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quarta-feira, 5 de julho de 2017

A austeridade já acabou?



Steve Keen explica o básico e arrasa a teórica económica dos Tratados

O povo português tem sido levado a pensar que a palavra "austeridade" significa cortes nos salários dos funcionários públicos, nas pensões, nos serviços de saúde e educação e na redução do investimento público para que se obtenha um défice no orçamento que cumpra as metas prometidas a Bruxelas. Hoje, há quem pense que a austeridade acabou.
O que as TV e os analistas de serviço não dizem ao povo português é que, numa situação de desemprego (ainda por cima de enorme dimensão), a boa teoria económica ensina que o governo deve aumentar a despesa pública socialmente útil (em investimento e mesmo despesa corrente onde há carências) porque essa é a única forma de relançar a economia. Se os privados estão a poupar para pagar dívidas ou por receio do futuro, quem mais pode tirar a economia do buraco? Portanto, 'austeridade' tem um sentido mais amplo: significa reduzir o défice orçamental, retirando dinheiro da economia, no preciso momento em que esta mais precisa dele. Chama-se a isto política orçamental "pró-cíclica" porque agrava a recessão, em vez de a contrariar. É isto que está nos Tratados que temos de cumprir. A austeridade (nas suas diversas declinações) não é uma escolha do governo, é um modelo de política económica imposto pelo ordoliberalismo alemão.

sábado, 17 de junho de 2017

O dia em que Schäuble e Dombrovskis engoliram um grande sapo



por estatuadesal
(Nicolau Santos, in Expresso Diário, 16/06/2017)
nicolau

Portugal sai hoje formalmente do Procedimento por Défice Excessivo, para onde tinha entrado em 2009. Por parte de alguns dos principais parceiros no Ecofin do ministro das Finanças, Mário Centeno, choveram os elogios. Wolfgang Schäuble, o homólogo alemão, diz que este facto (e o pedido de pagamento antecipado de 10 mil milhões ao FMI) prova que “o programa de assistência a Portugal é uma história de sucesso”. E o vice-presidente da Comissão Europeia, “Valdis Dombrovskis, disse ver “com satisfação que os ministros das Finanças tenham aprovado a nossa recomendação para a saída de Portugal do Procedimento por Défice Excessivo. Hoje é o dia para celebrar. Amanhã é o dia para continuar o trabalho árduo”.
Se a hipocrisia matasse, Schäuble e Dombrovskis deveriam ter caído fulminados logo que fizeram estas afirmações. É que ninguém esquece – eu, pelo menos, não me esqueço; e para os esquecidos há sempre o recurso ao Facebook – as sucessivas declarações de Schäuble sobre Portugal, dizendo que o país ia no bom caminho com o anterior Governo mas que com o Governo PS e a mudança de orientação política, estava preocupado com a eventualidade de Lisboa ter de pedir um segundo resgate (em 30/6/2016 e 15/3/2017). Disse-o não uma mas duas vezes, sempre que lhe perguntavam qual era a situação do Deutsche Bank (que era péssima na altura). Dombrovskis também foi sempre muito duro com o Governo do PS e os dois puseram sucessivamente em causa a capacidade de Portugal cumprir os seus compromissos europeus, em particular as metas orçamentais, com uma política económica diferente da seguida pelo executivo de Pedro Passos Coelho e de Paulo Portas.
Mas não foram só eles. Outros responsáveis alemães, como Klaus Regling, presidente do Mecanismo Europeu de Estabilidade ou o comissário europeu Günther Oettinger falaram sobre a hipótese de Portugal precisar de um novo resgate (“Não sei qual é a probabilidade, mas é maior do que 0%”, disse Oettinger em 3/10/2016).
E é por isso que os aplausos e os sorrisos de hoje só podem esconder uma enorme estupefação sobre como foi possível, com uma orientação económica bem diferente daquela porque sempre pugnaram (falta ao ramalhete o inefável presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloen) e com um governo de centro/esquerda, apoiado por bloquistas e comunistas, atingir resultados orçamentais únicos na história do país, os melhores em 42 anos de democracia.
É que afinal todos eles foram desmentidos pelos factos: não havia só um caminho, a famosa TINA (There Is No Alternative, que sempre defenderam. A lavagem ao cérebro que nos tentaram fazer, a intimidação constante, a chantagem sucessiva, a pressão diária que fizeram afinal esboroou-se perante a realidade: era possível chegar a melhores resultados por outra via e com muito menor dor social do que aquela que nos impuseram durante cinco anos.
Ninguém se esquece os tratos de polé a que Mário Centeno foi sujeito quando chegou ao Eurogrupo. Ninguém esquece a forma sobranceira com que as suas propostas e a orientação que imprimiu à política económica foram tratadas durante longos meses. Ninguém esquece os avisos, os remoques, os alertas que lhe foram lançados, bem como as subtis ameaças, as cinzentas intimidações, o desprezo glacial.
Hoje é um grande dia para Portugal e para os portugueses. É também um grande dia para o Governo e para Mário Centeno. São eles que vão ficar para a História como o Governo e o ministro que conseguiram alcançar o défice mais baixo em 42 anos de democracia, 2%, um valor que se preparam para reduzir ainda este ano e no próximo; e são eles que ficam para a História como o Governo e o ministro que retiraram Portugal do Procedimento por Défice Excessivo, depois de nele termos caído em 2009.
Podem-se arranjar mil explicações, invocar milhentas atenuantes, mas factos são factos. E contra factos objetivos, palpáveis, não há argumentos.
O que falta agora é que outros representantes internacionais da hipocrisia, as agências de rating, venham reconhecer que a notação que atribuem atualmente à dívida emitida pela República (“lixo”) é totalmente inadequada à atual situação e que a subam rapidamente. Esta mesma semana, Portugal emitiu dívida a 10 anos abaixo dos 3% (2,8%), o que prova que mesmo os mercados reconhecem a melhoria consistente da situação económica portuguesa. O que falta para que, mesmo rangendo os dentes e cruzando os dedos, melhorem a notação da dívida portuguesa?

