vai de par com os mais elevados níveis de protecção no emprego. E que esses níveis de protecção no emprego andam de mão dada com o incentivo à contratação colectiva e com o papel dos sindicatos nessa negociação. Não é por acaso que nesses países se insista na protecção laboral e social como um bem colectivo.
Nada acontece por acaso e convém olhar para o que se tem feito em Portugal. Todos a legislação laboral tem evoluído - há décadas!! - no sentido de "partir a espinha" ao sindicalismo; de esvaziar  e até asfixiar o papel dos sindicatos (de preferência substituindo-os por comissões de trabalhadores - às vezes promovidas pelo patronato como na AutoEuropa); de esvaziar a contratação colectiva, de facilitar uma contratação em trabalho temporário, reforçando uma negociação individualizada que se reflecte invariavelmente num despedimento individualizado por negociação (protegido pelo Código doTrabalho e como tal pago pela Segurança Social em subsídios de desemprego); de se encontrar formas variadas de contratação precária - e mal paga - em que o trabalhador perdeu todo o poder negocial; de esvaziar as entidades reguladoras (como a ACT) e de dificultar legalmente o papel da Justiça laboral, ao legitimar os despedimentos ilegais.
Também não é por acaso que não se quer olhar o problema de frente. É preferível que Portugal seja um país com produção integrada de pobres, a quem os protegidos distribuem sacos de plástico - algo, aliás, tão Estado Novo! Só dessa forma se poderá manter trabalhadores educados na ideia de que a sociedade é assim e deve ser assim - pobre e mal paga. Somos assim, nós os Portugueses, dizem. E quem não gostar, que emigre.
Mas esta foi a lógica que funcionou em Portugal há apenas uns 40 anos. É uma lógica que os filhos das personagens do Estado Novo herdaram e reproduzem no Parlamento como se defendessem, cega e automaticamente, o reino deixado pelos seus pais. Foi de lá que Marcelo veio e medrou. Vamos repetir tudo outra vez?
Está em discussão um conjunto de alterações laborais, introduzidas pela mão do Governo e cujos projectos legais ainda não são conhecidos. É bom que nos debrucemos todos sobre as implicações dessas alterações. Porque delas dependem milhões de pessoas. E o país.

Sobre as quotas, eu, preguiçoso, encorajo

Novo artigo em BLASFÉMIAS


por vitorcunha

Podemos argumentar o que quisermos sobre quotas para mulheres, que nada têm que ver com quotas para brancos ou sobre estabelecimentos nos quais só podem entrar casais de sexos diferentes. Podemos questionar o que é o género e se este tem alguma relação com sexo para podermos questionar o porquê de as quotas de sexo não serem extensíveis a género (coitada da Felisberta, que além de padecer de uma morte emocional por ter nascido com pénis, ainda é discriminada com a lei das quotas de sexo). Podemos questionar como se afere o sexo de alguém à luz das questões de género, e podemos passar o resto da vida a coçar a cabeça para perceber porque é que alguém perde tempo com isto tudo (desperdiçador de tempo me confesso). Podemos até perguntar porque é que não se aplicam as quotas a um casamento, mas seria sempre fútil.

O que importa é que fica sempre bem mais mulheres entre homens. Os críticos das quotas nem estão a contemplar todas as questões logísticas que ficam imediatamente resolvidas: por exemplo, em vez de uma administração contratar um serviço de acompanhantes à peça, pode contratar em regime permanente, com direito a seguro e 13º mês, reduzindo brutalmente as contas de hotel.

As quotas são é más para as mulheres que querem ser levadas a sério como profissionais. Para as outras, as que querem ser conhecidas pelo busto, é uma benção e, convenhamos, para os homens (que todos sabem que nasceram todos com o pecado original de serem predadores sexuais), é menos uma preocupação. No fundo, é a institucionalização democrática e republicana do tradicional bordel, o local onde, desde sempre, foi possível encontrar a equidade total (às sextas de bom movimento).