terça-feira, 30 de maio de 2017

Stiglitz diz que Eurogrupo precisa de líder que conheça diversidade da Zona Euro e aponta Centeno

O economista Joseph Stiglitz afirmou esta terça-feira que "seria bom para o Eurogrupo ser liderado por alguém com um grande conhecimento da diversidade da Zona Euro", considerando que o ministro português Mário Centeno tem essa capacidade.

Stiglitz diz que Eurogrupo precisa de líder que conheça diversidade da Zona Euro e aponta Centeno
Bloomberg

Lusa
30 de maio de 2017
Quando questionado sobre se o ministro português das Finanças é a pessoa indicada para presidir ao Eurogrupo, o prémio Nobel da Economia de 2001 respondeu afirmativamente: "Sim, acho que seria bom para o Eurogrupo ser liderado por alguém com um grande conhecimento da diversidade da Zona Euro", disse Stiglitz numa conferência de imprensa integrada nas Conferências do Estoril.
O professor da Columbia University acrescentou que "é tempo de o Eurogrupo ser representado por alguém que tem mais conhecimento das dificuldades que a Zona Euro como um todo enfrenta".
Joseph Stiglitz referiu-se também ao actual presidente do grupo dos ministros das Finanças da área do euro, considerando que Jeroen Dijsselbloem devia ter-se demitido depois das polémicas afirmações sobre os países do sul da Europa.
"Como uma pessoa que está de fora, fiquei horrorizado com as afirmações de Dijsselbloem. São um exemplo das disfunções na Europa. E, quando fez afirmações como aquelas, devia ter-se demitido. Achei profundamente perturbador", defendeu.
Em Março, o presidente do Eurogrupo afirmou, em entrevista ao jornal Frankfurter Zeitung, que não se pode pedir ajuda depois de gastar o dinheiro em álcool e mulheres, referindo-se aos países do sul da Europa, declarações que foram criticadas em várias frentes, incluindo pelo Governo português, e relativamente às quais Dijsselbloem veio depois pedir desculpa.
Stiglitz falou ainda sobre as agências de 'rating', apontando o fraco currículo destas organizações, que disse serem "profundamente políticas", sublinhando mesmo que nos Estados Unidos há provas de práticas de fraude ainda que não haja condenações.
Interrogado sobre se as agências de 'rating' devem subir a nota atribuída a Portugal, o economista norte-americano disse que sim, mas que é impossível saber: "Espero que as agências subam o 'rating' de Portugal, devem subi-lo, há todas a razões para que o façam. Mas porque são [instituições] políticas, quem sabe o que elas vão fazer?".
Estas afirmações surgem numa altura em que se somam as exigências de uma avaliação mais positiva de Portugal por parte das agências de notação financeira, tanto por parte das autoridades portuguesas como também do lado de Bruxelas.
O comissário europeu dos Assuntos Económicos, Pierre Moscovici, considerou hoje que o desempenho económico de Portugal merece uma avaliação mais positiva por parte das agências de 'rating' e que "os riscos não podem ser olhados hoje com os óculos de ontem", até porque "há boas razões de confiar mais em Portugal hoje, o que não era o caso no passado".
Internamente, tanto o primeiro-ministro como o Presidente da República já defenderam que é tempo de uma revisão em alta da visão destas agências: António Costa considerou que faz "pouco sentido" que as agências de 'rating' mantenham a notação de Portugal "como se nada tivesse acontecido desde 2011" e Marcelo Rebelo de Sousa argumentou que seria justo que revissem até Setembro a avaliação de Portugal.
Joseph Stiglitz, que está em Portugal para participar nas Conferências do Estoril, recebeu hoje o Estoril Global Issues Distinguished Book Prize 2017 pelo livro "O euro e a sua ameaça ao futuro da Europa", editado em Portugal em 2016.

Fonte: Jornal de Negócios

Ovar, 30 de maio de 2017
Álvaro Teixeira

sábado, 27 de maio de 2017

O Eurogrupo é nosso, ou em marcha para lugar nenhum?.



por estatuadesal
(Francisco Louçã, in Público, 26/05/2017)
louca
Francisco Louçã

Foi um balde de água fria: um ex-embaixador, versado nestas coisas europeias e que não é propriamente um adversário do governo, veio escarnecer dessa “saloiíce lusitana” que teria levado a que alguém, fora “do seu perfeito juízo”, acreditasse que a sibilina frase de Schauble sobre “o Ronaldo do eurogrupo” fosse “algo mais do que uma arrogante boutade”. Lembrou Seixas da Costa que Schauble só defendeu em público um ministro e o nome dele é Dijsselbloem (precisamente contra as críticas portuguesas por outra boutade mais séria). Nicolau Santos conclui, e quem o pode criticar, que Schauble está a gozar connosco.
Feitas as contas, percebem-se duas evidências: primeira, ao governo português convém que esta hipótese seja espanejada e, segunda, não é fácil ao Eurogrupo encontrar um socialista que não seja francês nem italiano e que possa ocupar o cargo. Mas, como lembra Seixas da Costa, a ser um socialista, será provavelmente uma operação ventríloqua do governo alemão, alguém confiável como o foi o ministro holandês. Restaria ainda perguntar que faria Centeno nesse lugar: imaginemo-lo a negociar com a Grécia ou a fazer advertências sobre o défice estrutural português, para podermos antecipar a armadilha.
Em qualquer caso, é interessante compreender o que pensa o ministro português – e o seu governo – a respeito da questão europeia, para além deste circunstancialismo da desejada vacância de Dijsselbloem. E, a esse respeito, provocou algum debate o seu artigo sobre o sucesso da saída do Procedimento por Défice Excessivo, em que houve quem quisesse ler um programa para a Europa e portanto a confirmação da ambição pelo lugar europeu. Ferro Rodrigues, nas jornadas parlamentares do PS, acrescentou alguma teoria a este debate, com a crítica à assimetria do euro, assunto em que Centeno sempre foi mais reservado.
Falso alarme, porque o ministro se limita a pedir que se complete a União Bancária com um Fundo de Garantia de Depósitos e que haja uma solução para o crédito mal-parado (qual?). Ora, podemos então perguntar por que razão estas questões se arrastam, visto que já estão a ser faladas ou mesmo prometidas há vários anos. E em ambos os casos a razão é a mesma: dinheiro. Um fundo de garantia significa que a UE paga se houver uma crise bancária; uma solução europeia para o mal-parado significa que a UE paga os desvarios anteriores. E a UE não quer pagar. Schauble gosta de jogo de bola, desde que não haja bola. E Schultz, agora em queda depois de tanta promessa de redenção alemã, veio explicar ao Financial Times que pensa precisamente como Schauble. Assim, como se nota num recente documento do governo português, é dado por certo que não se passará nada e portanto bastam algumas proclamações sobre o “défice democrático” e como seria conveniente “reforçar a zona euro”.
Macron, mais afoito, sugere um ministro europeu das finanças, além de curiosas convenções em todos os países, com data marcada e agenda feita, refundar a Europa, mas agora não, só depois do Natal. Essa proposta do ministro europeu, sim, agrada aos governantes alemães, que aliás já a apresentaram no passado, embora por alguma razão a foram deixando de reserva. Mas tem um problema: chama-se democracia, aquela coisa de os parlamentos serem eleitos para deliberar sobre o orçamento nacional e de ser inconveniente que lhes seja tão violenta e explicitamente retirada essa função.
Agora, entendamo-nos, nada disto é um programa, com a particularidade de tudo o que é solução ser inaplicável e tudo o que é aplicável não ser solução. É pedido que se complete a União Bancária, aceitando a monstruosidade do seu funcionamento e o risco actual (uma autoridade europeia pode impor o confisco de parte dos depósitos num banco nacional em caso de dificuldades); é pedido que venha dinheiro que nunca há-de vir; e, para cúmulo do entretenimento, discute-se que se reforce uma união em que a única solução discutida é a das várias velocidades.
Fica tudo dito: a solução que está em cima da mesa vai sendo aceite por se ter a certeza de ninguém saber o que quer dizer. Portanto, estamos em marcha, mas é para lugar nenhum.

Ovar, 27 de maio de 2017
Álvaro Teixeira



segunda-feira, 22 de maio de 2017

Um grande dia para Portugal e para os portugueses

 