Caso Skripal: o Reino Unido mentiu

Caso Skripal: o Reino Unido mentiu

05/04/2018 by João Mendes

T.jpg

Há exactamente duas semanas, a 22 de Março, o Ministério dos Negócios Estrangeiros britânico lançou o tweet que pode ser visto em cima, garantindo que a arma química usada para executar o espião Sergei Skripal em Salisbury era de fabrico russo. Curiosamente, ou talvez não, o tweet em questão foi posteriormente apagado. Como diria o outro senhor, “que passou-se”?

No mesmo dia, quase à mesma hora, e sem apresentar qualquer prova de que o regime russo estava por trás do assassinato, Theresa May instava os seus aliados a expulsar diplomatas russos, afirmando ainda que a ameaça russa não respeita fronteiras, o que é sempre muito interessante vindo da líder de um país que tem um longo historial de não respeitar fronteiras sempre que os seus interesses económicos possam estar em risco. Russos, britânicos, americanos, há hipócritas destes para todos os gostos. E hordas de palermas para os seguir.

Nem duas semanas depois, e já com a Europa em polvorosa a assistir à maior onda de expulsão de diplomatas russos de que há memória, somos confrontados com um novo dado, quando os “world-leading experts” de Porton Down, os tais que alguns dias antes asseguravam que o agente nervoso Novichok havia sido produzido na Rússia, confirmaram à Sky News que não é possível garantir que a arma química usada para eliminar Skripal tenha origem russa. Ora isto traz-me qualquer coisa à memória. O que será? Ah! Já sei: as armas de destruição maciça do regime iraquiano, que serviram de pretexto para invadir um estado soberano que está hoje infinitamente pior do que estava no tempo de Saddam, por mais incrível que possa parecer.

Não sei de que forma este novo dado irá afectar o circo montado por Theresa May, mas fico muito satisfeito por o governo português ter decidido não optar pelo papel servil e patético em que Durão Barroso nos colocou em 2003, arrastando o país para uma vergonhosa invasão, sem questionar a veracidade das provas que afinal não existiam. Porque, nesta fase, ainda corremos o risco de estar perante mais uma encenação, uma encenação à qual os interesses da indústria petrolífera, da banca internacional, do grande retalho ou do comércio de luxo continuam imunes. Porque a convicção destes tipos, sejam eles May, Macron ou Trump, termina sempre onde os interesses do grande capital começam. E o que seria da Premier League, da City londrina ou dos motoristas de limousine parados à porta do Selfridges sem o dinheiro sujo que a oligarquia putinesca vai extorquindo ao povo russo para encher os mais variados cofres por terras de Sua Majestade?

Reino Unido é incapaz de provar que substância para envenenar Skripal era da Rússia

Gary Aitkenhead, que, em Porton Down, é chefe do centro de pesquisa militar da Grã-Bretanha, da primeira-ministra Theresa May, declarou que os especialistas não conseguiram identificar a fonte precisa da substância usada para envenenar o ex-agente russo, Sergei Skripal.

Afirmou Aitkenhead, citado pela agência Sky News.

No entanto, ele afirmou que o agente nervoso exigia “métodos extremamente sofisticados para criar algo apenas nas capacidades de um ator estatal”. Segundo ele, não há antídoto para o agente nervoso.

O chefe do centro de pesquisa militar da Grã-Bretanha em Porton Down se recusou a comentar se o laboratório havia produzido ou mantido estoques do agente nervoso A-234, mas descartou que o agente usado para envenenar Skripal veio de Porton Down.

Não há como qualquer coisa como essa ter vindo de nós ou deixado as quatro paredes de nossas instalações”

Observou Aitkenhead.

No dia 4 de março, o ex-oficial de inteligência russo Skripal, que também trabalhava para a inteligência britânica, foi encontrado inconsciente junto com sua filha em um banco de um shopping na cidade de Salisbury.

Especialistas britânicos acreditam que eles tenham sido atacados com o agente nervoso A-234 (também conhecido como “Novichok”). Os britânicos alegam que esta substância tóxica teria sido desenvolvida na União Soviética e colocam a culpa do ocorrido na Rússia. Moscou repetidamente rejeitou todas as acusações, qualificando-as infundadas.

Texto original em português do Brasil

Exclusivo Editorial Brasil247 / Tornado