(Nicolau Santos, in Expresso Diário, 22/05/2017)
nicolau
A decisão da Comissão Europeia, “muito clara e unânime”, de retirar Portugal do Procedimento por Défice Excessivo representa uma extraordinária e importantíssima vitória para Portugal. Mas há muitas conclusões a retirar deste resultado.
O primeiro é que vale a pena lutar em Bruxelas pelas nossas ideias e convicções, em vez de aceitar acriticamente tudo o que a Comissão e o Eurogrupo recomendam. Por eles, nunca Portugal teria aplicado a política económica e orçamental que seguiu, de devolução de rendimentos, descida da carga fiscal direta, aumento do salário mínimo, reposição de vários apoios sociais e laborais.
Não só o Governo pôs em prática essas orientações, como conseguiu fazê-lo cumprindo as exigências de Bruxelas, nomeadamente no que toca à descida do défice, onde ultrapassou claramente a meta fixada pela Comissão (2% contra 2,5%).
Mais: todas as certezas que vieram do coração da União não se confirmaram. O crescimento fortaleceu-se em vez de abrandar. O número de postos de trabalho criados aumentou e o desemprego diminuiu. O défice orçamental diminuiu e o saldo primário manteve um excedente. Com o exterior continuou a verificar-se um saldo positivo. As exportações ganharam quota de mercado. E o investimento dá sinais de finalmente levantar a cabeça. Neste quadro, prever que a economia se vai deteriorar no próximo ano parece coisa de mau perdedor.
E essa má vontade só pode ser percebida, segundo ponto, porque o pensamento maioritário em Bruxelas continua a ser dominantemente neoliberal, detestando a solução política que governa Portugal e custando-lhe muitíssimo, do ponto de vista económico, aceitar que afinal uma estratégia alternativa à TINA (There Is No Alternative) não só existia e era viável com muito menos dor social, como poderia conseguir – como conseguiu - atingir e mesmo ultrapassar os resultados que eram exigidos ao país.
Terceiro: este resultado melhora extraordinariamente a imagem externa do país. Mas o trabalho não está acabado. Esperemos agora que as três agências de rating (Moody’s, Standard & Poor’s, Fitch), que continuam a classificar a nossa dívida externa como “lixo”, concluam finalmente que manter essa classificação já não é suportada em qualquer dado económico objetivo mas apenas em preconceitos ideológicos.
Quarto, este frágil caminho tem de ser protegido de decisões irresponsáveis. Quando chegou à liderança do PS, António Costa meteu no congelador um acordo que o seu antecessor, António José Seguro, tinha subscrito com o líder do PSD, Pedro Passos Coelho, a descida anual de dois pontos na taxa de IRC. Isso é uma coisa, não desejável, mas encaixável no quadro de uma economia em crescimento. Mas uma subida do IRC, mesmo que seja a taxa marginal, como agora propõem o BE e o PCP, já não serve ninguém: nem o fisco, nem a imagem do país, nem a criação de emprego.
Quinto, é bom ter presente que os fatores externos condicionam fortemente estes bons resultados da economia portuguesa. O crescimento na União, em particular do nosso principal parceiro comercial, Espanha; e a forte insegurança que se vive no norte de África, desviando os fluxos turísticos para Portugal, são coisas que podem mudar a qualquer momento e a travar os dias felizes que vivemos.
Até lá, contudo, é tempo de brindar à saída de Portugal do Procedimento por Défice Excessivo. Haverá imensas fragilidades e são muitos os que reclamam os louros. Mas o certo é que o país conseguiu aquilo que ninguém imaginava que pudesse atingir com este Governo e estas políticas.
 
Ovar, 22 de maio de 2017
Álvaro Teixeira

segunda-feira, 24 de abril de 2017

As carpideiras e o sorriso de Centeno (estatuadesal)

 

(Nicolau Santos, in Expresso, 22/04/2017)
nicolau
Nicolau Santos

 
As carpideiras estão inconsoláveis. Perante as surpreendentes subida do PIB e descida do défice arrepelam-se, rasgam as vestes, batem com os punhos no peito e clamam: só há crescimento porque o Governo mudou de estratégia; o défice só se reduz porque o Governo cortou fortemente na despesa; as projeções para 2017 são realistas e podem vir a concretizar-se — mas a partir de 2018 tudo voltará a ser pior. Enfim, as carpideiras sentem-se enganadas. Se o Governo tivesse feito tudo o que elas achavam que iria fazer — aumentar impostos e apostar no consumo privado — o país estaria à beira de pedir um novo resgate e o cheiro a enxofre já se sentiria por toda a parte.
Mas Mário Centeno não fez o que esperavam. Alterou a composição das políticas mas manteve o rumo no sentido de cumprir os compromissos europeus. Resistiu quando era evidente o preconceito ideológico e a má vontade do Eurogrupo, do seu presidente Jeroen Dijsselbloem, do ministro alemão das Finanças, Wolfgang Schäuble, e do vice-presidente da Comissão Europeia com as pastas do euro e da estabilidade financeira, Valdis Dombrovskis. Teve também de arcar com as sucessivas análises da Comissão Europeia, do FMI, do Banco Mundial e do Conselho das Finanças Públicas bem mais pessimistas que as do Governo.
As carpideiras sentem-se enganadas. Se o Governo tivesse feito o que esperavam, o país estaria à beira de pedir um novo resgate e o cheiro a enxofre seria insuportável
Esta semana, contudo, FMI e Conselho das Finanças Públicas (CFP) vieram dar a mão à palmatória, corrigindo as suas estimativas de crescimento para este ano para 1,7%, apenas uma décima a menos do que a previsão do Governo (1,8%) — com o CFP a considerar mesmo que o cenário macroeconómico do Programa de Estabilidade para 2017-2021 “apresenta uma composição do crescimento assente no dinamismo do investimento e das exportações que (...) se afigura como a mais adequada para a sustentabilidade do crescimento da economia portuguesa”. Por seu turno, a agência de notação financeira Standard & Poor’s veio admitir na semana passada que pode vir a melhorar a nota de Portugal (atualmente em BB+, nível de não investimento ou ‘lixo’) caso venha a “baixar o volume do crédito malparado” dos bancos e se “o crescimento económico for melhor do que o esperado”. E o o banco alemão Commerzbank, que tem sido muito crítico em relação a Portugal, veio admitir que a agência canadiana DBRS pode mudar para “positivo” o rating da República com base nas notícias “encorajadoras” sobre a descida do défice acima do esperado, o crescimento económico e os avanços na reestruturação do sector bancário.
Junte-se a isso o facto de o Tesouro português ter emitido na quarta-feira dívida às taxas mais baixas do ano; e de a dívida portuguesa a 10 anos que há um mês estava nos 4,2% estar agora nos 3,76% — e ficamos com a certeza que Mário Centeno tem cada vez mais motivos para sorrir e as carpideiras cada vez mais motivos para chorar.
 
Ovar, 24 de abril de 2017
Álvaro Teixeira

segunda-feira, 10 de abril de 2017

A desconstrução europeia

Celso  Filipe
Celso Filipe | cfilipe@negocios.pt 10 de abril de 2017 às 00:01

A desconstrução europeia

Jeroen Dijsselbloem foi infeliz ao declarar que os países do Sul gastam o dinheiro em bebida e mulheres. Foi infeliz e inverdadeiro, facto que pode ser verificável nas estatísticas.
A afirmação do presidente do Eurogrupo proporcionou momentos de refinado humor, criou uma onda de choque e possibilitou que os políticos do Sul, entre os quais António Costa, se servissem da indignação para pedirem a demissão de Dijsselbloem. Que, de facto, não tem condições para continuar no cargo, atendendo ao clima de desconfiança que entretanto assentou arraiais.
A última troca de palavras a este propósito, antes da reunião da passada sexta-feira do Eurogrupo, foi exemplar. Ricardo Mourinho Félix, secretário de Estado das Finanças, disse a Jeroen Dijsselbloem estar chocado com as declarações deste, para capitalizar um eventual descontentamento da opinião pública portuguesa, ao que o holandês retorquiu, mostrando-se também chocado com a reacção do Governo português.
Este folclore corrobora a tese de que a política é sempre decepcionante, espraiando-se com uma dolência voraz na espuma dos factos e tornando invisível o essencial. As asserções de Dijsselbloem e as réplicas dos visados são orgásticas e alimentam o espaço mediático, mas são inconsequentes e classificáveis na categoria de "fait-divers". Alimentam nacionalismos bacocos, invadem o espaço dos "soundbites" e subvertem as prioridades.
Por trás delas esconde-se o essencial, o preconceito, a incultura e a fragilidade dos políticos que dominam a arena política europeia. Porque, na realidade, a afirmação de Dijsselbloem nasce de um preconceito e da tentativa de agradar a um grupo de interesses.
Isso é o pior de tudo, porque revela a fragilidade da construção europeia. Numa Europa séria e comprometida com o seu futuro colectivo, o presidente do Eurogrupo teria um conhecimento estruturado dos Estados-membros e não uma opinião baseada em estereótipos. E quando são os próprios líderes europeus a formularem leituras da realidade assentes em trivialidades e a mostrarem-se cinicamente chocados com a celeuma que criaram, torna-se impossível pedir aos seus cidadãos que se comprometam cada vez mais com o projecto europeu.
O caso Dijsselbloem é significativo na medida em que constitui mais um episódio da desconstrução europeia que está em curso e em passo acelerado.

Ovar, 10 de Abril de 2017
Álvaro Teixeira

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Parlamento Europeu em peso exige cabeça de Dijsselbloem

 

Parlamento Europeu em peso exige cabeça de Dijsselbloem

Jeroen Dijsselbloem, presidente do Eurogrupo
Jeroen Dijsselbloem, presidente do Eurogrupo
 
As polémicas declarações de Jeroen Dijsselbloem, o presidente do Eurogrupo, sobre “copos e mulheres” e os países do Sul da Europa, continuam a causar mossa e conseguiram unir todos os partidos políticos do Parlamento Europeu que exigem a sua demissão.
Na segunda-feira, os líderes de todos os grupos políticos do Parlamento Europeu exigiram a demissão de Jeroen Dijsselbloem e não é só pelos seus comentários sobre “copos e mulheres” que foram considerados como ofensivos para países como Portugal e Espanha, que tiveram que pedir ajuda financeira.
As ausências do político holandês de vários debates estão também, a causar incómodo entre os parlamentares europeus.
A “gota de água” foi a nega de Dijsselbloem em comparecer perante o Parlamento Europeu para dar explicações sobre o ponto de situação das negociações com a Grécia. Ele alegou dificuldades de agenda, o que caiu muito mal entre os eurodeputados de todos os grupos políticos.
O presidente do Parlamento Europeu, Antonio Tajani, foi particularmente duro, notando que “se espera que alguém que pede aos cidadãos europeus que façam grandes sacrifícios que também, sinta o dever de responder aos seus representantes”, conforme cita o jornal espanhol El Confidencial.
Já o presidente do Partido Popular Europeu, o alemão Manfred Weber, que até concorda com as posições do holandês quanto à importância de cumprir as normas europeias, classificou a ausência de Dijsselbloem como “um escândalo”.
E houve até quem sugerisse declará-lo persona non grata, não o deixando entrar em mais nenhuma reunião do Parlamento Europeu.

Dijsselbloem promete ser “mais cuidadoso”

Entretanto, no site do Conselho Europeu divulga-se a carta que Dijsselbloem enviou aos eurodeputados, numa resposta à missiva que recebeu destes criticando as famigeradas palavras sobre “copos e mulheres”.
O político holandês assegura que foi mal interpretado e que “não quis dizer” aquilo que lhe atribuem.
“Lamentavelmente, algumas pessoas ficaram ofendidas pela forma como me expressei”, escreve Dijsselbloem, sublinhando que “nunca” foi sua “intenção insultar pessoas”.
Serei ainda mais cuidadoso no futuro“, promete também o presidente do Eurogrupo, garantindo que está “totalmente comprometido” com o trabalho das instâncias europeias.

Costa confirma sondagem a Centeno

O primeiro-ministro português confirmou entretanto, que Mário Centeno foi mesmo sondado para suceder a Dijsselbloem como presidente do Eurogrupo.
Em entrevista à Renascença, António Costa sublinha contudo, que essa “não é a prioridade” e que é útil que o ministro das Finanças mantenha margem de actuação política na Europa.
Mário Centeno seria “certamente um excelente presidente do Eurogrupo” e a sondagem que lhe foi feita “é prestigiante para ele próprio e para o país”, mas o Governo português “não tem como prioridade” essa candidatura, frisa Costa.
“Nesta fase, é útil que o ministro das Finanças de Portugal tenha uma margem de liberdade de movimentação maior no quadro do Eurogrupo. Quem tem a presidência possui uma limitação acrescida – ou deveria ter, embora esse não seja o caso actual [com Dijsselbloem], porque tem de ser um factor de unidade entre todos os ministros das Finanças”, alega o líder do executivo.
ZAP // Lusa
 
Ovar, 5 de abril de 2017
Álvaro Teixeira

sábado, 25 de março de 2017

Mensagem para o Presidente do Eurogrupo

Para o Presidente do Eurogrupo, que disse que os países do Sul gastam o dinheiro todo em mulheres e álcool...
Não traduzas para o JELLE! Não é nada conveniente....
VAI COMO VEIO:
__________________________________________



De um ilustre amigo.

Meu caro Jeroen Dijsselbloem,
Deixa-me dizer-te duas ou três coisas sobre a malta cá dos países do sul, que pareces não conhecer bem. Nós não gastamos o dinheiro só em mulheres e álcool. Também há quem gaste dinheiro em homens. Mas isso é raro. É verdade que gostamos muito de estar com homens ou mulheres – depende de cada um – mas costumamos tê-los de borla. Quer dizer, não fazemos como na Holanda, o teu país, que tem o maior número de prostitutas por metro quadrado em todo o mundo e até as põe à venda em montras. Aí é que se gasta muito dinheiro mal gasto em mulheres. Talvez não saibas, mas há quem diga que no Verão vêm muitas mulheres do teu país à procura de homens no meu país. Duvido que eles lhes paguem alguma coisa.
Também não gastamos assim tanto dinheiro em álcool. Até porque não temos muito dinheiro para gastar em coisa nenhuma. Bebemos algum vinho, é verdade, mas é mais por razões de saúde e para dar trabalho aos nossos agricultores. Eu sei que no teu país a bebida preferida é o leite. Aqui também bebemos disso, mas é de manhã e com café. Às refeições ou quando vamos sair a qualquer lado não costumamos beber leite. E mesmo que quiséssemos não podíamos porque temos menos vacas que no teu país.
Fica a saber que os gajos mais bêbados que conheci em toda a minha vida foram dois holandeses lá para os anos 80, que costumavam acampar na Barragem de Castelo de Bode e apanhavam um pifo que durava quinze dias. Mas eram admiráveis porque ao fim da tarde atravessavam a barragem a nadar de costas, completamente bêbados, e não chegaram a morrer. De mulheres parece-me que não gostavam muito. Devia ser para pouparem dinheiro para a pinga.
Mesmo assim, é melhor gastar dinheiro em vinho do que em haxixe ou outras drogas, como no teu país. Nós não temos cá desses cafés onde se podem fumar umas ganzas em liberdade, mas temos umas belas tascas com mesas de mármore onde se bebem uns copos de três, se joga à sueca e canta à alentejana.
Não fiquei muito admirado com o que tu disseste. No teu país, 40% do território fica abaixo do nível do mar e as pessoas são as mais altas da Europa. Deve ser para poderem tirar a cabeça fora de água e espreitarem para o sul para ver o que se passa por cá. Mas de certeza que isso não faz muito bem ao pescoço. Aqui somos mais baixos e até um pouco mais gordos. Não vem grande mal ao mundo porque, como tu reconheces, as mulheres gostam assim. Também não estamos abaixo do nível do mar porque a maior parte do mar é nosso.
Há no entanto uma coisa em que tu podias ser quase como alguns portugueses. És do Partido do Trabalho, mas trabalhas pouco. Há quase 20 anos no Parlamento da Holanda, depois no Parlamento Europeu e agora como Ministro das Finanças e presidente do Eurogrupo, também temos cá desses trabalhadores. Depois, li por aí que não conseguiste acabar o Mestrado mas que te intitulaste Mestre até seres apanhado. Estás a ver, desses também cá temos. Olha, vou-me despedir com um conselho:
Tu estudaste economia agrícola. Porque é que não te dedicas a apalpar tomates, para ver se estão maduros?
 
Ovar, 25 de março de 2017
Álvaro Teixeira

sexta-feira, 24 de março de 2017

O holandês errante (estatuadesal)

 

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 24/03/2017)

quadros
 
Finalmente, Dijsselbloem é oficialmente considerado uma besta. Demorou, mas lá chegámos. As eleições holandesas mostraram que o Dijsselbloem ainda é menos popular no país dele do que nos países do sul. Desta vez, o presidente do Eurogrupo não disse, como antes das eleições gregas, que os gregos tinham de escolher se queriam ser uma Coreia do Sul ou do Norte. Na altura, eram os do Norte que eram os maus da fita.
não deu por nada no nosso sistema financeiro.
Para muitos, as palavras de Dijsselbloem foram consideradas um comentário infeliz. Vamos lá ver uma coisa, o comentário não é infeliz, é xenófobo e misógino. Se o presidente do Eurogrupo fala desta forma de política europeia, mais valia deitar serradura no
Como todos já devem ter conhecimento, excepto os que felizmente estavam bêbedos, Dijsselbloem disse que os países do Sul gastam tudo em álcool e mulheres. O mais incrível é dizer isto como se fosse mau. Quem me dera ter gasto tanto dinheiro em boémia como gastei em bancos. A verdade é que enquanto a nossa taxa de alcoolemia subia, o partido de Jeroen Dijsselbloem caía dos 25% para os 6%. Se eu fosse o holandês, ia apanhar uma cardina.
Tenho a teoria que esta generalização é conversa de quem passou muito tempo com o Durão Barroso. Por outro lado, desconfio que isso, vinho e mulheres, foi o que andou a fazer a troika quando cá esteve por isso chão das reuniões do ECOFIN, dado que isto é conversa de tasca.
Eu sou dos que gastam dinheiro em álcool, mas confesso que a minha dúvida, quando vou para borga, é sempre a mesma: "bebo mais um Famous Grouse ou poupo para pagar uma tese de mestrado a um indivíduo que perceba disso e aldrabo o meu currículo?" Já em termos de gastos com o sexo feminino, tenho de reconhecer que, por acaso, a única vez que gastei dinheiro numa mulher foi em Amesterdão. Teve de ser. Era o mesmo que ir a Roma e não ver o Papa.
Resumindo, percebo que um indivíduo com o ar do Dijsselbloem ache que para ter mulheres é preciso pagar. Felizmente, não tenho esse problema. O meu problema tem sido o dinheiro que tenho gasto com homens, dado que não há banqueiros do sexo feminino. Em Portugal, temos um vício terrível em gastar dinheiro com malta do sexo masculino, basta dizer que o Mexia ganhou 5,5 mil euros por dia na EDP em 2016. Ou seja, acabo a gastar uma fortuna com um homem e depois não posso desfrutar do sexo feminino, na sua plenitude, porque tenho de apagar a luz porque está caríssima.
No fundo, isto não passa de inveja. Temos boas praias, mulheres bonitas, bom vinho, boa comida e eles têm tulipas. E só não temos mais para gastar nos nossos belos vícios porque muitas das nossas empresas fogem para os "paraísos fiscais" na Holanda. Dá vontade de beber para esquecer.
 
Ovar, 24 de março de 2017
Álvaro Teixeira

terça-feira, 21 de março de 2017

Dijsselbloem no bordel (estatuadesal)

 

(Pedro Santos Guerreiro, in Expresso Diário, 21/03/2017)

dij

Dijsselbloem nunca enganou ninguém: para ele Portugal é mais ou menos um bordel frequentado por pândegos. A Europa está uma coisa linda. Desfaz-se nesta comédia de homens gravíssimos com cauda na intensíssima cabeça.
“Não se pode gastar o dinheiro em copos e mulheres e logo depois pedir ajuda”, disse ele, e nem sequer com ponto de exclamação, porque fala do alto e não para o alto. É uma declaração maravilhosa. Jeroen Dijsselbloem sonha com Lucrécias Bórgias e imagina um país de bacos, bacantes e bacanais a gastar em lixos, luxos e luxúrias, de homens lúbricos de prazeres ímpios troando orgasmos fiados com os cantos da boca molhados pela língua a baloiço. Ó homem, que pena Cesariny não estar aqui para rir à gargalhada! Que pena Gil Vicente estar morto, Bocage ser defunto, Natália não estar no Botequim, Luiz Pacheco já não ver o pino, o Pina não estar na última página do JN, não haver Ary que escreva “merda!” e o próprio O’Neill ter parado o acordeão. Qualquer faria uma barrela de truz! Queres conversa fiada? Toma! Que diabo, hoje é dia mundial da poesia, descurve-se a língua em arpão.
Só que o homem não é só parvo, é ignorante. Aquilo não é só ofensa, é ressentimento. E isto não é só riso, é um esclarecimento. Porque aquilo que ele diz, e não apenas como o diz, une-nos a nós contra o que ele representa mas desune a Europa a favor do que ele apresenta. É por isso que se ele pedir desculpa não aceitem, se contextualizar não divaguem, se disser que foi infeliz devolvam ao remetente.
Ele e outros como ele pensam exatamente aquilo: que é uma continental maçada haver povos aqui. O Reino Unido larga-se por não querer gente de fora, a França cavalga o populismo, a Grécia desfaz-se em pó, a União Europeia desenha cinco cenários porque não tem um plano mas Dijsselbloem descola a boca para se colar aos “do Norte” contra os “do sul”. Isto está a correr bem, Europa.
Dijsselbloem não é um gajo qualquer sentado num café de boas bolachas em Amesterdão, é presidente do Eurogrupo, instituição que reúne mensalmente os ministros das Finanças dos países do Euro, incluindo aquele em que ele é ministro, a Holanda. Depois de dizer que, “como social-democrata, atribuo à solidariedade uma importância extraordinária”, deixa claro que “quem pede ajuda também tem obrigações”. Confrontado com os “copos e mulheres”, não se arrependeu e com algum garbo ripostou: “Essas palavras saíram desta boca”. Bem sabemos.
O problema é que as palavras que saem daquela boca não são inconsequentes. Enchouriçam os juros de um país ainda no limite e atiçam uns contra os outros. Assim se alimentam os preconceitos na União Europeia, que começaram por chamar os gregos de aldrabões com piscinas sob as oliveiras e cabeleireira de folga. Vê-se o que deu. Sete anos depois daquele primeiro resgate, ainda estamos nisto? Esta gente não aprendeu nada? Não aprendeu que o ressentimento não só destrói mas revolta? Não viu que o remédio tomado queimou artérias? Ainda pensa que desfazendo povos se faz a União Europeia? Ainda acha que os gregos violentamente esmagados são uns nababos? Que os portugueses que foram tributados, desempregados e empobrecidos são anzóis de pescaria?
Fomos uns meninos depois do euro, mas não gastámos tudo em vinho e meninas. Estamos carregados de responsabilidade pelo havido, vimos o Estado esconder dívida e os bancos a oferecer o que não teria de volta. Mas também respondemos aos incentivos da “Europa veloz”: gastámos em estradas financiadas por Bruxelas, comprámos BMW a crédito com juros baixos do BCE, importámos Mercedes de categoria e somos o lado de lá das balanças desbalanceadas dos superávites externos. Estamos cheios de problemas, sob elevado risco financeiro e com as agências de “rating” prontas a disparar, contamos duas décadas perdidas na economia e levamos sete anos de austeridade, de cortes de pensões, de salários, de serviços públicos, de aumentos de impostos, de taxas, de contribuições e ainda não sabemos bem como isto há de correr bem. Mas sabemos como pode correr mal: obrigadinho pelas palavras que saíram dessa boca, senhor Dijsselbloem. Volte uma vez por mês, nós estamos cá todos os dias. E se isto lhe parece um bordel báquico, então onde est... Não, é melhor parar por aqui. A primavera chegou, bebamos e amemos.
 
Ovar, 21 de março de 2017´
Álvaro Teixeira

sexta-feira, 29 de julho de 2016

O Bom, o Mau e o Vilão


Este é o título de um filme que vi na minha juventude, mas cujo nome continua a ser atual, porque neste mundo ainda continuam a haver bons, maus e vilões e é baseado nisto que vou escrever este artigo, depois de conhecida a decisão da Comissão Europeia sobre o não cumprimento do nosso défice relativamente às contas do Estado do ano de 2015.
Muita água correu debaixo das pontes, até que fosse encontrada uma solução para uma situação que nos foi imposta e que falhou redondamente.

No lado Bom tenho que colocar o presidente da Comissão Europeia, Jean Claude Juncker, que não cedeu às pressões dos “eurocratas”, tendo reconhecido que a Comissão foi,
Jean Claude Juncker
também, uma parte do problema. Deste lado bom tenho que colocar o nosso primeiro ministro, António Costa, o ministro das finanças, Mário Centeno, e Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, que fizeram um enorme trabalho, para que as sanções prometidas e, quase, dadas como inevitáveis, tivessem sido colocadas de lado. Embora, do meu ponto vista, esta Europa continua a ser forte contra os fracos e fraca contra os fortes, mas a situação está a alterar-se devido aos muitos erros e omissões cometidos ao longo do tempo, essencialmente, após a saída de Jacques Delors.


No lado Mau está o FMI que não acertou uma e, apesar dos seus “altos quadros” estarem em Portugal em quase regime de permanência e pagos a peso de ouro, nunca se aperceberam que as suas receitas, em vez de curar, iam matar o doente e de uma forma
Cristhine Lagarde (diretora do FMI)
muito rápida. Os portugueses sentiram as alergias que lhes provocavam os medicamentos que lhes eram impostos e que, se não houvesse alteração da medicação, a suas vidas estavam por um fio. Neste lado tenho que colocar os “médicos e enfermeiros” que compunham o governo PSD/CDS que, quando viam os doentes entrarem em convulsão lhes diziam que a medicação estava certa e iriam melhorar brevemente. A maioria dos doentes, quando se apercebeu que tinha uma porta do hospital aberta, em 6 de Outubro de 2016, fugiu por ela e procurou outras formas de tratamento. O “diretor do hospital” queixa-se, agora, de que roubaram o hospital e a maioria dos seus doentes e estes, por sua vez, aconselham-no a fazer um tratamento psiquiátrico, como revelam os últimos inquéritos de opinião. Afinal a doença tinha cura, mas não com a medicação que lhes estava a ser ministrada. Basta ler o relatório do Independent Evaluation Office, um órgão independente do FMI, mas que faz a análise das suas políticas.


No lado do Vilão tenho que colocar o Eurogrupo, uma organização não estatutária, mas
Jeroen Dijsselbloem
que influencia muito, presidido por um “pirómano” Jeroen Dijsselbloem,  que se diz socialista, mas talvez a sua doutrina política tenha sido aprendida ao lado os fundadores da “terceira via”, como Tony Blair e Shroëder que abriram o caminho para a implantação, na Europa, do neoliberalismo de Milton Friedman e da Escola de Chicago, cujos efeitos nefastos se fizeram se fizeram sentir no Chile, nos EUA, no Reino Unido e, desde há mais de uma dúzia de anos, na nossa Europa.




Mas, como dizia Lenine “em muitas décadas não se passa nada, mas numa década podem passar-se muitas décadas”.


Ovar, 29 de Julho de 2016
Álvaro Teixeira
 

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